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Paulo Silveira

Sócio fundador do Observatório das Adições Bruce K Alexander (www.observatoriodasadcoes.com.br). Membro fundador do movimento "respeito é BOM e eu gosto!" (www.reBOMeg.com.br)

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Comunidades Infernais Terapêuticas

Hitler se orgulharia de seus discípulos seja quanto às comunidades terapêuticas

(Foto: Crédito: Pixabay)
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Por Paulo Silveira e Eduardo Real

Não queria voltar pra casa. 

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Me sentia envergonhado. 

Pensava repetidamente ser uma decepção diante de todas as expectativas, que na real, nem sabia quais eram, mas foram expressas em olhares, gestos, palavras etc codificados.

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Éramos várias pessoas lado a lado numa madrugada fria na esquina da Av. Rio Branco com a Rua Helvetia, centro de São Paulo. Cada um de nós mergulhados em seus pensamentos, buscávamos numa tragada, manter distância de tudo que nos causava dor.  

Era gente dali mesmo, gente de longe, gente que já fazia um tempo que era de um qualquer lugar nenhum. 

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Cachimbo improvisado, não era o mais adequado, mas funcionava bem e assim não precisava ficar enchendo saco de ninguém. Tampinha de Coca-Cola, tubo de caneta Bic, papel alumínio furado, tudo amarrado com fita arrancada no dente da sacola plástica no lixo achada.

As vezes pensava entre as brisas 

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- Nossa... já faziam uns três ou quatro meses que eu estava por lá. Mas tem um lado bom em estar invisível, não tinha nome e isso me protegia de outras coisas que me apavoravam só de pensar, como, por exemplo, internação em Comunidade Terapêutica, bagulho as vezes tão zoado quanto estar na rua meu irmão!

Quando esse medo batia, curiosamente sentia uma vontade incontrolável de usar mais, como se fosse a última oportunidade antes de voltar aquele tipo de lugar. 

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Mas deixava pra lá, era melhor nem pensar...

Ombro no ombro, aquecíamos. Cada um concentrado ou no acender, ou na cinza de uma bituca, no farelo na palma da mão ou na incrível possibilidade de achar uma pedra perdida no chão. 

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Mas algo tirou a concentração de todos: luzes vermelhas e azuis avançavam devagar. 

Eram seis ou sete viaturas da PM, chegando silenciosas por todos os lados. Dentro delas, olhos e canos nos fitavam com ódio, deboche e desprezo. 

Ninguém saiu correndo e eu segui essa orientação dos mais experientes.

Sentia-me como se estivesse nu! Nem tentei disfarçar algo que estava dito, explícito na cena que nos denunciava publicamente o que éramos, continuamos ser pelo estar. 

Mas Pá Pá Pá! 

Não aguentaram ver nossa paz. 

É tiro! 

Alguém puxou minha camiseta e disse “corre maluco!”. 

Corri sem saber pra onde junto com toda aquela gente. As viaturas, tipo, corriam do lado e cuspiam fogo em nossa direção. 

Uns corriam, outros caiam. 

Me joguei no meio de um monte de sacos de lixo!

Acho que não perceberam ou me deixaram para lá.

Me encolhi imitando um saco. 

Vermes, coração à milhão e assombro, lembro disso. 

Depois de uma hora já não ouvia gritos, mas não podia me levantar porque em alta velocidade ainda passavam as viaturas pra lá e pra cá. 

O dia raiou e segui andando. 

Percebi que aqueles tiros e pancadaria toda, não funcionaram. 

Eu estava de novo ali e a vontade continuava, quem era pobre continuava pobre e quem tinha continuava a ter e o pior, a dor e as lembranças continuavam martelando na mente. 

Depois dessa fita precisava de outra dose numa manhã de 2011, mas como eu ia conseguir? Saí pro corre.

Entre rua, crack, internações e frustrações já era 2014 ou 2015. 

Estava agora em uma Comunidade Terapêutica no interior de São Paulo, amontoado numa sala de uma velha casa de chácara com duas dezenas de rapazes, assistindo o jornal da noite em nossa uma hora diária de jornal permitida. Aquele era o melhor momento pra mim. Já tínhamos passado pelo culto obrigatório, pelos sermões moralistas obrigatórios, pelo trabalho obrigatório, pelo ócio nas cadeiras duras, obrigatório, pelo jantar de resto de feira, obrigatório, pela surra obrigatória e por um dia inteiro pensando quando alguém iria nos salvar, num pensamento repetitivo e obrigatório. 

No jornal, alguém importante aparece relembrando a “sangrenta ação das polícias na região da Cracolândia em 2011 e a ineficácia de Políticas de Repressão”. Puxa, eu estava lá e comentei com o rapaz que estava ao meu lado e alguém falou “xiiiu!”, então percebi que todos estavam prestando atenção no jornal e aquilo também interessava outros. Segundo quem dizia, “São Paulo não tinha ‘Políticas Públicas’ humanizadas para população em situação de rua, usuária de crack e outras substâncias e que aquela situação era uma questão de Saúde, não da polícia” e eu acreditei, piamente, meio em choque e naquele discurso toda minha revolta começou a tomar forma. 

Não sabia explicar até ali, mas uma sensação me acompanhava de que tudo aquilo que passei e outros passavam por sermos “usuários” estava errado. Até então, só conhecia apanhar, ser apontado, tomar enquadro, ser internado e fazer um uso suicida sem o mínimo de cuidado. 

