Cai o apoio à democracia no país

Precisamos sair do cinza, sair de trás das telas de computador, voltar a falar com as pessoas, reunir gente, ir para a praça, com ordem, mas em protesto e em ato de conscientização

Saiu já no primeiro dia do ano de 2020 aquela que, espero, seja a pior notícia de todo o ano: apoio à democracia cai no primeiro ano do governo Bolsonaro. Com essa manchete, a Folha de S. Paulo encabeçou a matéria sobre o levantamento feito pelo Datafolha, instituto de pesquisa da casa.

Para 62% dos entrevistados, a democracia é sempre melhor que outras formas de governo. No levantamento anterior, realizado em outubro de 2018, esse índice era de 69%. Entendendo que o meio, ou seja, a igualdade de 50% é o que colocaria tudo a perder. Podemos dizer que perdemos 37% da margem de segurança que tínhamos (que era de 19% e caiu para 12%) em apenas um ano. Mas que ano!

Uma análise mais acurada revela que o problema é maior, digo, há mais gente que se importa menos com a democracia entre aqueles que têm baixa escolaridade e/ou baixa renda. Isso, sem mais, explica em parte o severo ataque que o atual governo faz às universidades e ao conhecimento científico e humano acumulado, por um lado, e promove a desigualdade por outro lado. Ambas iniciativas favorecem o governo, malgrado o largo prejuízo ao país e à nação brasileira inteira.

Senão vejamos. O atual governo se estabeleceu devido a um ataque direto à democracia, por meio de lawfare, uma guerra em que a lei é usada como arma para abater um inimigo ideológico. 

Pouco importa se gostamos ou não da Dilma e de seu governo, o fato é que a tal “pedalada fiscal” não foi mais que uma piada que deu certo, até porque num dia derrubou a presidente e no dia seguinte foi liberada. Ninguém que tenha alguma honestidade intelectual pode fechar os olhos pra esse óbvio, ainda que o governo merecesse tais e quais críticas, e até eventualmente merecesse ser forçado politicamente a uma renúncia. O que se fez foi rasgar a lei, comprometendo seriamente as instituições todas e o Estado de Direito.

O governo Bolsonaro é herdeiro indireto desse processo, claramente montado para empoderar a centro-direita, que na eleição de 2018 amargou 4,6% dos votos. 

É herdeiro também de uma coincidência histórica. Pelo que tudo mostra, a cada vez que surge uma mídia potente nova e, como tal, mal regulamentada, o ideário fascista toma conta. Foi assim com o rádio nas décadas de 20 e 30 do século passado e depois da virada do milênio, com o crescimento vertiginoso da Internet e seus subprodutos, como as redes sociais e o WhatsApp, nas quais as fake news reinaram absolutas, de lado a lado, embora o lado bolsonarista estivesse muito mais bem assessorado por americanos e israelenses. 

Tudo isso tem a ver com a queda da importância da democracia para manutenção do contrato social e do bem-estar coletivo.

Vale ainda analisar qual é a base que elegeu e sustenta o atual governo. Ainda que tenha caído em tamanho, podemos dizer que é de pelo menos 30%. Porém, seria mais preciso sustentar que é formada por três vezes 10%. 

Um terço da base é formada por cristãos fundamentalistas, que pouco se importam com economia e com liberdade política. Todo o seu interesse está voltado aos costumes, ou, em síntese, para evitar que seu filho “vire” gay.

Outro terço é formado por pessoas adeptas da violência como solução para os problemas da sociedade, que acham que precisamos de um governo que bata forte, que quebre indistintamente o traficante, o desvalido, o comunista, enfim, com tudo que não for seu espelho. Esses pouco se importam com os dois outros grupos.

O terceiro grupo é formado por gente que acredita no mercado, e que não se preocupa com costumes ou com truculência policial, querem a livre concorrência entre empresas e pessoas. 

O mais grave é que desses três grupos, bastante radicais e não alinhados, resulta uma massa de pessoas que tende à indiferença e à uniformização de tudo. Por exemplo, parte dos entusiastas da candidatura vencedora, hoje, vendo as brigas, trapalhadas, laranjais, cocaína em avião presidencial, ligação da família do presidente da República com as milícias cada vez mais evidente, tende ao raciocínio simplista: nenhum governo presta.

O que essa pesquisa aponta, a meu ver, é que precisamos sair do cinza, sair de trás das telas de computador, voltar a falar com as pessoas, reunir gente, ir para a praça, com ordem, mas em protesto e em ato de conscientização. Esse é o condão que pode invalidar o prognóstico do filósofo quase centenário Edgar Morin: “Estamos caminhando como sonâmbulos em direção à catástrofe”.

Acordemos desse sono dogmático, é tempo! De nossa parte temos atuado em favor da democracia, na nossa área de atuação, por meio da defesa intransigente da legalidade e da transparência, dentro de critérios que respeitem a prevalência do interesse público sobre o privado e contra os monopólios que têm gerado ineficiência e abandono de trechos ferroviários importantes para o Brasil.

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