Entrevista com Jesus Cristo

Numa entrevista exclusiva como você nunca viu, o filho de Deus mostra que é gente como a gente

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Numa entrevista exclusiva como você nunca viu, o filho de Deus mostra que é gente como a gente.

Ricardo Nêggo Tom: Jesus, primeiro gostaria de agradecê-lo por ter aceito me conceder essa entrevista. É uma honra poder bater esse papo com o filho de Deus.

Jesus Cristo: Tom, meu filho, eu só aceitei porque era para o Brasil 247. Até falei para o Pedro, que é quem cuida da minha agenda, que se fosse para O Globo, Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, eu não daria. Gosto mais das mídias alternativas e progressistas. Tem mais a ver comigo.

Ricardo Nêggo Tom: Sei que a sua agenda é sempre lotada e que o senhor está sempre presente em todos os cultos, missas e eventos em seu nome que acontecem pelo mundo afora.

Jesus Cristo: Não é bem assim, meu filho. Você não acha mesmo que eu vou naquela marcha organizada por aqueles bispos que foram presos escondendo dólares dentro da Bíblia, ou que eu estou na Universal todas as sextas expulsando demônios das pessoas na sessão do descarrego, né?

Ricardo Nêggo Tom: Bom! Eu sempre tive uma desconfiança quanto a isso. Mas eles fazem o povo acreditar que o senhor está presente.

Jesus Cristo: Ah, mas esse povo aí acredita até que Deus é brasileiro.

Ricardo Nêggo Tom: E, não é?

Jesus Cristo: Meu caro, Tom! Você precisa fazer duas coisas. Uma, parar de acreditar nesses ditos populares. A segunda, parar de comer geleia de mocotó. Tem muita caloria.

Ricardo Nêggo Tom: Como o senhor sabe que eu como geleia de mocotó?

Jesus Cristo: Esqueceu que eu sei de tudo? Sei até que a primeira pergunta que vais me fazer é sobre religião.

Ricardo Nêggo Tom: Eu ia começar falando sobre religião mesmo. O cristianismo prega que o senhor morreu para salvar a humanidade e nos dar a vida eterna. Se isso é verdade, por que o mundo continua perdido?

Jesus Cristo: Você acredita em tudo o que o cristianismo diz?

Ricardo Nêggo Tom: E não é para acreditar?

Jesus Cristo: Sabe de nada, inocente. Aliás, esse bordão foi uma inspiração minha para o compadre Washington. Aquele ordinaaário. No bom sentido, é claro.

Ricardo Nêggo Tom: Então, o senhor não morreu para nos salvar?

Jesus Cristo: Eu fui morto porque bati de frente com o estado e com o sistema religioso da época. Joguei na cara deles toda a hipocrisia que eles adotavam no discurso, quando, na prática, faziam o contrário do que pregavam. Eu era uma ameaça para o sistema e para a autoridade dos sacerdotes e doutores da lei daquela época. Eu tentava salvar o povo das garras daqueles homens que abusavam do poder e os mantinham como gados. Foi um crime político.

Ricardo Nêggo Tom: Mas dizem que o senhor irá voltar para levar o seu povo...

Jesus Cristo: Não acredita nisso não, meu filho! Mas nem morto que eu volto aí. Para eles me matarem de novo? Quero papo com essa gente mais não. O que eu tinha para falar eu já falei. Quem ouviu, bem, quem não ouviu, amém.

Ricardo Nêggo Tom: E o que o senhor acha do dízimo? Eles dizem que o dinheiro é para a sua obra

Jesus Cristo: Nem que eu estivesse construindo o mundo novamente, eu gastaria tanto dinheiro. Se essa grana toda caísse na minha conta, daria para construir um céu para cada um dizimista. Isso aí é um imposto que os trouxas, digo, as ovelhas enganadas pagam achando que estão comprando um lugar no céu. Edita a parte dos “trouxas”, por favor. Pode chocar a sociedade.

Ricardo Nêggo Tom: Entrando no campo da política, alguns costumam dizer que toda autoridade vem de Deus e que Bolsonaro foi enviado por ele. Isso é verdade?

