Direita prepara a "segunda via", com apoio de Mourão

"A Globo estende o tapete vermelho a um vice que tem procurado se desvincular do presidente, lamentando publicamente sua exclusão das reuniões ministeriais", diz o colunista Rodrigo Vianna

Hamilton Mourão
Hamilton Mourão (Foto: Reprodução/Twitter)
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A extensa (e, por isso mesmo, surpreendente) cobertura da Globo às manifestações de 19 de junho não foi uma rendição puritana ao jornalismo factual. Não. As imagens que passaram de forma generosa pela tela da emissora, com destaque para o povo na rua a pedir "Fora Bolsonaro", são parte de uma estratégia política mais ampla e manhosa - que fez acender o sinal amarelo no Palácio do Planalto. 

Porta-voz da direita liberal (que oficialmente ainda sonha com uma "Terceira Via", entre Lula e Bolsonaro), a emissora da família Marinho escancara que o projeto na verdade mudou: a única saída para os liberais é a "Segunda Via". Ou seja: é preciso desidratar e afastar Bolsonaro, deixando o caminho livre para uma candidatura que possa enfrentar Lula em 2022.

Esse arranjo pelo alto só é possível num acordo que inclua bancos/mídia/PSDB e o que sobrou da direita liberal... mas que reserve espaço para o ator fundamental no Brasil pós 2016: o chamado Partido Militar. 

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O arranjo da Segunda Via passaria por um governo de transição, sob comando do general Mourão, que articularia o combate à pandemia, estabilizando minimamente o país na travessia até a eleição.

Esse arranjo abriria espaço para um chapa de direita que incluísse a direita liberal e os militares. O compromisso central seria manter intactos o poder e os privilégios das Forças Armadas, mas sem os excessos de Bolsonaro.

No Boa Noite 247 desta terça-feira, o comentarista Luís Costa Pinto disse que em Brasília já se fala em dois nomes para compor tal chapa: o tucano Tasso Jereissati e o general Santos Cruz. Parecem dois nomes sem densidade eleitoral. Dependeriam de uma gigantesca campanha midiática para ganhar viabilidade... Mas têm aliados poderosos na mídia, nos quartéis e na burguesia brasileira.

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Não foi à toa, portanto, o destempero do capitão delinquente, na última segunda-feira (21 de junho), a vociferar contra Globo e CNN (de quem ele esperava parceria, na tarefa de minimizar os atos populares do dia 19). Bolsonaro não teme só as ruas. Mas fareja que parte da elite econômica quer usar as manifestações para armar o bote contra ele.

O movimento ficou mais evidente com o espaço inusitado que o JN abriu ao vice Hamilton Mourão nesta terça-feira (22 de junho), chamando o público para assistir a entrevista completa do general na Globo News, com uma manchete singela: "Mourão diz que governo falhou ao não fazer campanha de orientação sobre a Covid".

A Globo estende o tapete vermelho a um vice que tem procurado se desvincular do presidente, lamentando publicamente sua exclusão das reuniões ministeriais.

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Esse é o jogo que se prepara. Mas não quer dizer que vai necessariamente vingar. Primeiro, porque o Partido Militar por enquanto segue fechado com o governo. Segundo, porque Bolsonaro mostra capacidade de resistir nas ruas e no Congresso, ao lado do cúmplice Arthur Lira.

A operação da Segunda Via depende de uma deterioração da popularidade de Bolsonaro, que afastasse dele o Centrão o alto oficialato.

Isso pode acontecer nos próximos meses, a depender do sucesso crescente das manifestações de rua e das investigações da CPI - que agora puxa o fio de um caso grave de corrupção: Bolsonaro não foi apenas irresponsável diante da pandemia, mas pode ter envolvido o governo na compra superfaturada de vacinas da Índia.

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Além da rua e da CPI escancarando a corrupção de um governo em frangalhos, há o risco iminente de racionamento de energia. Essa conjunção de fatores é a condição necessária para que avance a operação de Segunda Via.

As cartas estão na mesa. Mas, como sempre, falta combinar com o povo...

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