Golpe na Bolívia anima aventuras da extrema-direita no continente

O episódio boliviano pode servir de estímulo político para novas aventuras golpistas da extrema-direita no continente. E para esquerda fica uma antiga lição de Ernesto Guevara: “Na burguesia e nas suas instituições não devemos confiar nunca, nem um tantinho…”

(Foto: Reuters/Luisa Gonzalez)
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A Bolívia sofreu mais um golpe militar neste domingo. Uma tradição no país que já viveu cerca de 200 golpes de estado em sua atribulada história.

“Decidi renunciar a minha posição para que Carlos Mesa e Luis Camacho parem de abusar e prejudicar milhares de irmãos. Tenho a obrigação de buscar a paz e dói muito o fato de enfrentarmos os bolivianos. Por isso, envio minha carta de renúncia à Assembleia Plurinacional da Bolívia”, declarou o presidente Evo Morales anunciando a renúncia.

O desfecho dramático e violento da crise política na Bolívia revisita o velho fantasma do golpismo no continente. Derrotada nas urnas, a extrema-direita iniciou uma ampla campanha de desestabilização do governo de Evo Morales, que aceitou durante o conflito a mediação da Organização dos Estados Americanos (OEA), a auditoria vinculante nas urnas e até a convocação de novas eleições.

No entanto, nada aplacou a furiosa escalada da frente golpista que passou apelar abertamente para a violência e o golpe militar. Uma violência de caráter fascista, classista e racista da minoritária elite endinheirada e branca do país tendo como epicentros La Paz e Santa Cruz de La Sierra.

No momento, o país mergulhou no caos e há enfrentamentos em diversas partes do país. Hordas da extrema-direita queimam e atacam residências de integrantes do governo deposto. A casa de Evo Morales foi depredada e saqueada. Há informações de que Morales se encontra em Chapare, Cochabamba, um bastião histórico do Movimento Ao Socialismo (MAS). Uma ordem de prisão ilegal foi emitida contra ele.

A OEA e o chamado Grupo de Lima, organismos hegemonizados pela extrema-direita e braços do imperialismo norte-americano no continente, atuaram decisivamente na derrubada do governo constitucional boliviano.

A crescente polarização política na América Latina, o colapso neoliberal no Chile, Equador e Argentina, o agravamento das contradições sociais indicam que as burguesias nacionais apelarão cada vez mais para soluções de força.

Após os sucessivos golpes operados por dentro das instituições dos regimes de fachada liberal-democrática no continente – Brasil, Peru, Honduras e Paraguai – as classes dominantes na Bolívia não hesitaram em apelar novamente para o partido armado das casernas e bivaques. Uma tentação também acalentada por setores do establishment e pelo próprio governo de Bolsonaro no Brasil.

O episódio boliviano pode servir de estímulo político para novas aventuras golpistas da extrema-direita no continente. E para esquerda fica uma antiga lição de Ernesto Guevara: “Na burguesia e nas suas instituições não devemos confiar nunca, nem um tantinho…”

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