Golpes não acabam, transmudam

A história nos ensina que há um poder que busca sua permanência e, assim, se transmuda. Para salvar nossa população, precisamos manter o Estado Nacional

www.brasil247.com - Ato Fora Bolsonaro
Ato Fora Bolsonaro (Foto: Oliven Rai/Mídia Ninja)


“Nosso império atual é um sistema complexo de bancos centrais, bancos de investimentos, private equity funds (fundos de cobertura e investimentos), companhias de seguros e shadow banking (sistema bancário paralelo). Um sistema financeiro que foi o responsável pela mudança de paradigma nos últimos cinquenta anos, afastando-se da produção de coisas reais e de uma economia verdadeira, e aproximando-se cada vez mais da especulação, da ideia da maximização dos lucros e do puro monetarismo. Eis o atual império!” (Daniel Estulin, “TransEvolução – A era da iminente desconstrução da humanidade”, tradução de Nelma Ribeiro de “TransEvolution – The Coming Age of Human Deconstruction”, 2011, para Vide Editorial, Campinas, 2019).

O que está em risco no Brasil atual, de 2022? O Estado Nacional. A existência do nosso País, dando identidade e cidadania à população.

O caminho que enveredamos, desde o golpe na sucessão do Presidente Ernesto Geisel, em 1979, está nos conduzindo, passo a passo, com as mídias convencionais e eletrônicas promovendo desinformação, confusão mental, falácias, as mais desencontradas ideias, todo o necessário para deixarmos de constituir a nação brasileira e ficarmos vagueando, zanzarmos como hordas de seres desumanizados, agressivos, famintos, competindo por tudo e por coisa alguma, pelo território onde um dia foi o Brasil.

A literatura, a sensibilidade dos artistas, intui, vê primeiro, o que os analistas, os think thanks, descreverão depois e os acadêmicos, buscando as origens teóricas, elaborarão por último.

Aldous Huxley (1894-1963), com o “Admirável Mundo Novo” (1932), George Orwell, na verdade Eric Arthur Blair (1903-1950), com “1984” (1949), Anthony Burgess (1917-1993), com “Laranja Mecânica” (1962), mostraram-nos, durante 30 anos, a trilha que estávamos seguindo.

Daniel Estulin, jornalista pesquisador lituano, premiado escritor, vem desde 2007 demonstrando quem é o poder e o que ele pretende, no mundo pós-industrial, das finanças apátridas, e que, por não terem pátria, são globais, querem a destruição dos Estados Nacionais.

O mundo global não é o mundo das ideologias, das religiões, encerrado com o fim da proeminência dos Impérios Nacionais. Muitos ainda identificam como ação dos Estados Unidos da América (EUA) a que é, atualmente, a do poder financeiro que os domina. Os EUA já não são um Estado Nacional, são uma colônia de banqueiros, para usar a designação do escritor brasileiro Gustavo Barroso (1888-1959), que assim já via o Brasil em 1934.

O futuro para qual o neoliberalismo, o rentismo, o financismo nos conduz é o da nova Idade das Trevas, a Treva termonuclear-cibernética, que exige a redução populacional.

Para enfrentar esta ameaça global é, inicialmente, indispensável entender sua formação, sua força e seus pontos fracos. Toda mídia, por mais ingênua que nos pareça, aquela que se nos apresenta como simples diversão, traz alguma mensagem das finanças. E, mais grave, pessoas maduras, intelectualmente bem formadas, se enredam em questões ideológicas, como esquerda-direita, quando o rentismo usa todas as crenças, do misticismo indiano ao ateísmo marxista, do nazismo ao identitarismo racial, para se impor, para nos transformar nos apóstolos desta “sociedade aberta”.