Mas aquela fala mexeu comigo! 

Política Pública? 

Seria possível outra realidade que não fosse uma tão violenta pra mim e toda aquela gente, ora desamparada, ora encarcerada?

O bom de ser “compulsivo e obsessivo” como alegam os diagnósticos psiquiátricos e as frases de efeito de grupos de ajuda-mútua, é que, quando coloco algo na cabeça, aprofundo!

Tive que esperar para sair da “comunidade terapêutica onde estava, porque ali não podia buscar informação muito menos questionar, mas o fato estava dado, existiam outras possibilidades e não era apenas eu que estava incomodado.

Em São Paulo em 2011, sob o comando de Alckmin, aconteceu uma das primeiras grandes ações unificadas das polícias na região conhecida como Cracolândia, região central de São Paulo, e isso se tornou praxe dos governos posteriores. A bandeira da “Guerra às Drogas e do combate ao tráfico”, como justificativa para a prática, pelo Estado, da violência, de ações absurdamente desumanas, excludentes que agravam ainda mais a vida daqueles que ali estão, caiu muito bem pra desviar o foco dos problemas reais de nossa sociedade, que não deixam outras alternativas de vida para esses cidadãos. 

Em paralelo e com apoio do Governo Federal, acontecia a proliferação de novas modalidades de manicômio, as chamadas Comunidades Terapêuticas, financiadas pelo poder público e pela campanha equivocada do programa “Crack, é possível vencer”. 

As comunidades terapêuticas, por serem registradas como entidades religiosas, não estão sujeitas a nenhum tipo de fiscalização por parte dos órgãos regulatórios e nem mesmo à prestação de contas dos recursos públicos recebidos, que não são poucos. Em 2023, o poder público destinará a elas em torno de R$ 800 milhões de reais.

O absurdo de suas existências é tanto, que em 2017 o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) solicitou que fosse feita uma inspeção nessas instituições. O relatório final, fruto dessas inspeções, feito pelo Ministério Público Federal, aponta uma série de crimes, mas tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes! 

Inspeção nacional aponta graves violações de direitos humanos em comunidades terapêuticas

https://www.mpf.mp.br/pgr/noticias-pgr/inspecao-nacional-aponta-graves-violacoes-de-direitos-humanos-em-comunidades-terapeuticas 

Ao longo de anos, de forma rasteira, as Comunidades Terapêuticas passaram o rodo em toda a construção histórica de um projeto Antimanicomial, de Cuidado em Liberdade, no território e centralizado na Saúde Pública. 

A Luta Antimanicomial e qualquer possibilidade de uma Política que superasse os manicômios e as ações de repressão violenta foram sendo colocadas em segundo plano com a conivência de todos os poderes que constituem a nossa república - executivo, legislativo e judiciário!

À medida que os donos dessas “comunidades” enriquecem, seus equipamentos se tornam impérios de contenção e encarceramento de corpos, se criando fortes lobbys dentro do Estado Brasileiro, dos espaços acadêmicos, grandes veículos de imprensa, exercendo forte influência na opinião pública, como não podia deixar de ser.

O projeto de uma Política Pública em Saúde Mental e baseado na redução de danos tão sonhada pelos Movimentos e agentes da Luta Antimanicomial foi subcategorizado. 

O pensamento reacionário, racista, higienista, proibicionista e privatista que elegeu nosso último presidente da república e toda a sua corja vem, assustadoramente, ganhando espaço em toda a sociedade brasileira e, como também não podia deixar de ser, no senso comum, para “cuidar” da população mais fragilizada e afastada dos núcleos de poder.

É nesse movimento sem eira nem beira que a sociedade brasileira caminha, abandonada e completamente só após os movimentos de protesto de 2014, é que se forma um terreno fértil para brotar o fascismos e com ele o fundamentalismo religioso surge como a solução de todos os nossos supostos problemas, uma vez que aqui se repete o mesmo paradigma que norteia nossa sociedade há séculos: o povo sem utopia entrega seu destino a uma meia dúzia de pessoas com uma enorme capacidade de liderança, porém sem nenhum escrúpulo, que os conduz para o abismo!

O tempo se arrasta, 2016 acontece um Golpe no Brasil e é preciso calar aqueles que tivessem o que falar, mas q~eue não podiam ser escutados; surge a velha e gasta fórmula que sempre dá certo: os que não concordam com as elites dominantes são criminalizados e/ou adoecidos.

Como no Brasil tudo é superlativo, a elite ainda encontra uma maneira de incluir a religião nesse bolo...

Pronto, a fórmula parece perfeita!

Agora, os que discordam das elites ou são criminosos ou doentes ou ateus e já não respondem mais somente as leis dos homens, mas estão sujeitos às leis do Deus de uns poucos que se autointitulam os porta-vozes dos tais deuses, os pastores do apocalipse!

As comunidades terapêuticas são então postas como as únicas que têm a possibilidade de resgatar almas perdidas no inferno das drogas e as elevarem ao paraíso dos céus, não importando que tipo de crimes possam cometer, pois aqui e, mais do que nunca, vale o dito popular: o fim justifica os meios! racista, higienista, proibicionista e privatistas.

Hitler se orgulharia de seus discípulos seja quanto às comunidades terapêuticas, sem dúvida um aperfeiçoamento de seus campos de concentração, seja no uso preciso da frase emblemática do nazismo:

Uma mentira repetida 1.000 vezes transforma-se numa verdade!

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