Bye Bye, 1991-2022

O trabalho duro começa agora. Bem-vindos ao Novo Grande Jogo turbinado a crack

Presidentes Joe Biden (EUA), Xi Jinping (China) e Vladimir Putin (Rússia)
Presidentes Joe Biden (EUA), Xi Jinping (China) e Vladimir Putin (Rússia) (Foto: Divulgação)


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2023 começa com o coletivo da Otan em Modo Totalmente Pirado com o anúncio feito pelo Ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, de que a fragata Almirante Gorshkov, da Marinha russa, saiu em viagem – equipada com um conjunto dos cartões de visita hipersônicos do Sr. Zircon. 

No roteiro dessa viagem de negócios estão os Oceanos Atlântico e Índico e, é claro, o Mediterrâneo, o antigo Mare Nostrum do Império Romano. O passeio do Sr. Zircon não tem absolutamente nada a ver com a guerra na Ucrânia: ele sinaliza o que virá depois, quando chegar a hora de fritar peixes muito maiores que um bando de dementes em Kiev. 

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O fim de  2022 selou a fritura do Peixe Grande da Negociação da Ucrânia. Ele agora foi servido em uma bandeja quente – e totalmente digerido. Moscou deixou dolorosamente claro que não há qualquer razão para confiar na superpotência em declínio, notoriamente "incapaz de acordos". 

Até os taxistas de  Dacca estão fazendo suas apostas quanto a quando a tão propalada "ofensiva de inverno" irá começar, e até onde ela irá. O caminho adiante para o General Armagedom é claro: desmilitarização total e deseletrificação movida a esteróides, além do massacre de multidões de ucranianos ao menor custo possível para as Forças Armadas russas no Donbass, até que os dementes de Kiev peçam misericórdia. Ou não. 

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Um outro peixe grande em bandeja quente ao final de 2022 foi o Acordo de Minsk de 2014. O cozinheiro foi ninguém menos que a antiga primeira-ministra Merkel ("Uma tentativa para ganhar tempo para a Ucrânia"). O que fica implicado aí não é exatamente a prova conclusiva do revólver ainda fumegante: a estratégia do combo neocon-straussiano/conservadores neoliberais no comando da política externa dos Estados Unidos, desde o começo, era desencadear uma Guerra Eterna por procuração contra a Rússia. 

Merkel talvez tivesse algo em mente quanto contou aos russos, da forma mais direta possível, que ela mentiu tanto quanto o cripto-Soprano Mike Pompeo, por vezes seguidas, durante anos. O que não envergonha Moscou, e sim Berlim: mais uma demonstração explícita de sua total vassalagem ao Império. 

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A resposta dada pela encarnação moderna de Mercúrio, Maria Zakharova, do ministério das relações exteriores russo, foi igualmente intrigante: a confissão de Merkel poderia ser usada para embasar especificamente  – e também como prova – um processo judicial movido contra os políticos ocidentais responsáveis por provocar a guerra por procuração Rússia-Ucrânia. 

É claro que ninguém vai confirmar oficialmente, mas isso talvez seja parte de um acordo secreto Rússia-Alemanha, atualmente sendo gestado, que levaria à restauração de pelo menos parte da soberania alemã. 

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Hora de fritar o peixe da Otan

Enquanto isso, o vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, deliciando-se visivelmente com sua encarnação totalmente sem-censura, falou sobre a saga da Negociação do Peixe Frito. "Última advertência a todas as nações": "Não se pode fazer negócios com o mundo anglo-saxão [porque] ele é ladrão, caloteiro, trapaceiro capaz de qualquer coisa... De agora em diante não teremos nada a ver com eles, até que uma nova geração de políticos sensatos chegue ao poder... Não há ninguém no Ocidente com quem possamos tratar, sobre o que quer que seja, por qualquer razão".

É significativo que Medvedev, em pessoa,  tenha recitado o mesmo script para  Xi Jinping em Pequim, dias antes a chamada de zoom para acabar com todas as chamadas de zoom – entre Xi e Putin – que funcionou como uma espécie de fechamento informal de 2022, com a parceria estratégica Rússia-China em perfeita sincronia.

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No front da guerra, o novo barato – ofensivo – do General Armagedom  fatalmente irá levar, nos próximos meses, a um fato indisputável no terreno: a partição entre o buraco negro disfuncional, ou o pouco que sobrou da Ucrânia a oeste, e a Novorossia a leste.

Até mesmo o FMI reluta em jogar mais dinheiro no buraco negro. O orçamento de Kiev para 2023 apresenta um déficit – irrealista - de 36 bilhões de dólares. Metade desse orçamento é de despesas militares. O verdadeiro déficit, em 2022, beirava os 5 bilhões ao mês, e é inevitável que venha a inflar ainda mais.

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Tymofiy Mylovanov, professor da Escola de Economia de Kiev, fez um erro escandalosamente cômico: o FMI está preocupado com a "sustentabilidade da dívida" da Ucrânia. Ele continua: "se até o FMI está preocupado, imaginem o que os investidores privados não estariam pensando". Não haverá "investimento" no que sobrou da Ucrânia. Os abutres multinacionais irão se apossar, a preço vil, de terras e de quaisquer restos de bens produtivos que ainda existam.

Pode-se afirmar que o maior peixe a ser frito em 2023 é o mito da Otan. Todos os analistas militares sérios, entre eles uns poucos americanos, sabem que o Exército e o complexo industrial-militar russos representam um sistema superior ao que existia ao final da URSS, e muito superior ao dos Estados Unidos e do restante da Otan, hoje.

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O golpe final ao estilo Mackinder na possível aliança entre a Alemanha (União Europeia), a Rússia e a China – que é o que está por trás da guerra por procuração dos Estados Unidos na Ucrânia – não está se desenrolando segundo o sonho molhado dos straussianos. 