Aproveitando a citação de Estulin, cujo Clube de agentes das finanças ele denunciou no mais célebre de seus livros, “A verdadeira história do Clube Bilderberg” (2007), usarei Bilderberg ou CB como coletivo das finanças apátridas, sabendo que Bilderberg Chateau Holtmuhle é um hotel, em Oosterbeek, Países Baixos, onde, pela primeira vez (de 29 a 31/maio/1954), reuniram-se estes agentes. Em 2005, o Clube Bilderberg (CB) estava composto por:

a) Etienne Davignon (1932), presidente do Clube, atuando em think thanks, ex-vice-presidente da Comissão Europeia; b) Francisco Pinto Balsemão (1937), homem das mídias, ex-primeiro ministro de Portugal; c) David Rockefeller (1915-2017), neto do homem mais rico, em sua época, nos EUA; d) Timothy Franz Geithner (1961), Secretário do Tesouro no governo Obama e ex-presidente do Federal Reserve Bank de Nova Iorque (FED-NY); e) Richard Nathan Haas (1951), desde 2003, presidente do poderoso think thank estadunidense, Conselho das Relações Exteriores (CFR), ex-assessor de Colin Powell, quando Secretário de Estado dos EUA (2001-2005); f) Victor Halberstadt (1939), consultor do Grupo Goldman Sachs, professor universitário e participante de diversos Conselhos empresariais e culturais e do Fórum Econômico Mundial; g) Allan B Hubbard (1947), Diretor dos US National Economic Council, no governo de George W. Bush (2005–2007); h) James Logan Jones Jr. (1943), ex-Comandante Supremo Aliado na Europa (2003-2006) e Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, com Barack Obama; i) Henry Kissinger (1923), ex-Secretário de Estado dos EUA (1973–1977); j) Henry R. Kravis (1944) e sua atual esposa Marie-Josée Kravis (1949), fundador e gestor da KKR & Co. Inc. (Kohlberg Kravis Roberts & Co.), empresa estadunidense de investimentos globais (gestora de ativos) que aplica em energia, infraestrutura, imóveis, crédito e, por meio de seus parceiros estratégicos, em fundos de hedge. Em 31 de dezembro de 2021, a empresa havia incluído mais de 650 investimentos de private equity no seu portfólio com, aproximadamente, US$ 675 bilhões de valor total. Marie-Josée é colabora sênior do Hudson Institute e atuante no ramo da cultura; k) Princesa Beatriz Guilhermina Armgard (1938), reinando na Holanda de 1980 até 2013, conforme a Forbes, em 2009, a então rainha Beatriz era o 14º soberano mais rico do mundo, com trezentos milhões de dólares; l) Matias Rodriguez Inciarte (1948), político espanhol, foi secretário adjunto das finanças e Ministro entre 1981 e 1982. Ligado à família Botín, do banco Santander; m) Peter Denis Sutherland (1946-2018), foi Representante Especial da ONU para Migração Internacional e presidente do Conselho do Goldman Sachs e primeiro Diretor-Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC); n) Jean-Claude Trichet (1942), presidente do Banco Central Europeu de 2003 a 2011; o) Jacob Wallenberg (1956), filho de banqueiro e Presidente da Investor AB, maior conglomerado empresarial da Suécia; p) James David Wolfensohn (1933-2020), foi presidente do Banco Mundial de 1995 a 2005; q) Paul Wolfowitz (1943), foi embaixador dos EUA na Indonésia (1986-1989), subsecretário de Defesa (2001-2005) com George W. Bush e considerado “o arquiteto da invasão do Iraque em 2003”. Foi também presidente do Banco Mundial (2005 – 2007) tendo renunciado ao cargo após ser acusado de praticar nepotismo, ao promover sua namorada para alto cargo na instituição. É um líder conservador estadunidense. Estas pessoas, movidas apenas pelos interesses pessoais, particulares, convocam outras que tenham informações ou poder para as auxiliar, e influenciam fortemente os destinos de países e de sociedades. Além destas 17 pessoas, cerca de outro tanto, constituída majoritariamente de donos de mídias e jornalistas de renome, frequentavam algumas reuniões do Clube Bilderberg que sabia da imensa relevância da comunicação na pedagogia colonial.

UM PROGRAMA ANTIHUMANO

Diferentemente dos poderes fundiário, agrícola e industrial, o poder financeiro, principalmente na era da informática, dispensa as pessoas, não precisa de inquilinos nem consumidores, é o dinheiro gerando dinheiro, como há 2.300 anos Aristóteles condenava (Política – Econômicos, livro I).

