Bobagem Bater Boca

Mas não assisto o Big Brother. Isso não me faz menos ou mais do que ninguém, afinal minha razão crítica, minhas leituras várias, minha militância de quase três décadas, meus 25 anos como educador (foi no já longínquo ano de 1996 que estreei como professor, tremendo feito vara verde, no Desafio Pré-Vestibular) dizem mais de mim do que as idiossincráticas predileções pessoais e privadas

(Foto: Reprodução)
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Eu assisto Food Network. Vejo horas intermináveis de programação onde chefs cozinham pratos e ingredientes que jamais farei na vida. Vieiras? A última vez que vi, anos atrás, custavam 90 reais. Também acompanho Alienígenas do Passado e Chicago PD. No domingo acompanhei o mais "americano" dos esportes, a final do SuperBowl e o sétimo título de Tom Brady.

Mas não assisto o Big Brother. Isso não me faz menos ou mais do que ninguém, afinal minha razão crítica, minhas leituras várias, minha militância de quase três décadas, meus 25 anos como educador (foi no já longínquo ano de 1996 que estreei como professor, tremendo feito vara verde, no Desafio Pré-Vestibular) dizem mais de mim do que as idiossincráticas predileções pessoais e privadas.

Ver ou não ver o BBB21 não deve ser critério de coisa alguma. O programa é alienante? Grosso modo, futebol e novela e telejornal também o são. É possível fazer uma análise da sociedade e do comportamento brasileiros através dos brothers ou do seu público? Sim, não, talvez. O fato é que milhões de telespectadores acompanham o programa, as situações da casa geram paixões e ódios, criam polvorosa, enfim, entretém a audiência.

"Ah, mas enquanto o povo se digladia com os brothers, o Governo passa a boiada!". Certíssimo. Mas só agora? Não é algo costumeiro? Porque será que o trabalhador, a dona de casa, a mãe chefe de família, o jovem estudante, a periferia, o aposentado, a tia e o tio, o influencer, a militante, o bolsonarista, a professora, o jornalista, assistem e discutem o Big Brother e dão tão pouca atenção às pautas que representam graves ataques e retrocessos ao país?

Não é verdade que a abstenção eleitoral e, grosso modo, o próprio absenteísmo político vem crescendo ano a ano? Qual a razão para que temas vitais como trabalho, salários, aposentadoria, políticas públicas, direitos em geral, desenvolvimento econômico nacional sejam ignorados pelas massas? O fenômeno do BBB, longe de ser fator de simples alienação, não repercute uma mentalidade entranhada na psiquê do cidadão? O triunfo, diria até hegemonia, das ideias de competição, sacrifício, exclusão, premiação do "melhor", não dialoga com as máximas neoliberais e até fascistas?

Mais: a exposição caricata de supostos representantes de identidades não serve como "prova irrefutável" de que não só os ativistas, mas suas causas e métodos são uma fraude, um exemplo vivo de que por trás de discursos libertários se escondem sujeitos repugnantes? O participante Lucas também não sintetizaria a ojeriza do povão com pobre, preto, esquerdista e bissexual? "E aí, como é que resolve?", diria um camarada meu.

A Esquerda, a Direita, o Centro, o Acima, o Abaixo, podem discutir à vontade o tal jogo. O que não é admissível é transformar isso no principal e muito menos deixar que a turbidez midiática consuma as energias enquanto temos lutas históricas pela frente. Quem quiser fazer do BBB medida e referência, o faça. Mas não é essa a questão. A desumanização promovida pelo polêmico programa só parece servir para ilustrar problemas mais profundos.

A inteligência, a intelectualidade e o intelectualismo "podem dançar sem receio", caso queiram. Ao que consta, não é pecado, nem crime. Podem até elaborar teses e mais teses. Talvez alguma delas aponte as conexões entre "isso e aquilo". Só não transformem "o que não é o que não pode ser que não é" num desapontamento geral. A par dos brothers, a vida aqui fora "tá cruel e o bicho tá pegando". Dêem mais tempo e atenção ao que realmente importa. Sem lacração, hierarquia ou estereótipo.

#VacinaParaTodos

#AuxílioEmergencial

#ForaBolsonaro

#ImpeachmentJá

Alex Saratt

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