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Roberto Junquilho

Jornalista e repórter do Século Diário

10 artigos

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Bolsonaro, uma tragédia que já dura 18 meses

Um desastre, a concordância é quase geral. Ficam de fora os que se adaptam à sabujice e se deslumbram com a concentração do poder, a desigualdade, o emprego da violência e uso da religião como formas de convencimento. Vão sendo consumidos, como gado caminhando para o matadouro. Para estes, a cidadania é lixo

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O fundo do poço fica a cada dia mais próximo. Os 1.254 óbitos nas últimas 24 horas, contabilizados em 7 de julho, somados aos 45.305 casos confirmados, com 66.741 mortes comprovam a projeção do Ministério da Saúde, feita em abril. No mesmo dia, anuncia-se que o presidente Jair Bolsonaro, que nunca deu bola para a pandemia, testou positivo e está, supostamente, com a Covid 19. A dúvida é justificada porque a ciência também falha e, nesse caso, há todo um histórico que faz crescer a desconfiança se ele está doente ou não, apesar das informações oficiais. Isso muda algum a coisa ou tudo é parte da tragédia brasileira iniciada há 18 meses? 

Nunca se sabe o que é certo, em se tratando do presidente da República, e, como diz a sabedoria popular, seguro morreu de velho. E tanto é assim que o presidente minimiza o risco e demonstra não se importar se contaminou ou não pessoas com as quais manteve contato, apressando-se a fazer a propaganda do medicamento Cloroquina, coroando a campanha que ele e o Donald Trump, seu chefe, desenvolveram enaltecendo os efeitos curativos da droga. 

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Passados 18 meses da gestão Bolsonaro, não deveria pesar muito o fato de ele estar ou não com a Covid 19, porque, exceção à representatividade protocolar exigida pela função, na realidade já não temos governo. O que resta é um amontoado de bajuladores deslumbrados com o poder, batendo cabeça para ver se descobrem como dar rumo ao País, afundado na pandemia da Covid 19 e em profunda crise econômica, cuja origem é anterior ao início do ataque do coronavírus. 

Não há outra perspectiva que não seja uma tragédia de grandes dimensões: o Brasil chegará a 100 mil mortes, como projetou o Ministério da Saúde há três meses? Haverá aumento do número de desempregados, mais empresas desativadas e incontáveis casos de violência? Caminhamos para esse cenário, bem no fundo do poço. Qualquer reviravolta que provoque a saída do presidente, pelo impeachment ou outro meio qualquer, não apagará as marcas negativas na sociedade, sacudida pelo aumento da arrogância e do autoritarismo. 

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As fraturas expostas estão aí, bem visíveis, mas ignoradas no campo estrutural da nação, que vai da mídia ao Congresso, passando pelo Poder Judiciário, destaque para o Ministério Público, a tapar com a peneira ou por meio de abordagens tipo faz de conta, ilegalidades de público confessadas. Um desses acontecimentos, mais recente, a afirmação do ex-juiz Sérgio Moro revelando nas câmaras de TV que, ao julgar o ex-presidente Lula, era como se estivesse em um ringue. A confissão do embate, e não um julgamento, como deveria, trouxe à tona a parcialidade, mas tudo fica por isso mesmo. 

E o que dizer das estreitas ligações de áreas do poder político com o crime organizado e do desmonte das maiores empresas brasileiras, incluindo a Petrobras, com a participação ilegal de agentes do Federal Bureau of Investigation ou Departamento Federal de Investigação (FBI), dos Estados Unidos, em conluio com procuradores da Lava-Jato? As revelações, detalhadas e com provas relevantes, parecer não se suficientes para desencadear as necessárias apurações, para que a Justiça seja feita.  

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O bojo das ilegalidades é largo, abrigado em potentes mecanismos de controle do mercado, que sustentam a manutenção de distorções e fazem sumir do noticiário fatos intrigantes, muitas vezes envolvendo personagens que fizeram história, para o bem ou para o mal. Aécio Neves, José Serra, a mulher do Queiróz (cadê ela?), Adélio Bispo, o homem da facada, o advogado Tacla Duran, um terror para Moro, e mais uma extensa lista, que poderiam esclarecer capítulos importantes ainda em aberto.  

Isso tudo vivenciando em meio a projeções do Ministério da Saúde, divulgadas em abril, de que cerca de 50% da população brasileira podem ser contaminados pelo vírus, com um grau de letalidade de 0,01% da Covid. Os números indicavam que mais de 100 mil pessoas morreriam da doença. Já chegamos perto, quase 70 mil já se foram neste início de julho. 

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Enquanto isso, além da ausência de um programa de defesa unificado, há no governo central um estímulo à desobediência, o que torna a cidadania coisa de pouco valor e aumenta o nível de contaminação. Os fatos estão aí, mas as estratégias visam apenas a geração de dividendos. 

“Cidadão, não, ele é engenheiro civil formado, gente melhor do que você”, disse a mulher, ao agente de saúde, no Rio de Janeiro, em trabalho para evitar aglomerações. Ela se referia ao companheiro, ao lado, igualmente arrogante, a alçar a formação acadêmica acima da cidadania. O autoritarismo, fruto da ignorância, se espalha, ganhou força a partir do Planalto, agora sem o cercadinho para servir de palanque do presidente diante de seguidores histéricos e com cobertura da mídia garantida. Fez escola e um exército de seguidores fiéis e encantados. 

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Rompeu os limites, foi repreendido, recuou diante da pressão do comando formado em seu entorno, porque afinal as falas sem nexo já ultrapassavam o aceitável, e também do Congresso, onde corre solto e toma lá, dá cá, repudiado na campanha, agora moeda corrente a descer pela goela sempre larga do Centrão. Seus tentáculos alcançam ainda os donos de sistemas religiosos, encarregados de acalmar as “ovelhas” do numeroso rebanho em igrejas chamadas de “hospitais espirituais”. 

Mas que ninguém se engane. A aparente mudança de atitude, mais notada nas duas últimas semanas, mas iniciada desde a prisão do operador miliciano Fabrício Queiróz, um petardo de forte impacto na família, não reduz o seu desejo de estar a permanentemente no ataque: “Fui treinado para matar”, ele já declarou em entrevista. É estratégia de guerra, comunicação de massa, no modelo de Benito Mussolini, o líder fundador do fascismo, na Itália, que ajudou a incendiar a Europa, no século passado. 

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“Tem método muito parecido com a comunicação de massa do fascismo, por exemplo, o uso da religião. Difícil imaginar que Bolsonaro tenha compreendido a essência do cristianismo. Aliás, é próprio do fascismo matar o cristianismo falando de cristo”. Ao fazer essa afirmação no programa Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira (6), o professor Fernando Haddad, define com precisão essa estratégia do governo. 

Um malogro anunciado há tempos e comprovado nesses 18 meses de governo. Absolutamente inepto, o presidente não consegue escolher um ministro para a Educação e mantém há mais de 50 dias na pasta da Saúde, apesar da pandemia, um general da área de logística, que se atrapalha em questões geográficas básicas e sequer sabe onde passa a linha do Equador. 

Um desastre, a concordância é quase geral. Ficam de fora os que se adaptam à sabujice e se deslumbram com a concentração do poder, a desigualdade, o emprego da violência e uso da religião como formas de convencimento. Vão sendo consumidos, como gado caminhando para o matadouro. Para estes, a cidadania é lixo.  

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