O “Global Strategic Trends” (Tendências Estratégicas Globais) é documento do Ministério da Defesa do Reino Unido que está na 6ª Edição (atualizada em 01/04/2022), para atuações até 2035. Por que um documento inglês, se não é a mais importante nação capitalista de hoje? Porque é onde nasceu e se criou o poder das finanças, quem detém o saber e a maldade, capaz de destruir populações, etnias, idiomas, como conhecemos de sua história.

O financismo, no modelo fundiário, ganha poder na Inglaterra com as três Magnas Cartas (1215, 1216 e 1217), onde os barões encurralam os reis (João sem Terra e Henrique III) impondo seus interesses pessoais como do Reino. Os reis endividaram-se com as Batalhas nas ilhas britânicas e no continente europeu (100 anos, das Rosas, civis, religiosas, com a Holanda) e foram transferindo o poder monárquico para o poder dos nobres que foram se enriquecendo com o controle da moeda até lograrem, em 1694, a formalização do poder financeiro com o Banco da Inglaterra. Para bem compreender este período, é relevante conhecer o reingresso dos judeus na Inglaterra. Em 1290, Eduardo I expulsou-os do reino, encerrava-se o primeiro período da história dos judeus nas ilhas britânicas, iniciado com a invasão normanda de 1066. Embora houvesse judeus desde o tempo dos romanos, foi com Guilherme, o Conquistador, que chegaram judeus franceses com status e privilégios que lhes permitiram o estabelecimento por toda Inglaterra. Em 1275, Eduardo I proibiu-os de continuar na atividade financeira e logo os expulsa. Quando Cromwell, em 1655, recebe Menasseh Ben Israel, surpreende-se por não haver lei de expulsão dos judeus, mas encontra oposição de parcela dos nobres que os viam como competidores no controle das finanças. Foi com a ascensão de Charles II ao trono que, em 1664, puderam ingressar e ter tranquilidade para se reestabelecer na Inglaterra. Quando Guilherme III se consolida no trono, ele permite aos judeus participarem da constituição do Banco da Inglaterra (1694). Houve, de início, 1.300 acionistas: os reis Guilherme e Mary Stuart, os condes Montagu, Marlborough, Shrewsburry, Godolphin, Pembroke, Carnavon, Oxford, o duque de Devonshire, o baronete Heathcote, os financistas Michael Godfrey, John e James Houblon, o filósofo John Locke e diversos judeus como Salomão Medina. Do rentismo fundiário a aristocracia passa a ter o controle pela dívida. É este domínio pelo endividamento que a Inglaterra, diferentemente das realezas europeia e de sua colônia americana (Estados Unidos da América), evitará o surgimento de classe poderosa que surge com as revoluções industrial e francesa (empresários industriais, inventores e operários), e obrigasse os nobres ingleses a repartir o poder. A expulsão dos judeus da Itália e da Península Ibérica os levou para Holanda, Estados Germânicos e a Inglaterra que conheceram maior desenvolvimento e passaram a substitui-los no domínio colonial nas Américas, África, Ásia e Oceania, diretamente ou através dos endividamentos, como no Brasil. Os EUA lutaram com a Inglaterra mas copiaram o modelo de poder permanente com a Constituição engessadora de 1787, ratificada no ano seguinte, e suas 27 emendas, sendo a última de 7 de maio de 1992 (Nenhuma lei alterando a compensação pelos serviços prestados por Senadores e Representantes terá efeito até que seja votada pelos Representantes) meramente processual.

O QUE PRETENDE BILDERBERG

O Covid-19 devia ser o fim das fantasias criadas pelo “mercado”, porém o domínio das mídias chegou a fazer muitos ingênuos imaginar que se tratava do “vírus chinês”, o que foi desenvolvido por laboratório estadunidense, ou mais corretamente, de propriedade dos “gestores de ativos”, entidades apátridas com trilhões de dólares para corromper, subornar, eliminar e controlar pessoas físicas e jurídicas por todo mundo, a partir dos 85 paraísos fiscais.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) informou, em 2021, que havia 1,6 bilhão de desempregados de um total de 3,3 bilhões de pessoas procurando emprego, ou seja, 48% das pessoas em idade de trabalhar não encontravam ocupação formal. E não é tudo. Entre as dívidas e obrigações não resgatáveis surgia um tsunami entre dois e três trilhões de dólares estadunidenses (USD). O think thank Instituto Schiller estima ainda mais; seriam quatrilhões de USD em derivativos e outros títulos sem lastro a ameaçar a economia mundial, correspondente a 50 produtos internos brutos (PIB) mundiais.

