Festa cívica vira comício e o dia 8 pode ser de ressaca

"Sem partido, Bolsonaro aposta no teste das ruas. Insiste nos ataques ao STF, acredita que os menos de 25% de fieis podem passar ao país a mensagem de que tem apoio e, tal como Jânio Quadros, pode dar com os burros n’água", escreve Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Bolsonaro em motociata em Chapecó
Bolsonaro em motociata em Chapecó (Foto: Isac Nóbrega/PR)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

São tantos os enredos lançados por Bolsonaro para embaralhar o nosso cotidiano que até nos esquecemos de fazer perguntas básicas. Por que mesmo o desfile oficial do 7 de setembro foi cancelado? Ah! Sim! Por causa da pandemia. Aquela, que ele sempre negou, desrespeitou e ignorou – exceto quando precisou negociar a compra de vacinas. Aí, sim, a turma do Ministério da Saúde encarou com seriedade o assunto. Em breve o relatório da CPI da Covid-19 virá a público para nos esclarecer tim-tim, por tim-tim. Mas esta é outra história. 

Se não, vejamos... O desfile foi cancelado para evitar aglomeração e proteger a vida do público, dos militares e das autoridades que se deslocariam para o evento, certo? Em sendo assim, o que pensar da substituição feita por Bolsonaro, que trocou a data cívica por uma “manifestação de apoio” às suas causas, ou melhor, por um comício onde espera receber dois milhões de pessoas.

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Sim. É isto. A convocação é para reunir tanto em Brasília, quanto na Av. Paulista, dois milhões de pessoas. Só não ficou claro se a sua pretensão é de um milhão em cada praça, ou são dois milhões em cada local. Vai conseguir? Eis a pergunta. Pelo que se tem lido nas redes sociais, dinheiro à farta foi disponibilizado para os que se interessaram em atender ao chamado e se dispuseram a comparecer. A notícia é a de que tanto os hotéis de São Paulo quanto os de Brasília estão botando gente pelo ladrão. Com tudo pago... 

Vamos partir do princípio de que, sim, as ruas ficarão repletas dos adeptos do “mito” no dia 7 de setembro. O que aglomera mais, um desfile organizado, com distância entre as fileiras de militares disciplinados ou uma multidão de fanáticos suarentos, apertando-se na Paulista? Isto, em época de variante Delta.

Até agora o país conseguiu vacinar apenas 30% da população com as duas doses necessárias dos imunizantes disponíveis. Levando-se em conta o início da vacinação em 17 de janeiro deste ano, há nove meses, portanto, pode-se dizer que é muito pouco. O processo lento tem tudo a ver com o que nos será revelado ao final dos trabalhos da CPI da Covid-19. Quem acompanha os trabalhos da Comissão já têm noção do que virá. E, antecipa-se, Bolsonaro não ficará bem na fita. 

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Neste ponto os temas se encontram. A fragilidade dele diante de tantas denúncias contra a sua turma, incluídos aí vários coronéis e a consciência cada vez mais nítida na população de que não houve vontade do governo de combater de forma efetiva a pandemia, o fazem cavar pautas/espetáculos, de modo a desviar a atenção das falhas da sua gestão. Lembremo-nos: caminhamos para 600 mil mortos pela pandemia.

Cantado em verso e prosa, o seu isolamento político já o “desplugou” de setores importantes para a sustentação de qualquer presidente: Febraban, Fiesp, boa parcela do agronegócio, são exemplos, de “desembarque”. E até mesmo no Centrão já há mostra de má vontade com os seus arroubos. Só não pulam do barco porque aguardam a liberação das emendas. Até abril, ficam. Sem falar no estrago que seus chiliques têm provocado na economia. Ainda que Paulo Guedes, agarrado à cadeira, assobie e olhe para cima.

Sem partido – ou seja, sem base garantida a lhe dar sustentação -, Bolsonaro aposta no teste das ruas. Insiste nos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), acredita que os menos de 25% de fieis podem passar ao país a mensagem de que tem apoio e, tal como Jânio Quadros - que tentou saltar do governo para ser reconduzido nos braços do povo -, pode dar com os burros n’água. 

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Bolsonaro corre o risco de ter de acordar no dia 8 de setembro em situação bem pior do que a do dia anterior. Olhado de esguelha por setores significativos da sociedade pode ter, inclusive, sua candidatura impedida, caso erre a mão no comportamento na Paulista. É lá que ele tentará repetir o sucesso do seu discurso de 27 de outubro de 2018 (entre o primeiro e o segundo turno das eleições), quando prometeu aos seus seguidores varrer o PT de cena e mandar a “petralhada para a Ponta da Praia”, numa alusão ao “sumidouro” de desaparecidos políticos, na Restinga de Marambaia (RJ). 

A maior possibilidade de assistirmos a cenas de violência está em Brasília, onde os fanáticos terão a coordenação de exaltados militares da reserva, com demonstração explícita de “força e ousadia”, como vêm anunciando no Twitter e no Youtube. Resta saber se não vão “amarelar” como o cantor Sergio Reis. Nas redes sociais ameaçam lançar caminhões contra o Supremo, invadir o Congresso e toda a sorte de valentia. A dúvida é: como acessar esses locais, com o esquema de segurança que promete três mil policiais fechando o espaço de um quilômetro da Praça dos Três Poderes? A conferir.

Em São Paulo pode haver incidência de “infiltrados” e “provocadores” na manifestação do Vale do Anhangabaú, onde os progressistas se reunirão para o tradicional “Grito dos Excluídos”, realizado há 27 anos. Tentarão tumultuar e jogar a culpa de eventuais “estragos” no recém reformado espaço, nas esquerdas. 

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De acordo com análise do acadêmico e expert em forças militares, Paulo Ribeiro da Cunha, autor do recém-lançado livro “Militares e Militância – uma relação dialeticamente conflituosa”, a expectativa é a de que em grande parte dos estados do país, as Polícias Militares estão “sob controle” dos governadores e as Forças Armadas sem disposição para brincar de golpe. “Pelo que andei sondando não há mostras de que isto aconteça”, revela. A análise de Cunha é também a da mídia tradicional e diversos analistas políticos que se alternam em lives.  Há quem tenha uma ponta de desconfiança. “O discurso de sexta-feira na CPAC Brasil, (conferência da direita realizada em Brasília, neste sábado), quando repetiu o discurso crítico a ministros da Corte e desafiou governadores que ameaçam punir policiais com presença nos atos, me deixou em dúvida”, disse uma fonte ligada aos meios militares. Segundo esta fonte, o discurso de que o STF extrapolou e invadiu o poder do Executivo tem feito eco nas fileiras, entre alguns oficiais. Deste modo, não dá para cravar nada sobre o desfecho.

É certo que Bolsonaro joga todas as suas fichas nesse “momento exibição”. Porém, ainda que consiga os dois milhões de adeptos para ecoar “mito”, pela Paulista afora, isto não representará a vontade popular, a cada dia mais nítida nas pesquisas de intenção de voto para 2022.  Na última aferição do Poder Data, divulgada na semana que se encerra, Lula aparece com 55% de vantagem frente a Bolsonaro (30%) numa votação para o segundo turno. Como não dá para sentir o pulso do que vai na cabeça dos comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica, a esta altura, é preciso perguntar: como será o day after? Certamente o dia 8 de setembro terá cara de ressaca. Espera-se, para Bolsonaro.

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