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André Gattaz

Jornalista, historiador e editor. Doutor em História Social pela USP. É autor de "A Guerra da Palestina" (Usina do Livro, 2003) e editor da Editora Pontocom

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É correto comparar nazismo e sionismo?

"Há uma diferença fundamental: o nazismo foi combatido, derrotado e estigmatizado, enquanto o sionismo é apoiado militarmente e moralmente pelo Ocidente"

Netanyahu (Foto: Reuters)
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As corajosas – e polêmicas – palavras do presidente Lula na Etiópia trouxeram ao debate se é correto comparar o genocídio sionista na Faixa de Gaza à perseguição e assassinato de judeus pelos nazistas entre 1933 e 1945. E, de fato, apesar das muitas diferenças, pode-se encontrar algumas semelhanças entre as duas doutrinas, como apontaram muitos analistas do campo democrático. Afinal, o que é a Faixa de Gaza, desde 2005, senão um grande campo de concentração, um grande campo de extermínio? Ali se encontra trancafiada uma população de mais de 2 milhões de habitantes, sem as condições mínimas de vida digna, submetida ao poder discricionário do poder ocupante. Além disso, em Gaza o governo sionista vem promovendo uma verdadeira limpeza étnica, visando desocupar o território de seus habitantes nativos, tornando-o apto à ocupação sionista. E limpeza étnica foi justamente o que tentaram executar os nazistas antes e durante a Segunda Guerra Mundial, em busca de uma “sociedade ariana pura”. Nesse sentido, é importante notar que a limpeza étnica é fundamental na constituição de um Estado judaico abrangendo toda a Palestina, uma vez que a incorporação dos palestinos impediria a constituição de uma “sociedade judaica pura”, como é o objetivo sionista.

É verdade que há diferenças importantes entre o nazismo, uma doutrina imperialista, autocrática, e que permaneceu apenas 12 anos no poder, e o sionismo, uma doutrina colonialista, democrática (para os judeus) e que constitui o próprio caráter do Estado de Israel, orientando a liderança daquele país desde sua fundação até os dias atuais. Além disso, ao contrário do sionismo, o nazismo foi combatido por uma grande coalizão mundial (que chegou a unir Estados Unidos e União Soviética), foi derrotado, e desde então é repudiado e estigmatizado, quando não tornado ilegal – basta ver a quantidade de filmes produzidos por Hollywood que nos ensinaram, desde pequenos, a ver os nazistas como os bandidos e Hitler como o fanático louco e assassino.

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Se o nazismo foi derrotado, seus líderes julgados e condenados, e até hoje é estigmatizado, o mesmo não se pode dizer do sionismo e do genocídio em curso na Faixa de Gaza. Na imprensa corporativa brasileira e na grande imprensa ocidental, de um modo geral, não se encontra um verdadeiro repúdio às ações de Israel, que surgem como “justificadas” pelo ataque terrorista do Hamas em outubro de 2023. Não se procura compreender o que levou a este estado de coisas: décadas de colonização e desumanização dos palestinos, que nutriram os movimentos de resistência formados por populações que cresceram sob a ocupação sionista. Não se reforça o suficiente que há anos Israel vem desrespeitando as determinações das Nações Unidas, entre as quais aquela que está na origem do próprio Estado judaico, e que previa também a consolidação de um Estado árabe palestino. E não se divulga a verdadeira situação dos palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, aglomerados em guetos, cercados por cercas e muros, deixando as melhores terras disponíveis às centenas de milhares de colonos sionistas, que progressivamente vêm ocupando o último território viável e disponível para a criação do Estado palestino. Ali também o governo sionista vem dificultando ao máximo a vida dos palestinos, de maneira a gerar um levantamento palestino que permita a Israel iniciar uma guerra de limpeza étnica também na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

A análise do vocabulário utilizado pela imprensa corporativa mostra a tolerância às táticas nazistas de Israel, como se pode ver, por exemplo, na distinção aplicada aos sequestrados, conforme sejam israelenses ou palestinos. Aos israelenses é aplicado o termo “refém”, ou “sequestrados”. Aos palestinos, capturados às centenas e milhares, levados a Israel e aprisionados sem processo legal, utiliza-se o termo “prisioneiros” (e nem mesmo “prisioneiros de guerra”). Assim, israelenses capturados ilegal e violentamente são “reféns”, enquanto palestinos capturados ilegal e violentamente são “prisioneiros”, como se houvesse legalidade nessa captura. Da mesma forma, ataques contra populações civis são tratados como “terrorismo” ou como “guerra”, conforme sejam as vítimas israelenses ou palestinas. Como em outras situações históricas, fica evidente que as vidas de israelenses e palestinos têm valores distintos para grande parte da imprensa no Brasil e no mundo ocidental.

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Mostram também a parcialidade da nossa imprensa e de parte da classe política as reações desmedidas à fala do presidente Lula (aliás, falas, pois há diversos dias, em seu giro pelo Oriente Médio e África, o presidente vem fazendo referência – sem filtros – ao genocídio promovido por Israel em Gaza). Nossa “grande imprensa”, tacanha e com complexo de vira-lata, não é capaz de reconhecer que o presidente Lula é um líder respeitado mundialmente, como mostram as inúmeras solicitações para reuniões bi ou multilaterais, e que ao “botar o dedo na ferida”, Lula traz para o debate político o verdadeiro caráter do Estado sionista e a necessidade urgente de mobilização contra a limpeza étnica em curso. Sua fala obriga seus pares a se posicionarem, e embora não se espere isso de líderes nos Estados Unidos ou na Europa vassala, o mesmo não se pode dizer entre lideranças do sul global e dos BRICS, que endossaram as palavras de Lula, e entre os quais o Estado judaico vem se mostrando cada vez mais isolado.

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