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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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Aviões da FAB não têm fôlego para socorrer ianomâmis

'Se houve recursos para turistas em Israel, é preciso que sejam destinados também aos indígenas', escreve Denise Assis

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Indígenas ianomâmi em Alto Alegre (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

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No período de 26 a 30 de janeiro de 2023 o ministro das Comunicações, Juscelino Filho, usou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) e recebeu quatro diárias e meia no mesmo fim de semana em que participou de leilões de cavalos de raça, que chegaram a custar mais de R$ 1 milhão. A notícia foi divulgada pelo O Estado de S. Paulo e confirmada pelo Correio Braziliense, no dia 28 de janeiro também de 2023, mas ninguém parece ter visto gravidade na situação. Em momento tenso, de negociações difíceis com o chefe do Centrão, Arthur Lira, melhor assoviar, olhar para cima e deixar passar batido.

Note-se, o avião era da Força Aérea Brasileira. A mesma que se recusou a transportar um grupo de 27 ministros - segundo denúncia da jornalista Monica Bergamo, da Folha -, com o fito de entregar alimentos e medicamentos para adultos e crianças desnutridas da tribo ianomâmi.

Lembrem-se que o ministro Juscelino solicitou a viagem com status de “urgência” para o cumprimento de “compromissos oficiais”. Segundo a própria agenda de Juscelino, os eventos totalizaram apenas duas horas e meia. Consta que a agenda do grupo que solicitou a aeronave para deslocar-se até a aldeia ianomâmi também o faria em caráter humanitário e oficial. 

De acordo com a CNN Brasil, nos nove primeiros meses de 2023, os aviões da FAB fizeram 1.574 decolagens para atender autoridades do governo federal. Desta vez, porém, de acordo com o que saiu publicado na coluna da jornalista, “o Ministério da Defesa se negou a disponibilizar aeronaves para levar uma comitiva de ministros à Terra Indígena ianomâmi, afirmam integrantes do governo à coluna”. Melhor não. Poderia enlamear a aeronave. E o trabalhão para dar um lustro depois?

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O pedido do grupo de trabalho composto por ministros do governo, teria solicitado o avião, no dia 10 deste mês: Marina Silva (Meio Ambiente), Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Silvio Almeida (Direitos Humanos) viajariam a Auaris, em Roraima, para acompanhar a crise humanitária que persiste no território. Coisa pouca. Dar de comer e tentar curar crianças que, em pele e osso, mal conseguem se sustentar nas próprias pernas. As imagens são de fazer encolher os corações dos mais inflexíveis...

“Ao se dirigirem à Base Aérea de Brasília, organizadores da operação foram informados de que não receberiam suporte da Defesa, pasta com a qual há um acordo de cooperação para atuação no território. A justificativa dada foi a de que as aeronaves disponíveis não tinham autonomia de voo para chegar a Auaris”. Ora, ora, mas com um país continental como o nosso, ninguém pensou que um dia eles precisariam cortar o céu de Norte a Sul? Neste caso, de Centro Oeste para o Norte?

“Coube, então, à (portentosa???) Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e à Secretaria de Saúde Indígena buscar uma solução por meio de outros contratos já existentes para transportar a comitiva de 27 pessoas até a Terra Indígena Ianomâmi. Três aeronaves Caravan foram obtidas”. Melhor assim. 

Ainda de acordo com a coluna, “a falta de disposição da Defesa incomodou e causou estranheza, mas não surpreendeu lideranças e autoridades que há meses lidam com a crise dos ianomâmis”. E acrescentou: “Para integrantes do governo ouvidos pela coluna, a percepção é a de que os militares alocados na região estão "aquartelados", deixando de fazer ações de rotina e de vigilância na área ameaçada pelo garimpo”. Tradução: fazendo corpo mole. A atitude, faz lembrar os adeptos do inelegível, que faziam vista grossa para o garimpo ilegal, cujos líderes, Roberto Katsuda e Eric Laureano, conforme relatório da Abin sobre o 8 de janeiro, financiaram 83 ônibus para levar golpistas até Brasília.

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O mais surpreendente foi a recomendação dada como saída para evitar novas crises. De acordo com o que nos conta a colunista, “em pelo menos um dos ministérios em que há insatisfação com a atuação das Forças Armadas, contudo, a orientação dada é a de que, em vez de apontar dedos, os auxiliares busquem criar soluções e sua própria logística —como feito na viagem a Auaris”. Algo como dizer: da próxima vez vá de avião de carreira ou pague do seu próprio bolso, já que estão preocupados com essa gente...

Há outros detalhes que também chocam, nesse “não”. Diz lá: “Procurado, o Ministério da Defesa não comentou a negativa de empréstimo das aeronaves”. O ministério da defesa tem um titular que responde por ele: José Mucio. Foi ele quem não deu satisfação de porque o avião da FAB pode levar o ministro das Comunicações para um leilão de cavalos de raça, mas não pode socorrer os povos originários em sua penúria. 

“Afirmou, por outro lado, que o esforço aéreo dos militares no combate ao garimpo ilegal somou 7.400 horas de voo, o equivalente a "mais de 40 voltas na Terra". Que fossem 300 voltas à terra. As aeronaves são do povo brasileiro. As horas de voo são para prestar socorro aos irmãos originários, que estão à míngua, graças ao descuido do ministério da Defesa, que não os defendeu e permitiu que garimpeiros ilegais invadissem as suas terras depredando a floresta, tirando-lhes a comida e violando as suas mulheres.

"Desde o início da força-tarefa do governo federal, em janeiro de 2023, o apoio logístico das Forças Armadas em auxílio aos ianomâmi resultou na distribuição de cerca de 766 toneladas de alimentos e materiais transportados, o que ultrapassou a marca de 36,6 mil cestas de alimentos distribuídas", justificaram em nota. 

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Pois bem, meus caros, foram insuficientes. Há necessidade de levar mais. Ninguém poupou esforços para resgatar turistas (em grande maioria bolsonaristas, ricos), que acompanhavam pastores reacionários pelas ruas históricas de Israel e foram surpreendidos pelo conflito na região. Deveríamos tê-los deixado lá? Não. Claro que não. Mas se houve recursos para eles, é preciso que sejam destinados também aos indígenas. Questão de equivalência.

"Além disso”, alegaram: “foram realizados 3.029 atendimentos médicos e 205 evacuações aeromédicas. Já nas ações de combate ao garimpo ilegal, os militares detiveram 165 suspeitos, entregues aos órgãos de segurança pública. Para as ações foram empregados, aproximadamente, 1.400 militares da Marinha, do Exército e da Aeronáutica". Sim, mas eles voltaram. É preciso vigilância constante nas fronteiras e nas reservas indígenas. Vamos trabalhar, rapaziada. O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever. Não é esse o lema?

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