Teoria da conspiração? Em absoluto, basta seguir o relatório do Clube de Roma, fundado em 1968, "Os limites do crescimento" (1972), ou as ações e projetos da Comissão Trilateral (1973), dominando o governo Jimmy Carter (1977-1981) ou, ainda, as conclusões das reuniões anuais de verão do Clube Bilderberg. Fica claro, evidente, o embuste das crises do petróleo de 1973, 1979 e 1980 (oil glut) – leia-se John Hoefle, “The end of the line for the Anglo-Dutch System” (EIR, 28/03/2008) –, as desregulações dos anos 1980 no Reino Unido e nos EUA, as fusões e aquisições por toda década de 1990, entrando pelo século XXI, os resgates envolvendo os tesouros nacionais dos EUA e países europeus ocidentais, entre 2009 e 2010, e carteis mundiais que exploram a saúde e se locupletam com pandemias, de Rockefeller a Bill Gates. Duas áreas são fundamentais para o controle Bilderberg, ou seja, das finanças apátridas: energia e alimento, que têm significativa área de interseção. E dois são também os principais inimigos a combater: o crescimento demográfico e os nacionalismos. A respeito deste último, o porta-voz e magnata George Soros foi bastante explícito, conforme se lê em Felipe Maruf Quintas, “O fundo bilionário de George Soros aposta contra a centralidade da questão nacional” (portal Bonifácio, 31/01/2020).

A história é a grande mestra; precisamos aprender a lê-la. Marx acreditava que as contradições eram forças propulsoras que poderiam ser eliminadas. A história nos ensina que há um poder que busca sua permanência e, assim, se transmuda. As finanças, na compreensão atual, começam sua trajetória na Idade Média e controlam grande parte do Planeta no século XXI, mais de 800 anos. Para salvar nossa população, os 214.388.866 brasileiros (IBGE), precisamos manter o Estado Nacional e o controle pelo Estado, que somos todos nós, da energia e da alimentação, estes focos dos Bilderberg. Neles não pode entrar o “mercado”. Na campanha presidencial de 1989, questionado sobre a moratória para dívida brasileira, Leonel Brizola respondeu que a solução não era moratória, era a auditoria da dívida, como fizera Getúlio Vargas, em seu primeiro governo, nos anos 1930, que veio a descobrir que apenas 40% eram devidas, e melhorou de imediato as finanças nacionais (apud José Augusto Ribeiro, “O Brizola Desconhecido”, Centro de Memória Trabalhista, Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, Brasília, 2022).

Transcrito do PÁTRIA LATINA, 10/07/2022.

Como Bancos de Londres Ajudaram Ultrarricos e Criminosos a Ocultar Fortunas.

Reportagem de Oliver Bullough, BBC*

10/julho/2022

Quando invadiu a Ucrânia, a Rússia chamou a atenção do mundo sobre o papel do Reino Unido na lavagem do dinheiro sujo do Kremlin. É um problema enorme, que ajudou a financiar a criação de uma autocracia agressiva que agora está matando milhares de pessoas e expulsando milhões de suas casas. Mas isso é apenas uma parte de algo muito maior.

'Londongrado': como Londres se converteu no principal destino dos oligarcas russos. Os bancos ingleses que lucraram com escravidão no Brasil. Não apenas a riqueza russa, mas dinheiro de toda parte do mundo é lavado em montantes assombrosos.

Todos os anos, US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões) é roubado das nações em desenvolvimento, e uma parcela significativa deste valor passa por Londres ou seus paraísos fiscais satélites — a "lavagem offshore".

Mas o que isso significa realmente?

Pode parecer desconcertante, mas, no fundo, é uma ideia simples. Foi inventada na City de Londres (centro financeiro da capital britânica, equivalente à Wall Street, em Nova York, nos EUA). E talvez seja a contribuição mais importante do Reino Unido na história recente. Sem o "offshore", o mundo seria um lugar bem diferente.

