Descolonizar é preciso: abaixo o Borba Gato!

"Quem não recorda as estátuas de Lenin sendo arrancadas das praças públicas após o fim da URSS? Alguém defendeu que elas fossem preservadas pelo 'valor histórico'? Ou que a cidade de São Petersburgo mantivesse o nome de 'Leningrado'?, questiona a jornalista Cynara Menezes

(Foto: Divulgação)
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Por Cynara Menezes, para o Jornalistas pela Democracia 

Na Cidade do México não há nenhuma praça, rua ou avenida importantes com o nome de Hernán Cortés, o sanguinário “conquistador” que estuprou e massacrou indígenas, dizimando uma civilização inteira. É raro encontrar no país logradouros homenageando os espanhóis, mas há inúmeros lugares nomeados em náuatle, a língua asteca.

Em Lima, durante 50 anos houve no centro da cidade uma “Praça Pizarro”, com uma estátua de Francisco Pizarro, o sanguinário “conquistador” que também estuprou e massacrou indígenas e também dizimou uma civilização inteira. A estátua acabou sendo removida de lá em 2003 e o local foi renomeado Praça Peru. O Palácio do Governo ainda é conhecido como “Casa de Pizarro”, mas o nome da “Sala Pizarro” foi trocado em 1972 para “Sala Túpac Amaru II”, em homenagem ao líder rebelde anti-colonialista, descendente do inca Túpac Amaru, executado pelos espanhóis.

Quem não recorda as estátuas de Lenin sendo arrancadas das praças públicas após o fim da URSS? Alguém defendeu que elas fossem preservadas pelo “valor histórico”? Ou que a cidade de São Petersburgo mantivesse o nome de “Leningrado”?

Para quê retirar o nome de personagens históricos de um local? Para quê remover estátuas? Embora no Peru, ao contrário do México, o movimento seja menos incisivo, tais atitudes fazem parte do processo de DESCOLONIZAÇÃO de nossa própria visão histórica sobre os países da América, algo que nunca chegou ao Brasil. Continuamos a louvar os colonizadores, festejando o “dia do descobrimento”, dedicando-lhes ruas, avenidas e monumentos e normalizando as barbaridades da “conquista”, eufemismo para o genocídio das populações nativas.

Não é à toa que muita gente por aqui se espantou ao ver o que aconteceu em Bristol, na Inglaterra, dias atrás. Manifestantes antirracistas, sublevados pelo assassinato de George Floyd nos EUA por um policial branco, arrastaram e jogaram no rio uma estátua do traficante de escravos Edward Colston que há 125 anos “ornava” o centro da cidade. Em vez de se espantarem, deveriam se perguntar: como é que até hoje um mercador de seres humanos é tratado como herói?

Enquanto o primeiro-ministro Boris Johnson lamentou que a retirada da estátua não tivesse ocorrido por vias “democráticas”, o Museu Internacional da Escravidão, em Liverpool, apoiou a atitude dos manifestantes, em um comunicado oficial. “A imagem de Edward Colston era altamente controversa e ofensiva para muitos e, ao derrubá-la, é importante notar que não estamos apagando a História e sim fazendo História”.

Há muito tempo ativistas antirracistas britânicos reclamavam das várias homenagens a Colston em Bristol, sem nenhum sucesso em removê-las. Além da estátua, a principal sala de concertos da cidade se chama Colston Hall e já houve várias petições para renomeá-la. O mesmo acontecia com os monumentos ao rei Leopold II na Bélgica, cuja estátua em Antuérpia foi banhada em tinta vermelha pelos manifestantes no último final de semana e acabou removida pelos administradores do porto para reparos, mas com a possibilidade de não voltar mais ao local.

Leopold II foi responsável pelo genocídio no Congo durante a dominação belga, entre 1885 e 1908. Presume-se que pelo menos 5 milhões de congoleses tenham sido mortos, além dos milhares que tiveram órgãos decepados por se recusar a trabalhar. Não parece haver diferença entre Leopold II e Hitler a não ser o fato de as vítimas do primeiro serem negras. Mas os ativistas que há três anos lutam para remover os monumentos em sua homenagem das praças belgas nunca obtiveram apoio das autoridades para que isso acontecesse.

