Brizola e Lula no cortejo fúnebre de Prestes

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Tinha 15 anos de idade quando vi Leonel de Moura Brizola pela primeira vez na minha frente. O ano era 1982 e transcorria a campanha para o governo do estado do Rio de Janeiro, que, como todos sabem, Brizola acabaria vencendo não obstante o esquema da Proconsult montado para que o candidato do PDT não pudesse voltar a ocupar um cargo de governador.

Coloquei-me dentro de uma velha Kombi branca e fui atrás de uma carreata rumo à zona norte do Rio, que, a um certo ponto, parou para que o gaúcho pudesse apertar as mãos das pessoas. Foi, então, que me deparei com aquele senhor com a sua indefectível camisa azul clara e seu lenço vermelho maragato amarrado ao pescoço.

Ainda não entendia muito bem as razões pelas quais algumas pessoas gritavam “comunista FDP!” enquanto a carreata se deslocava, mas, um pouco instintivamente, percebia que algo havia de muito correto quando, com o punho cerrado, Brizola falava que o problema central do Brasil eram as “perdas internacionais”.

De então, quando ainda não podia votar, até a invasão da Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda pelo Exército, em novembro de 1988, fui brizolista. Alguns dias depois da morte dos três operários da CSN, votei pela primeira vez em candidatos do Partido dos Trabalhadores, a começar pelo seu candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Jorge Bittar.

Em 1989, já havia aderido ao PT e Lula já havia destronado Brizola no posto de liderança política a ser seguida no campo da esquerda, mas o velho trabalhista nunca deixou de representar para mim uma referência em função da sua ênfase na defesa de um projeto de sociedade comprometido com os valores da educação e dos direitos humanos.

Por um lado, o projeto educacional revolucionário dos Centro Integrados de Educação Pública, colocado em prática pelo antropólogo Darcy Ribeiro e pela historiadora Maria Yedda Linhares; por outro lado, o projeto de segurança pública comprometido com a garantia dos direitos humanos das classes subalternas, nas periferias e favelas do estado.

Passado o rescaldo da duríssima disputa entre Lula e Brizola para saber quem, do campo democrático popular, enfrentaria o candidato das classes dominantes (Fernando Collor) no segundo turno das eleições presidenciais, e, também, o coerente e digno apoio de Brizola a Lula no segundo turno, tornaria a ver de perto mais uma vez apenas o ex-governador de dois estados.

Nos inícios de março de 1990, o líder comunista Luiz Carlos Prestes acabara de ser velado no Palácio Tiradentes, no Centro do Rio, e seu féretro estava sendo levado, num cortejo fúnebre, até o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo. Lado a lado, Brizola e Lula seguiam o cortejo a pé, quando, de repente, de uma janela começou a soar o hino da Internacional.

Nesse 22 de janeiro em que estaria completando 100 anos de idade, caso estivesse vivo, é essa a lembrança viva que trago dentro de mim daquela que foi uma das principais personalidades políticas que lutaram, antes e depois do golpe de 1964, por uma Brasil soberano, democrático e livre das desigualdades que até hoje não conseguimos superar.

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