É o surrealismo político, ora

Não é verdade que o conjunto dos brasileiros mereça um presidente como Bolsonaro. Mas parte considerável da população encontra, sim, no dito-cujo, um representante. Ilusão coletiva é um problema

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O escritor José J. Veiga (1915-1999) em seu livro “Sombras de Reis Barbudos”, obra de 1972, narra um lugar entre os lugares que tem a rotina transformada com a chegada de uma Companhia. Sobrevém, contudo, um golpe, e o administrador é deposto da direção da empresa. À mudança de ritmo, o que autentica a realidade é a incerteza. Se há gente que não liga o título à situação brasileira, faço um bê-á-bá. 

Bem, por onde começar?

Ora, pelo começo. E não basta só “começar do começo”. É necessário ir direto ao ponto. Isto é, há reis barbudos que podem usar uma coroa e a barba postiça. Sim, o postiço é o mais verdadeiro, a legitimidade é o mais falso. Por quê? Ora, porque numa eleição estratégias de mídia podem eleger comandatários sem preparo para o cargo. Acontece que não existe o disfarce perfeito e se descobrirá isso, cedo ou tarde.

Não é fácil entender os fios embrulhados da política e da mídia. Nessa mimeses, ouso dizer que qualquer um pode ser rei barbudo. Não é provável, mas é possível. E o possível tem sido maior, porém. Aliás, Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil, então, nunca diga nunca. O fato é que começa aí a história da nossa viagem ao fundo na noite. 

A propósito, a leitura de um artigo de Rosana Pinheiro-Machado pode ser um bom guia para entender que a eleição de Bolsonaro passou por uma “tradição da cultura popular que vê a política como entretenimento e espetáculo” (aqui). 

Tanto assim que, no documentário “Trump, the American Dream” [Trump, um sonho americano], disponível na Netflix, vê-se traços habilmente desenhados por estrategistas de mídia. Olhando o cenário, Rosana Pinheiro-Machado, em contribuição como antropóloga, chama atenção para a fala de Dean Barkley, que foi o coordenador da campanha de Jesse Ventura, um astro norte-americano da luta livre que se elegeu governador de Minnesota (ver aqui). Resultado: Dean Barkley fez prevalecer o princípio de que “dizer coisas audaciosas, mesmo que te achem uma pessoa burra, funciona, pois você terá mídia de graça”.

No ambiente brasileiro, Bolsonaro antes de ser eleito presidente da República era visto na televisão – não tanto que dava para impregnar, nem tão pouco que dava para desmemoriá-lo acerca de sua existência. Apresentava-se em programas da TV aberta como “SuperPop”, “Pânico” e “CQC”, sempre rodeado de perguntas polêmicas, sem esclarecer qualquer coisa, mas o suficiente para gerar pontos no Ibope com suas “mitadas” (aqui). 

Isso não explica tudo, evidentemente, mas é um fio para despertar a curiosidade de como um homem autoritário, que fazia gesto de armas em campanha eleitoral – disparando simbolicamente rajadas de tiros com os dedos –, consegue chegar aos cumes do populismo barato como chefe de Estado. Era, em suma, um personagem colado às raias da caricatura, mas de meme em meme, de sinal de arminha em sinal de arminha, os holofotes da mídia ampliaram a alucinação coletiva. 

Tudo isso deveria ter disparado os aparelhos de alarme. Quando extremistas emergem como competidores eleitorais e a mídia comete esse pecado capital de coloca-los como animadores de plateia para falar selvagerias, “ídolos ocos” despontam e incentivam os aspirantes a autoritários. É um perigo mostrado com muita propriedade no livro “Como as democracias morrem” (aqui).   

Nos dias que correm, o cheiro de morte cerca o governo brasileiro por ocasião da “necropolítica” que pratica. Ocorre que o presidente que temos faz genuflexões diante da devastação ambiental. Tomemos também seu menosprezo pelo espalhamento da morte pelo coronavírus. Para isso vale distorcer informações, dizer que a culpa está com os outros e até esconder problemas ao querer tapar o olho do satélite do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

E uma coisa é certa: Bolsonaro até hoje não mostrou as condições técnicas e pessoais convenientes ao cargo de mais alto grau que ocupa no executivo, mas quer a reeleição a qualquer custo. Não é força de expressão, é mesmo a qualquer custo. Se for reeleito, a incompetência do presidente será premiada e afundaremos na boçalidade histórica. E este “se” terá sua decisão tomada por uma massa que parece sofrer de anestesia social. 

Não é verdade que o conjunto dos brasileiros mereça um presidente como Bolsonaro. Mas parte considerável da população encontra, sim, no dito-cujo, um representante. Ilusão coletiva é um problema. 

Virar a chave, desejar outro país, outro mundo, outra fase para sair do buraco, tem a ver com não caminharmos às cegas, silenciosos, sorumbáticos. Por tudo isso, convenham, é hora de saber de qual lugar se aguarda a mudança. Não nos calemos.

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