Desde o confronto entre antirracistas e supremacistas brancos em Charlottesville, em 2017, que os negros norte-americanos começaram a se rebelar contra as estátuas em homenagem a racistas, exportando o exemplo a outros movimentos pró-descolonização que passaram a fazer o mesmo em outras partes do planeta. Em 2018, no Canadá, uma estátua do colonizador britânico Edward Cornwallis foi removida do centro de Hallifax após protestos de chefes da etnia Micmac. Cornwallis, que ajudara a fundar a cidade em 1749, entrou para a História por oferecer recompensas a quem matasse um Micmac. Escolas, igrejas e ruas que levavam seu nome também foram rebatizados.

Na África do Sul, em 2015, o movimento Rhodes Must Fall (Rhodes Deve Cair) defendia a derrubada de todos os monumentos no país em homenagem a Cecil Rhodes, o colonizador racista responsável pelo expansionismo da coroa britânica na África e fundador da De Beers, empresa que espoliou boa parte dos diamantes sul-africanos e os explora até hoje. Graças ao movimento, a estátua de Rhodes na Universidade da Cidade do Cabo foi removida.

Agora, com o recrudescimento das manifestações antirracistas nos EUA e na Europa, o #RhodesMustFall voltou. E desta vez são os britânicos que exigem a remoção do monumento a Cecil Rhodes na Universidade de Oxford. Mais de 130 mil pessoas já assinaram uma das petições online apoiando a retirada da estátua, uma reivindicação antiga dos estudantes negros da instituição. Nesta terça-feira, centenas de manifestantes tomaram as ruas de Oxford exigindo que o monumento a Rhodes seja retirado do Oriel College.

Como resposta aos protestos, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, prometeu que irá revisar todos os monumentos da cidade. “Sou a favor que nossa cidade possa refletir os valores que temos e também nossa diversidade”, disse. “Por exemplo, acho que deveria haver em Londres um memorial nacional da escravidão, um memorial nacional Sikh, e acho que deveríamos celebrar grandes britânicos negros.”

No Brasil, finalmente a ideia de descolonização parece estar contagiando corações e mentes, e as redes sociais começaram a se agitar contra as estátuas e monumentos aos bandeirantes que “enfeitam” sobretudo o Estado de São Paulo, onde eles nomeiam avenidas, rodovias e até o palácio do governo. Matadores e escravizadores de indígenas, não há nada de bonito ou honroso em torno da vida de Raposo Tavares, Fernão Dias Paes Leme, Borba Gato ou Domingos Jorge Velho para que mereçam homenagens, mas a permanência dos monumentos foi defendida no twitter pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes.

 

 

O principal alvo da defesa de Laurentino foi a horrenda estátua de 10 metros de altura em homenagem a Borba Gato, inaugurada em 1957 no bairro de Santo Amaro. Embora ele mesmo reconheça que “é feia que dói” e que o bandeirante era um assassino, o autor de Escravidão argumentou em favor da preservação por seu valor histórico.

Ora, e se tivessem dito algo assim após a Segunda Guerra Mundial, quando os monumentos aos nazistas foram demolidos? Não existe na Alemanha nenhuma estátua em homenagem ao nazismo para que sirva “como objeto de estudo e reflexão”. O mesmo aconteceu após o fim da União Soviética. Quem não recorda as estátuas de Lenin sendo arrancadas das praças públicas? Alguém defendeu que elas fossem preservadas ali por seu “valor histórico”? Ou que a cidade de São Petersburgo mantivesse o nome de “Leningrado”?

O mundo gira, as percepções mudam, a História é dinâmica. Estátuas são apenas objetos inertes, esculturas de pedra e cimento de valor estético discutível. Com o fascismo em alta em alguns países, inclusive no Brasil, a luta antirracista ganhará cada vez mais força no mundo. E homenagens a genocidas, escravistas e colonialistas vão começar a ruir em toda parte. A palavra da hora é DESCOLONIZAR.

Abaixo o Borba Gato!

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