Para não repetir os erros.

Em 1944, já antevendo a vitória, os Aliados estavam planejando o mundo pós-Segunda Guerra Mundial. Eles queriam construir um sistema financeiro global melhor do que aquele que levou à depressão da década de 1930 e à catástrofe da guerra. Sua criação recebeu o nome do pequeno complexo americano onde ocorreram as negociações: Bretton Woods.

Delegados de 44 países se reuniram no remoto Hotel Mount Washington, em Bretton Woods, nos EUA, em 1944.

"Este sistema estabeleceu regras que dificultaram a transferência de fundos por meio das fronteiras", segundo explica a historiadora Vanessa Ogle, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. "Qualquer entrada ou saída de fundos expressiva poderia ter um impacto desestabilizador — como aconteceu no período entre guerras —, por isso era destinado a ajudar os países a evitar fluxos excessivos de dinheiro indesejados e permitir que estabilizassem suas moedas e protegessem suas economias." Os financistas britânicos aceitaram, por sua vez, a necessidade de um sistema financeiro menos aberto e mais protetor, para dar ao mundo a oportunidade de se reconstruir — mesmo que isso significasse um papel menor para a City de Londres.

10 anos depois...

Mas a City não conseguia esquecer a época em que era o coração pulsante de um vasto império. E, na segunda metade da década de 1950, os banqueiros começaram a ficar inquietos. Um financista importante declarou que aquela situação era "como dirigir um carro possante a 20 quilômetros por hora".

A City de Londres.

Os banqueiros da City de Londres buscaram formas de aumentar seus negócios no pós-guerra — até que encontraram. "As coisas estavam melhorando. A economia alemã estava mostrando sinais de forte recuperação e crescimento", diz Ogle.

"Insatisfeitos com as medidas tomadas inicialmente, houve tentativas deliberadas dos banqueiros de criar dispositivos legais que permitissem a eles negociar com menos restrições, talvez sem violar as regras de Bretton Woods, mas sim [violando] seu espírito", afirma a historiadora.

Um pequeno banco.

O Banco Midland era um dos bancos da City de Londres. Era pequeno e queria crescer, mas as regras impediam que os bancos concorressem entre si em busca de clientes. Precisava de mais dinheiro. Em 1955, o Midland teve uma ideia brilhante, mas dependia de outro banco, não muito distante, que tinha o problema oposto. O Narodny de Moscou tinha sede na City, mas era de propriedade da União Soviética. E seu cofre estava abarrotado de dólares. "Eles temiam que os fundos fossem expropriados e confiscados se fossem colocados nos Estados Unidos, dado o crescente antagonismo da Guerra Fria. Por isso, o dinheiro acabou em Londres", explica Ogle.

Havia então um banco que tinha muito pouco dinheiro, e outro que tinha dinheiro demais... só o que faltava era encontrar uma forma de "driblar" as regulamentações. O Banco Midland, em Londres, encontrou uma forma de fazer crescer seus negócios. Foi quando alguém dentro do Midland percebeu que o banco não precisaria comprar os dólares. Bastava apenas pedi-los emprestados, evitando as restrições britânicas à compra de moeda estrangeira.

Com estes dólares, o banco inglês poderia comprar libras esterlinas e emprestar em troca de juros. Já o Narodny não apenas deixaria seu dinheiro fora do alcance dos Estados Unidos, como ainda teria lucro. Os detalhes da operação são inacreditavelmente complexos, mas sua essência era muito simples. O acordo permitiu que o Banco Narodny ganhasse dinheiro se esquivando das restrições americanas, e que o Banco Midland ganhasse dinheiro se esquivando das restrições britânicas. E tudo poderia ter terminado assim, não fosse por uma notícia surpreendente vinda do Oriente Médio.

Negócio colossal.

Em 1956, o Egito nacionalizou o canal de Suez, que até então era controlado pelos britânicos e pelos franceses. O Reino Unido e a França enviaram tropas, os Estados Unidos se opuseram — e tudo terminou em uma vergonhosa derrota. O poderoso império britânico sofreu fortes perdas. Mas das cinzas do desastre surgiu a oportunidade de um negócio realmente colossal.

