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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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Festa cívica vira comício e o dia 8 pode ser de ressaca

"Sem partido, Bolsonaro aposta no teste das ruas. Insiste nos ataques ao STF, acredita que os menos de 25% de fieis podem passar ao país a mensagem de que tem apoio e, tal como Jânio Quadros, pode dar com os burros n’água", escreve Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Bolsonaro em motociata em Chapecó (Foto: Isac Nóbrega/PR)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

São tantos os enredos lançados por Bolsonaro para embaralhar o nosso cotidiano que até nos esquecemos de fazer perguntas básicas. Por que mesmo o desfile oficial do 7 de setembro foi cancelado? Ah! Sim! Por causa da pandemia. Aquela, que ele sempre negou, desrespeitou e ignorou – exceto quando precisou negociar a compra de vacinas. Aí, sim, a turma do Ministério da Saúde encarou com seriedade o assunto. Em breve o relatório da CPI da Covid-19 virá a público para nos esclarecer tim-tim, por tim-tim. Mas esta é outra história. 

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Se não, vejamos... O desfile foi cancelado para evitar aglomeração e proteger a vida do público, dos militares e das autoridades que se deslocariam para o evento, certo? Em sendo assim, o que pensar da substituição feita por Bolsonaro, que trocou a data cívica por uma “manifestação de apoio” às suas causas, ou melhor, por um comício onde espera receber dois milhões de pessoas.

Sim. É isto. A convocação é para reunir tanto em Brasília, quanto na Av. Paulista, dois milhões de pessoas. Só não ficou claro se a sua pretensão é de um milhão em cada praça, ou são dois milhões em cada local. Vai conseguir? Eis a pergunta. Pelo que se tem lido nas redes sociais, dinheiro à farta foi disponibilizado para os que se interessaram em atender ao chamado e se dispuseram a comparecer. A notícia é a de que tanto os hotéis de São Paulo quanto os de Brasília estão botando gente pelo ladrão. Com tudo pago... 

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Vamos partir do princípio de que, sim, as ruas ficarão repletas dos adeptos do “mito” no dia 7 de setembro. O que aglomera mais, um desfile organizado, com distância entre as fileiras de militares disciplinados ou uma multidão de fanáticos suarentos, apertando-se na Paulista? Isto, em época de variante Delta.

Até agora o país conseguiu vacinar apenas 30% da população com as duas doses necessárias dos imunizantes disponíveis. Levando-se em conta o início da vacinação em 17 de janeiro deste ano, há nove meses, portanto, pode-se dizer que é muito pouco. O processo lento tem tudo a ver com o que nos será revelado ao final dos trabalhos da CPI da Covid-19. Quem acompanha os trabalhos da Comissão já têm noção do que virá. E, antecipa-se, Bolsonaro não ficará bem na fita. 

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Neste ponto os temas se encontram. A fragilidade dele diante de tantas denúncias contra a sua turma, incluídos aí vários coronéis e a consciência cada vez mais nítida na população de que não houve vontade do governo de combater de forma efetiva a pandemia, o fazem cavar pautas/espetáculos, de modo a desviar a atenção das falhas da sua gestão. Lembremo-nos: caminhamos para 600 mil mortos pela pandemia.

Cantado em verso e prosa, o seu isolamento político já o “desplugou” de setores importantes para a sustentação de qualquer presidente: Febraban, Fiesp, boa parcela do agronegócio, são exemplos, de “desembarque”. E até mesmo no Centrão já há mostra de má vontade com os seus arroubos. Só não pulam do barco porque aguardam a liberação das emendas. Até abril, ficam. Sem falar no estrago que seus chiliques têm provocado na economia. Ainda que Paulo Guedes, agarrado à cadeira, assobie e olhe para cima.

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Sem partido – ou seja, sem base garantida a lhe dar sustentação -, Bolsonaro aposta no teste das ruas. Insiste nos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), acredita que os menos de 25% de fieis podem passar ao país a mensagem de que tem apoio e, tal como Jânio Quadros - que tentou saltar do governo para ser reconduzido nos braços do povo -, pode dar com os burros n’água. 

Bolsonaro corre o risco de ter de acordar no dia 8 de setembro em situação bem pior do que a do dia anterior. Olhado de esguelha por setores significativos da sociedade pode ter, inclusive, sua candidatura impedida, caso erre a mão no comportamento na Paulista. É lá que ele tentará repetir o sucesso do seu discurso de 27 de outubro de 2018 (entre o primeiro e o segundo turno das eleições), quando prometeu aos seus seguidores varrer o PT de cena e mandar a “petralhada para a Ponta da Praia”, numa alusão ao “sumidouro” de desaparecidos políticos, na Restinga de Marambaia (RJ). 

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A maior possibilidade de assistirmos a cenas de violência está em Brasília, onde os fanáticos terão a coordenação de exaltados militares da reserva, com demonstração explícita de “força e ousadia”, como vêm anunciando no Twitter e no Youtube. Resta saber se não vão “amarelar” como o cantor Sergio Reis. Nas redes sociais ameaçam lançar caminhões contra o Supremo, invadir o Congresso e toda a sorte de valentia. A dúvida é: como acessar esses locais, com o esquema de segurança que promete três mil policiais fechando o espaço de um quilômetro da Praça dos Três Poderes? A conferir.

Em São Paulo pode haver incidência de “infiltrados” e “provocadores” na manifestação do Vale do Anhangabaú, onde os progressistas se reunirão para o tradicional “Grito dos Excluídos”, realizado há 27 anos. Tentarão tumultuar e jogar a culpa de eventuais “estragos” no recém reformado espaço, nas esquerdas. 

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De acordo com análise do acadêmico e expert em forças militares, Paulo Ribeiro da Cunha, autor do recém-lançado livro “Militares e Militância – uma relação dialeticamente conflituosa”, a expectativa é a de que em grande parte dos estados do país, as Polícias Militares estão “sob controle” dos governadores e as Forças Armadas sem disposição para brincar de golpe. “Pelo que andei sondando não há mostras de que isto aconteça”, revela. A análise de Cunha é também a da mídia tradicional e diversos analistas políticos que se alternam em lives.  Há quem tenha uma ponta de desconfiança. “O discurso de sexta-feira na CPAC Brasil, (conferência da direita realizada em Brasília, neste sábado), quando repetiu o discurso crítico a ministros da Corte e desafiou governadores que ameaçam punir policiais com presença nos atos, me deixou em dúvida”, disse uma fonte ligada aos meios militares. Segundo esta fonte, o discurso de que o STF extrapolou e invadiu o poder do Executivo tem feito eco nas fileiras, entre alguns oficiais. Deste modo, não dá para cravar nada sobre o desfecho.

É certo que Bolsonaro joga todas as suas fichas nesse “momento exibição”. Porém, ainda que consiga os dois milhões de adeptos para ecoar “mito”, pela Paulista afora, isto não representará a vontade popular, a cada dia mais nítida nas pesquisas de intenção de voto para 2022.  Na última aferição do Poder Data, divulgada na semana que se encerra, Lula aparece com 55% de vantagem frente a Bolsonaro (30%) numa votação para o segundo turno. Como não dá para sentir o pulso do que vai na cabeça dos comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica, a esta altura, é preciso perguntar: como será o day after? Certamente o dia 8 de setembro terá cara de ressaca. Espera-se, para Bolsonaro.

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