Celac faz a cúpula da integração, soberania, paz, democracia e multipolaridade

Cúpula de Buenos Aires foi acontecimento com projeção internacional

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(Foto: Ricardo Stuckert/Ag. Brasil)


247, por José Reinaldo Carvalho - A realização da 7ª reunião de Cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), em Buenos Aires, Argentina, na terça-feira (24) é acontecimento de projeção internacional. Neste evento, o Brasil, sob a liderança de Lula, retornou ao palco internacional e se reintegrou ao mecanismo do qual o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro o afastou. A Cúpula de Buenos Aires consagrou a presidência pro tempore da Argentina, sob o comando do presidente Alberto Fernández e o projetou como importante dirigente político da região.

O encontro faz parte da retomada dos processos de integração latino-americana e caribenha e da emergência do mundo multipolar. 

O espírito desta cúpula pode traduzir-se em cinco conceitos: integração, soberania, paz, democracia e multipolaridade. 

Integração porque é a ideia mestra, fundadora da Celac; soberania porque é inerente à noção de Estado nacional; paz, porque se orienta pela Proclamação de Havana (2014); democracia porque rechaçou as intentonas golpistas e demais ações da extrema-direita e multipolaridade porque é um mecanismo voltado para atuar no quadro da nova situação geopolítica de declínio do hegemonismo estadunidense e emergência de novos polos de poder.  

É isto que foi escrito com letras de ouro nos discursos dos líderes mais destacados da região, cada qual com seu estilo, expressão de suas concepções políticas e peculiaridades nacionais. Ao fazê-lo, defenderam a essência do mecanismo, atualizaram diretrizes e elaboraram planos concretos consoante as necessidades atuais dos países membros, ao mesmo tempo defendendo os princípios fundamentais e a continuidade histórica. 

Assim, a Celac consolida-se como mecanismo indispensável por transformações de fundo no sistema internacional. No fundo, trata-se objetivamente de uma vertente do anti-imperialismo, do anti-hegemonismo, com o protagonismo de povos e países independentes e a ação assertiva de líderes da estatura de Lula, Miguel Díaz-Canel, Alberto Fernández, Nicolás Maduro, Gustavo Petro e Luís Arce. 

A cúpula da Celac de Buenos Aires distinguiu-se por ser um fator ponderável favorecendo soluções políticas e econômicas válidas numa situação internacional marcada por crises, contradições, ameaças, instabilidade, desequilíbrios, turbulências, intentonas golpistas, intervenções, militarismo e guerras. 

Em um mundo assim dilacerado, as ideias contidas nos 100 tópicos distribuídos em 30 páginas da Declaração aprovada ao final do encontro, podem contribuir para que a humanidade reencontre caminhos e rumos por onde trilhar para buscar o progresso social, a liberdade, a autodeterminação dos povos e nações, a paz e a justiça. 

Cito aqui José Martí, prócer da Independência Cubana e da unidade latino-americana, que firmou o conceito "Nuestra América", cujo aniversário natalício transcorre neste sábado (28). Dizia: "De Nuestra América se sabe menos de lo que urge saber”. Há realmente muito a saber, como antídoto para os falsificadores que difundem mentiras e semeiam cizânia. 

Mas há também muita sabedoria martiana contida nas ideias e decisões daqueles que em 2008, na Bahia, e posteriormente em 2011, em Caracas, lançaram as pedras fundamentais desta grande edificação de cooperação, soberania e paz, que é a Celac. Mais sabedoria martiana se observa também na decisão coletiva, tomada por iniciativa da vanguarda revolucionária cubana, de proclamar na 2ª Cúpula da Celac realizada em Havana em 2014, a América Latina e o Caribe como região de paz.   

A criação da Celac foi um acontecimento de tamanha dimensão que o líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro, disse tratar-se do acontecimento institucional mais importante da região no espaço de um século. 

Aquele acontecimento histórico é indissociável da ação de grandes dirigentes como Fidel, Raúl, Lula, Chávez, Evo, Ortega, Néstor Kirchner, Cristina KIrchner, Tabaré, Mujica, Rafael Correa. 

Em 12 anos de existência, ao longo de suas 7 cúpulas, a Celac afiançou-se como instrumento de diálogo e defesa da identidade, aspirações e culturas regionais, sob os princípios básicos da inclusão dos 33 países independentes da América Latina e Caribe e sem a pretensão de substituir os mecanismos existentes. Dessa maneira, a Celac tornou-se um dos fatores propulsores de novos equilíbrios de forças no mundo, um ator diferenciado na cena internacional, contraposto ao hegemonismo imperialista, credenciado a contribuir para o advento de nova ordem política e econômica mundial.

A importância histórica dos atuais processos de integração na América Latina se agiganta quando se tem presente que há bem pouco tempo a organização com aparência, somente a aparência, de multilateralismo que existia na região era a famigerada Organização dos Estados Americanos (OEA), instrumento dócil a serviço dos interesses da grande potência do Norte. Nos anos mais recentes, surgiu o famigerado Grupo de Lima, uma contrafação de organização multilateral, criada com o fim precípuo de fomentar golpes e intervenções e instrumentalizar a intentona de derrubar o governo revolucionário bolivariano da Venezuela. 

A Celac, com a variedade de experiências políticas e de modelos socioeconômicos e um patrimônio histórico-cultural com matriz comum, é a experiência institucional que mais se aproxima do sonho de integração e independência de Martí e Bolívar e das mais profundas aspirações dos povos da região.

A existência da Celac é uma ruptura na prática com o pan-americanismo inseminado pela Doutrina Monroe e desenvolvido com a orientação política que no começo do século 20 foi batizada de “Corolário Roosevelt”. A partir da sua fundação, passou a existir um novo pan-americanismo, o da Nossa América, aquele que corresponde à vontade de povos soberanos e abre caminho para a conquista da segunda independência. 

Isto assume ainda maior significado, se se tem presente que para além da postura patriótica e da decisão de afirmar a soberania nacional, o bloco se orienta – malgrado inevitáveis diferenciações – pela luta por objetivos de inclusão social, crescimento com igualdade e desenvolvimento sustentável.

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