Fênix desenhada em cinzas.

"O Banco da Inglaterra e o Tesouro Britânico trataram de retrair o uso internacional da libra esterlina, o que tornou o dólar mais atraente porque não estava sujeito a esses controles", conta Catherine Schenk, historiadora da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Os bancos da City dependiam anteriormente da libra esterlina para financiar o comércio. Com o acesso à moeda britânica cada vez mais restrito, eles buscaram uma nova fonte de dinheiro. Mas, quando os bancos comerciais seguiram o exemplo do Banco Midland e começaram a pedir dólares emprestados para financiar seus negócios cotidianos, tudo mudou.

"Esses dólares tinham uma espécie de status extraterritorial, pois não estavam sujeitos às regulamentações do Federal Reserve [o Banco Central dos Estados Unidos]. Isso deu aos banqueiros da City uma forma de cometer atos proibidos pelo sistema de Bretton Woods e pelas regulamentações nacionais vigentes", explica Schenk.

A City de Londres havia inventado uma das ferramentas financeiras mais importantes do século 20.

Esses dólares foram apelidados de 'eurodólares'. Poderiam ou não ser dólares reais, dependendo do que fosse mais rentável no momento. Os banqueiros se transformaram em piratas com chapéu-coco, que navegavam por um mar de dinheiro líquido, recebendo lucros com sua capacidade de ignorar as regras que todos os demais haviam respeitado.

Um mar de 'eurodólares' possibilitou a criação do mercado offshore.

Mas que nome dariam a este vácuo legal que haviam criado? Os banqueiros pegaram emprestado um termo do direito marítimo para descrever o que acontece quando se está em alto mar, onde as leis terrestres não se aplicam: "offshore".

"[A operação] se converteu muito rapidamente em um mercado interbancário offshore, sem relação com nenhum organismo regulador nacional", destaca Schenk.

Aparentemente, ninguém no governo britânico havia percebido o que estava acontecendo. Mas os líderes do Banco da Inglaterra sabiam, e ficaram encantados. Finalmente, depois da tortuosa jornada do pós-guerra, o poderoso motor da City de Londres começava a acelerar. Os bancos estrangeiros correram para abrir filiais em Londres para aproveitar os lucros disponíveis em um mercado não regulamentado. E, durante as duas décadas que se seguiram, o dinheiro que fluiu pela City varreu todas as restrições do sistema de Bretton Woods.

As tentativas de controlar os fluxos de capital para proteger a estabilidade e defender os níveis de vida passaram a ser ineficazes.

Um paraíso.

Assim se formou a primeira ferramenta indispensável para lavar dinheiro: o mercado offshore, que liberou as riquezas dos controles externos. Sem a ajuda da City de Londres para escapar do controle do governo, a lavagem de dinheiro não seria o que é. Mas Londres não era o lugar ideal para esconder o dinheiro, principalmente devido ao grande inimigo de todas as fortunas: os impostos.

Se os financistas britânicos realmente quisessem ajudar seus clientes, precisariam de mais do que uma brecha legal; precisariam de lugares onde este dinheiro ficasse a salvo. Para a sorte deles, não foi preciso procurar muito para encontrá-los. Perto de Londres, no Canal da Mancha, fica a ilha de Jersey — que, por quase mil anos, foi mais ou menos britânica: é governada pela monarquia britânica, mas não faz parte do Reino Unido; e usa a libra esterlina, mas estabelece seus próprios impostos. Esta combinação era potencialmente bastante rentável.

"Até o final da década de 1950, havia uma cláusula na constituição restringindo os pagamentos de juros, o que, de forma geral, limitava o uso da ilha como paraíso fiscal às pessoas que realmente viviam ali", afirma John Christensen, que ocupou altos cargos administrativos em Jersey e depois se tornou um ativista de destaque contra os paraísos fiscais. Os lucros poderiam ser enormes, se a ilha se dispusesse a ser um pouco menos exigente. E foi o que aconteceu. Os políticos da ilha de Jersey eliminaram os incômodos obstáculos.

