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Paulo Silveira

Sócio fundador do Observatório das Adições Bruce K Alexander (www.observatoriodasadcoes.com.br). Membro fundador do movimento "respeito é BOM e eu gosto!" (www.reBOMeg.com.br)

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Dependência Química II

Ao observamos os seres vivos, desde um simples organismo unicelular até o universo, veremos que a única coisa que têm em comum é o movimento pulsante

(Foto: O.Bellini/Shutterstock)
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Na semana passada abordamos o nascimento da farsa da guerra às drogas e, consequentemente, o surgimento da problematização em torno do termo “dependência química”.

Mas o porquê do uso desse termo e de onde ele surge, qual a sua origem e necessidade de sua existência?

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Em seu excelente artigo “A invenção do Vício ()”, Henrique Carneiro, disseca algumas questões que dizem respeito a “dependência química”. Aconselho a todes que se interessem pelo tema, a lê-lo.

Em primeiro lugar, é importante realçarmos que a existência da “dependência química” é um caso clássico do marketing nazista e, atualmente, dos fascistas para convencerem a todes do quanto são necessários: “uma mentira repetida 1000 vezes torna-se uma verdade!” (), 

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A primeira coisa que salta aos olhos é a relevância dos equipamentos de controle e/ou disciplinadores em nossa sociedade.

A cada passo que damos adiante, mais se consolida a sociedade de controle ().

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O uso de novas tecnologias que deveriam trazer mais conforto para todes nós, se transformou em uma arma para manter o privilégio de uns poucos em detrimento do bem-estar da imensa maioria.

Ao longo de nossa história, esse movimento tem se repetido sistematicamente, em algumas épocas mais do que em outras.

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As prisões, manicômios, escolas, conventos, templos religiosos, as forças armadas, polícias (, ) etc. consomem uma quantidade absurda de recursos de toda a ordem com a única finalidade de nos manter sob controle.

Por outro lado, profissionais que se dedicam a dar prazer ao outro são absolutamente desqualificados, humilhados, desprezados, como, por exemplo, prostitutas e palhaços, assim como as instituições que os acolhem como o circo e os prostíbulos. Mas aqueles que se dedicam a dor e ao sofrimento alheio são louvados, endeusados, santificados!

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Podemos estender essa lógica para outros fatos, como a questão da obesidade, símbolo maior do prazer de comer, que é cercado de inúmeros preconceitos e tido como “feio” pelos padrões estéticos, além das supostas verdades interligando, de forma absoluta, a obesidade com a insanidade, como se a magreza, símbolo da carência, fosse saudável. 

Não à toa a gula é um dos 7 pecados capitais!

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Ao observamos os seres vivos, desde um simples organismo unicelular até o universo, veremos que a única coisa que têm em comum é o movimento pulsante, onde a concentração, a retração é a marca da reação a uma situação desagradável e a expansão a constatação de um processo de relaxamento, tanto maior quanto o que tiver sido conquistado.

Esses dois movimentos atingem seus ápices (em alguns seres vivos, como, por exemplo, nós, humanos), durante o orgasmo, uma vez que ele é exatamente o produto da diferença da amplitude entre os extremos, a concentração e a expansão. Não por outro motivo, o orgasmo é considerado, por alguns pesquisadores, como sendo o maior prazer que nós humanos podemos ter (). 

E, de novo, nos deparamos com algo que nos é proibido, o orgasmo, principalmente para as mulheres. Algumas mulheres, mães de diversos filhos, vivem suas vidas sem jamais conhecerem a sensação do orgasmo! 

A proibição do prazer é tanta que hoje, em pleno século XXI, cerca de 200 milhões de meninas e mulheres são suprimidas de seus clitóris, único órgão do corpo feminino dedicado exclusivamente ao prazer. E todos nós assistimos a isso indiferentes, como se o restante da humanidade não tivesse nada a ver com isso.

Imagine você a seguinte cena: alguém chega em casa cansade do seu trabalho e senta-se em sua confortável poltrona onde lhe esperam um copo de vinho e seu jornal. Imediatamente, ao se acomodar em sua poltrona, uma criança de 3 anos, por exemplo, se aproxima e o chama para brincar.