Jesus Cristo: Parafraseando o meu amigo Padre Quevedo, isto non ecziste!

Ricardo Nêggo Tom: O padre Quevedo era seu amigo?

Jesus Cristo: Sim, um querido. Viajava um pouquinho na maionese, mas era gente boa. Está aqui em cima com a gente. Mas voltando a sua pergunta, esse papo de que Deus tem candidato é balela. Vocês fazem a merda de eleger um miliciano adorador da tortura como presidente, e depois querem jogar a responsabilidade nas minhas costas? Assumam o B.O de vocês. Eu já fui crucificado uma vez por tentar ajudar. Não esquece de editar “merda” e “miliciano”. Pode chocar os cidadãos de bem.

Ricardo Nêggo Tom: E o que o senhor acha do Lula?

Jesus Cristo: Um bom candidato. Já ajudou os mais pobres da outra vez e pode ajudar novamente. Tem até algumas semelhanças com o meu evangelho no seu discurso. Eu votaria nele. Mas assim como a minha querida Anitta, quero deixar claro que eu não sou petista e não autorizo associar a minha imagem à sua campanha e nem de qualquer outro candidato.

Ricardo Nêggo Tom: O senhor chamou a Anitta de querida. O senhor gosta do trabalho dela?

Jesus Cristo: Não é o tipo de música que eu ouço. Eu prefiro coisas mais elevadas. Mas eu gosto da Larissa. Ela é meiga e abusada. Porém, também não autorizo que associem a minha imagem ao seu trabalho. Melhor evitar problemas.

Ricardo Nêggo Tom: E qual o tipo de música que o senhor gosta?

Jesus Cristo: Eu gosto de tudo um pouco. Menos gospel e sertanejo universitário. O gospel me irrita, porque quando eu estou querendo tirar um cochilo vem aquelas vozes clamando meu nome, me pedindo para fazer milagres, para curar isso, para expulsar aquilo. Uma coisa chata, repetitiva, sem criatividade. E só querem ganhar dinheiro com o meu nome também. Prefiro ouvir Gil, Caetano, Chico, Mano Brown, Emicida, Alcione, Seu Jorge, um pagodinho do Zeca, Legião Urbana, Clara Nunes, Pitty. Um funk sem baixaria e um bom rock in roll eu também gosto.

Ricardo Nêggo Tom: Mas o rock não é música do diabo, senhor?

Jesus Cristo: Não acredita nisso não, meu filho! Música do diabo é essa tal de sofrência. Meu sangue tenha poder!

Ricardo Nêggo Tom: Falando em diabo, recentemente, o presidente Bolsonaro disse que o senhor só não andava armado, porque não existia pistola na sua época. O que o senhor acha dessa declaração?

Jesus Cristo: Só se fosse para enfiar a pistola no mito dele. Perdão! Edita isso, pelo amor de mim mesmo! Só me vi tão irado assim, no dia em que destruí o templo daqueles mercenários da fé em Jerusalém. O que esse homem diz não se escreve. Ele deve estar me confundindo com alguns pastores que andam com ele e são envolvidos com a milícia.

Ricardo Nêggo Tom: O senhor estaria insinuando que tem pastores que andam armados e que são milicianos?

Jesus Cristo: Ah, se você soubesse o que eu sei, Ricardo. Risos celestiais.

Ricardo Nêggo Tom: Isso é muito grave, senhor. E por que não ages para eliminar essas pessoas do nosso meio? A Bíblia diz que o senhor destrói todo o mal e que tudo que acontece aqui é com a sua permissão.

Jesus Cristo: Tudo eu, tudo eu, tudo eu. Bem que eu falei com o meu pai, que também sou eu, que era melhor parar nos animais que já estava bom. Mas não. Vamos fazer o homem, depois fazemos a mulher para fazê-lo companhia e deu esse quiproquó todo no mundo. Eu nem recomendo muito a leitura da Bíblia, para que as pessoas não se afastem de mim. Quer dizer, do Deus que ela diz que é amor, mas que matou milhares de crianças primogênitas no Egito e vivia aconselhando a Moisés para castigar os desobedientes com a pena de morte.