Saddam Hussein, antes um vassalo do Império, sofreu mudança de regime porque queria abandonar o petrodólar. Agora temos a inevitável ascensão do petroyuan – "em três ou quatro anos", como anunciado por Xi Jinping em Riad: o que não pode ser evitado com um Choque e Terror sobre Pequim.

Em 2008, a Rússia embarcou em uma reconstrução maciça de suas forças de mísseis e em um plano de catorze anos de modernizar as forças armadas terrestres. O Sr. Zircon apresentando seu cartão de visita hipersônico  por todo o Mare Nostrum é apenas uma pequena parte do Grande Quadro. 

O mito do poderio dos Estados Unidos

A CIA abandonou o Afeganistão em uma retirada humilhante – deixando para trás até o caminho de rato da heroína – apenas para se transferir para a Ucrânia e continuar a tocar os mesmos discos velhos e rachados. A CIA está por trás da atual sabotagem da infraestrutura russa juntamente com o MI6 e outros. Mais cedo ou mais tarde virão as consequências.

Poucas pessoas – agentes da CIA, inclusive – sabem que a cidade de Nova York, por exemplo, pode ser destruída com um único ataque: explodir a ponte George Washington. Sem a ponte, a cidade não poderá ser abastecida de alimentos e da maioria de suas necessidades. A rede elétrica de Nova York pode ser destruída com a derrubada da central de controles, e recolocá-la em operação pode levar um ano. 

Mesmo trespassada por infinitas camadas de nevoeiro de guerra, a atual situação na Ucrânia ainda é apenas uma escaramuça. A guerra real ainda não começou – ainda. É possível que ela comece em breve.

Fora a Ucrânia e a Polônia, a Otan não possui força militar digna de nota. A Alemanha tem um ridículo estoque de munição para dois dias. A Turquia não irá enviar um único soldado para lutar contra os russos na Ucrânia.  

Dos 80.000 homens enviadas para a Europa, apenas 10% estão armados. Recentemente, houve um acréscimo de 20.000 homens, nada de muito importante. Caso os americanos ativem suas tropas na Europa – uma ideia ridícula em si – eles não teriam onde aterrissar material e reforços. Todos os aeroportos e portos marítimos teriam sido destruídos pelos mísseis hipersônicos russos em uma questão de minutos – tanto na Europa continental como no Reino Unido. 

Além disso, todos os centros de combustíveis, como Roterdã, para petróleo e gás, seriam arrasados, bem como as instalações militares, incluindo as principais bases na Europa: Grafenwoehr, Hohenfels, Ramstein, Baumholder, Vilseck, Spangdahlem e Wiesbaden na Alemanha (para Exército e Força Aérea); a base aérea de Aviano, na Itália; a base aérea de Lajes, nos Açores portugueses; a base naval Rota, na Espanha; a base aérea Incirlik, na Turquia e as bases  Lakenheath e Mildenhall da Royal Air Force, no Reino Unido.

Todos os jatos de combate e bombardeiros seriam destruídos – após aterrissar ou já pousados: não haveria onde aterrissar exceto em autoestradas, onde eles seriam alvo fácil para ataques russos.

Os mísseis Patriot não valem nada – como todo o Sul Global percebeu na Arábia Saudita, quando eles tentaram derrubar mísseis Houthi vindos do Iêmen. O  Iron Dome de Israel não consegue sequer atingir todos os mísseis primitivos vindos de Gaza. 

O poderio militar americano é o supremo mito do tipo peixe a ser frito. Eles, essencialmente, se escondem por trás de procuradores – como as Forças Armadas da Ucrânia. As forças americanas são inúteis, exceto em situações de extrema superioridade, como no Iraque, em 1991 e 2003, lutando contra um inimigo incapacitado, no meio do deserto e sem cobertura aérea. E nunca esqueçamos que a Otan foi completamente humilhada pelo Talibã.

O ponto de ruptura final 

2022 marcou o fim de uma era: o ponto de ruptura final da "ordem baseada em regras" instaurada após a queda da URSS.  

O Império entrou no Beco do Desespero, jogando tudo o que se possa imaginar e mais um pouco – guerra por procuração na Ucrânia, AUKUS, histeria em Taiwan – para desmontar o cenário que eles mesmos criaram em 1991.

O recuo da globalização vem sendo implementado pelo próprio Império. Esse recuo vai desde o roubo do mercado de energia da União Europeia da Rússia para que os patéticos vassalos comprem energia dos Estados Unidos a preços altíssimos, até esmagar toda a cadeia de fornecimento de semicondutores, forçando que ela seja reconstruída em torno do próprio Império na tentativa de "isolar" a China. 

A guerra da Otan contra a Rússia na Ucrânia é apenas uma peça na engrenagem do Grande Novo Jogo. Para o Sul Global, o que realmente importa é que a Eurásia – e ainda mais além – esteja coordenando seu processo de integração, da Iniciativa Cinturão e Rota até a expansão dos BRICS+, da Organização de Cooperação de Xangai ao Corredor Internacional de Transportes Norte-Sul,  da OPEC+ à Parceria da Grande Eurásia.

Voltamos ao que o mundo era em 1914, ou antes de 1939, mas apenas em um sentido limitado. Há uma pletora de países tentando expandir sua influência, mas todos eles estão apostando na multipolaridade, ou na "modernização pacífica", termo cunhado por Xi Jinping, e não nas Guerras Eternas: China, Rússia, Índia, Irã, Indonésia e outros.

Então, bye bye, 1991-2022. O trabalho duro começa agora. Bem-vindos ao Novo Grande Jogo turbinado a crack.

Tradução de Patricia Zimbres

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