Seria considerado normal que essa pessoa pedir para a criança esperar porque ele vai relaxar e, em seguida, ambos brincarão.

A criança se afasta correndo, mas tropeça e cai.

A reação esperada da pessoa é que imediatamente se levante e acolha a criança!

E assim vamos naturalizando a lógica de que a atenção, o carinho, a acolhida são respostas características ao sofrimento, já a resposta às vivências de prazer, alegria é, com frequência, a indiferença ou a repressão.

Sim, podemos ficar aqui descrevendo / citando inúmeros exemplos de quanto o prazer é proibido e a dor, o sofrimento é recompensado.

Por quê?

O que motiva a todes nós é a busca ao prazer, ao bem-estar.

Se nos lembrarmos da fábula da criação do universo, Adão (o homem) estava só no paraíso até que a mulher lhe oferece a maçã (a fruta da sabedoria na cultura hebraica). Não resistindo a tentação, Adão saboreia a maçã e ambos são expulsos do paraíso recebendo ainda como castigo a penalidade de Adão ter que trabalhar para sustentar sua família e Eva sentir dores ao parir.

Se o que nos move é o prazer, aquele que dominar o prazer do outro domina a sua vida ou, em outro sentido, quem é suprimido do prazer não tem motivos para viver, ficando mais dócil, subserviente, se sujeitando a servir a seu senhor / homem / algoz!

Dentro dessa ótica, por que substâncias que proporcionam prazer iriam ser permitidas?

Como a elite não pode declarar o prazer como proibido, ela busca subterfúgios para proibi-lo. Então, utilizam “oficialmente” motivos completamente aleatórios, mas que na realidade defendem seus interesses.

Um grande exemplo é o uso da maconha no Brasil.

Em 4 de outubro de 1830, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro promulga a primeira lei que proíbe o uso da maconha no Brasil, sendo o uso punido mais severamente do que o comércio, uma vez que o comércio era praticado por homens brancos, integrantes das elites, donos das terras onde a maconha era plantada e, portanto, quem a comercializava e quem a usava eram os escravos negros, os gentios, os excluídos do poder... 

A justificativa para a proibição.... “Fica proibido o uso da maconha por homens negros, porque seu pito os deixa preguiçosos, sem vontade de trabalhar, somente desejando o prazer do sexo. Já as mulheres negras devem ser estimuladas a usar, pois reproduzirão mais. Quanto ao homem branco, ele sabe o que lhe é melhor.” ()

Os fatos referentes ao uso regular de substâncias psicoativas são tão mascarados que poucos sabem que Sigmund Freud (), por exemplo, era usuário de cocaína, Walt Disney de ópio, Ray Charles de heroína. Keith Richards, guitarrista do Rolling Stones, e tantos outros intelectuais, músicos, religiosos e todo tipo de gente, de todas as classes socioeconômicas e culturais usaram e usam, regularmente, substâncias psicoativas.

Para os integrantes das elites financeira, intelectual ou moral, o uso de substâncias psicoativas é e sempre foi circunstancial, ou seja: depende da utilidade que o usuário tem para a elite. Se lhe for conveniente, o uso de drogas torna-se algo pitoresco; se o usuário incomodar a elite, torna-se doentio!

A elite sempre isolou seus adversários mais perigosos criminalizando-os ou adoecendo-os e essa é uma das principais utilidades das drogas: justificar o isolamento de seus usuários e desqualificar as denúncias que eles fazem dessa sociedade que nos é imposta.

Com a revolução industrial (1760 / 1840), surge a urbanização, com a urbanização, a concentração de grandes massas e, assim, poderosos movimentos sociais passam a colocar em risco a sociedade idealizada pelas elites.

É necessário o surgimento de novas formas de controle.

Já não basta mais punir, é fundamental que a disciplina se torne mais rígida, determinando com precisão o que pode ou não ser feito, quem pode ou não viver, quem é útil ou não.

É necessário disciplinar com mais rigidez a grande massa que, até então, espalhava-se por grandes extensões territoriais, dificultando sua organização e, consequentemente, a produção de movimentos sociais. Essa massa de gente aglomerada nas grandes cidades precisa adequar-se docilmente às novas regras da vida urbana. Assim, seus membros são transformados em produtores de bens de consumo, produtores - na realidade -- da riqueza de seus senhores.