Ricardo Nêggo Tom: Então, o senhor não tira todo o mal do mundo?

Jesus Cristo: Meu caro, Tom! Só no seu país existem 33 milhões de pessoas passando fome, entre elas, milhares de crianças. Você acha que sou eu quem quer isso? Porque eu permitiria tanta miséria? Nem o diabo quer isso, meu filho. Inclusive, outro dia ele falou comigo pelo WhatsApp que estava com pena do Brasil, por ter eleito alguém pior do que ele para presidente. Como eu já lhe disse, vocês precisam assumir o B.O de vocês. A culpa é minha se vocês elegeram um sujeito que disse que governaria para os mais ricos e que as minorias teriam que se adequar? Vocês elegeram um racista, machista, homofóbico, aporofóbico, um incentivador da violência que quer liberar arma para todo mundo, e acham que eu tenho que usar o meu poder para tirar esse mal do meio de vocês? Se virem! Ou tubro está chegando. Tirem ele nas urnas. Usem o livre arbítrio que eu dei a vocês. Eu hein! Parecem até os alemães que ficaram me enchendo o saco para livrá-los do Hitler, como se eu tivesse votado nele. Ora! Eu só não te mando para o inferno por me fazer essa pergunta, porque o inferno não existe.

Ricardo Nêggo Tom: Não?

Jesus Cristo: Eu disse, porque o inferno está cheio. Edita isso aí para não me chamarem de ateu.

Ricardo Nêggo Tom: E o que o senhor acha dos ateus?

Jesus Cristo: Olha, em verdade eu vos digo que eu gosto dos ateus, porque eles não ficam me pedindo coisas e não se lembram de mim apenas por interesse ou quando estão em apuros. Às vezes, eles pegam pesado comigo. Mas eu entendo a bronca deles. A culpa é desses líderes religiosos que pregam mentiras em meu nome e ficam falando que eu mando todo mundo para o inferno se não me obedecer.

Ricardo Nêggo Tom: O senhor aceita o casamento gay?

Jesus Cristo: Quem tem que aceitar são os noivos, meu filho. Eu não vou me casar com outro homem. Quero saber disso não. O que me incomoda mesmo é ver gente na rua passando fome e frio. Isso sim é uma abominação aos meus olhos.

Ricardo Nêggo Tom: E por que o senhor não acaba com a fome no mundo?

Jesus Cristo: Porque eu não sou dono de supermercado.

Ricardo Nêggo Tom: Me permita uma última pergunta, senhor.

Jesus Cristo: Seja breve, porque já vai começar a novela

Ricardo Nêggo Tom: Jesus assiste novela?

Jesus Cristo: Ué? Se eu vejo tudo o que vocês fazem, é natural que eu veja tudo o que vocês veem. Cada dia eu assisto um capítulo numa casa diferente. Hoje vai ser na casa da Dona Ermelinda, uma beata católica que vive rezando o terço, jura não assistir novela, mas não perde um capítulo de “Pantanal” Ô, velha mentirosa! Dá vontade de fazer ela engolir as contas do rosário, só para ela deixar de ser hipócrita. Edita aí o “velha” para eu não ser acusado de etarismo.

Ricardo Nêggo Tom: Perdão, senhor! Mas é estranho imaginá-lo vendo novela

Jesus Cristo: Mas você não acha estranho que eu cure doenças sem ser médico, que eu expulse demônios sem estar na Farofa da Gkay, ou que eu arrume emprego para alguém sem ser da Catho. Vocês só querem que eu trabalhe feito um escravo sem ter direito a lazer, né? Essa era a ideia da reforma trabalhista. Raça de víboras!

Ricardo Nêggo Tom: Não quis ofendê-lo, senhor! Para encerrar, uma pergunta que tem a ver com um ditado popular muito conhecido. A voz do povo é mesmo a voz de Deus?

Jesus Cristo: Como, se foi a voz do povo que mandou me crucificar, mesmo eu nunca tendo feito mal a ninguém?

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