A elite precisa que homens, mulheres, crianças e todos aqueles que conseguem manter seus corpos de pé trabalhem até 14 horas por dia, sujeitos a todos os tipos de castigos, abusos sexuais, humilhações, salários aviltantes e, ainda por cima, agradecendo o fato de estarem vivos.

Agora, os senhores já não são mais donos de corpos escravizados, mas os donos de almas humanas, os ladrões da autoestima dos trabalhadores, porque é necessário que todos acreditem que seus senhores, os donos das fábricas, são pessoas bem-intencionadas que querem produzir riqueza para, no futuro, distribuí-la entre todos os que merecerem!

Enquanto a riqueza não cresce o suficiente para ser distribuída entre todes, a elite administrará a vida de todes, visando o bem comum lógico, sem que os trabalhadores tenham sequer o direito de reclamarem, numa situação pior do que as dos antigos escravos, uma vez que aos escravos era reservado o direito de serem castigados e com isso se revoltarem. 

Aos operários não, surge a meritocracia que traz uma nova verdade: quem se empenhar será recompensado, portanto, os que não se sentirem recompensados é porque não se empenharam o suficiente, tendo em vista que o sistema é perfeito.

Para completar tudo isso, na relação escravo e seu dono, os donos tinham de garantir a alimentação e a moradia para que os escravos se mantivessem com saúde e, consequentemente, com valor para venda, remunerando seus senhores.

Já os trabalhadores fabris não, basta a seus patrões pagarem seus míseros salários, porque se algo lhes acontecer, são pura e simplesmente substituídos.

E assim nasce o biopoder () que vai determinar quem e como se vai viver!

Nessa dinâmica, os males dos indivíduos passam a ser de responsabilidade do próprio doente. Se, antes, o usuário abusivo de álcool era identificado como “adicto”, palavra originária do latim que significava aquele que tinha se tornado escravo por não pagar suas dívidas, agora adicto era aquele que não conseguia ter controle sobre um hábito, como o jogo, consumo de bebidas alcoólicas, etc.

Mas isso não bastava mais, até porque a “doença” da adição acontecia entre membros da elite.

 Assim, era preciso caracterizar a relação com algumas substâncias psicoativas como algo doentio, oriundo da má formação do organismo do indivíduo, uma doença incurável e genética, inocentando por completo o sistema socioeconômico que sustenta a elite com todos os seus privilégios, como sempre foi.

Surge então, a “dependência química” que afirma, sem nenhuma comprovação de espécie alguma, que as substâncias é que viciam os indivíduos e, tal como a lepra ou o câncer ou qualquer outra doença, se não for imposto um tratamento ao dependente, ele não conseguirá libertar-se do “vício”,

Esse novo paradigma autoriza, inclusive, que o sistema aja independente da vontade do doente, pois sua vontade estaria capturada pela droga, mantendo-o permanentemente subserviente a ela.

E como diz o ditado popular “o que arde cura, o que aperta segura”, se o paciente reclamar é sinal de que está sendo curado.

Daí nascem os manicômios, onde os usuários de substâncias psicoativas são misturados com pessoas em sofrimento mental e, mais recentemente, as comunidades terapêuticas que transformam os campos de concentração nazistas em parques de diversão.

Pronto, finalmente o prazer é patologizado e com isso todes ganham, desde a elite ao ter o sistema que a sustenta inocentado até a indústria farmacêutica com a venda de drogas, mas isso é outra história!

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1 Publicado em “Criminalização ou acolhimento, Políticas e Práticas de cuidados com pessoas que também fazem uso de drogas”, em www.observatoriodasadicoes.com.br, livre acesso

2 LTI, A linguagem do Terceiro Reich, Victor Klemperer

3 1984, George Orwell

4 Vigiar e Punir, Michael Foucault

5 Manicômios, prisões e conventos, Erving Goffman

6 A Função do Orgasmo, Wilhelm Reich

7 Droga, A História do Proibicionismo, Henrique Carneiro 

8 Freud e A Cocaína, David Cohen, com notas de Ana Freud

9 Em defesa da sociedade, Michael Foucault

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