Movimentar dinheiro por meio da ilha de Jersey, no Canal da Mancha, dificultava bastante o rastreio dos fundos. Os banqueiros já estavam se esquivando das restrições americanas com o comércio de dólares por meio da City de Londres. Mas movimentar seu dinheiro convenientemente pelas contas bancárias sem controle de Jersey permitiu a eles evitar também as restrições britânicas. E o melhor é que a manobra reduzia em mais da metade os impostos sobre os lucros.

"Na década de 1970, o imposto sobre as empresas no Reino Unido era de mais de 50% e, em Jersey, era de 20%", explica Christensen. "E Jersey ainda era geograficamente perfeita, porque era possível organizar em Londres uma reunião em Jersey, voar durante o dia e voltar para casa à noite."

"Pouco a pouco, Jersey passou a ser um satélite muito próximo da City de Londres", diz Christensen. Bancos da América do Norte e da Europa continental também abriram filiais na ilha. Mas a ilha de Jersey foi apenas o começo.

Novos paraísos.

À medida que cada vez mais colônias britânicas conseguiam a independência, a vastidão do império começou a ocupar cada vez menos espaço no mapa. E as colônias remanescentes — Bermudas, Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas, Gibraltar e Anguilla — eram lugares pobres ou remotos demais para reivindicar sua independência. Mas tinham um recurso natural para explorar: sua ligação com o Reino Unido.

E, como aconteceu na ilha de Jersey, os políticos locais criaram brechas legais para retirar as restrições impostas ao dinheiro por outros países. Estas colônias também se transformaram em paraísos fiscais, oferecendo baixos impostos e confidencialidade aos clientes que desejassem fugir do escrutínio. Os paraísos fiscais ofereceram a possibilidade de reduzir o pagamento de impostos sobre grandes valores, além de confidencialidade.

Mas por que especificamente as jurisdições britânicas tomaram estas medidas? "Uma vantagem eram as doutrinas compartilhadas de direito consuetudinário dentro do Império Britânico, que facilitavam muito as negociações", afirma Ogle. "E havia britânicos locais nestes territórios, de forma que, por exemplo, se um advogado americano quisesse estabelecer um escritório de registro de empresas nas ilhas Cayman, devido à ausência de impostos, ele poderia contratar um grupo reduzido de funcionários e assim dominar as lideranças locais, prometendo parte do negócio do paraíso fiscal."

Mas quanto do dinheiro que chegava era para evitar impostos e quanto tinha origem mais obscura, como tráfico humano, de drogas, armas, corrupção ou roubos? Chegavam com malas de dinheiro.

Não existem muitos dados, especialmente de antes da década de 1980, sobre o que os ultrarricos de todos os tipos ocultavam nos paraísos fiscais. Mas, de vez em quando, uma porta se abre — e é possível observar o que há por trás dela.

"Em duas ocasiões, nas décadas de 1960 e 1970, depois de grandes crises, foram revelados vínculos com o crime organizado, particularmente com a lavagem de dinheiro", conta Ogle.

"Mas são casos raros e, depois do fato, é feita uma investigação, e fica claro que isso sempre foi parte do que levou à expansão das jurisdições offshore." "É extremamente difícil saber com precisão porque o segredo e o anonimato são o principal ativo vendido por essas jurisdições".

Christensen lembra que "todo tipo de dinheiro fluía por meio de Jersey. Havia pessoas que voavam em aviões particulares com malas literalmente cheias de dinheiro em espécie." Algo que ele viu com seus próprios olhos. Malas foram usadas para transportar dinheiro para paraísos fiscais.

"Trabalhei em uma das principais firmas de contabilidade, no departamento de administração de confiança. Quando comecei a ver que clientes havia na minha lista particular, encontrei todo tipo de atividade", conta Christensen.

"Não havia apenas evasão de impostos, mas também fuga de credores, financiamento ilegal de partidos, financiamento ilegal de outras atividades, e um enorme montante de dinheiro que fluía por meio de Jersey vinha de regimes bastante ditatoriais."

"[As pessoas] vinham de todas as partes do mundo, depositavam dinheiro em Jersey e criavam estruturas offshore que envolviam companhias e depositários legais." Mas como Jersey e outros paraísos se interligavam aos serviços financeiros do Reino Unido?

Segredo impenetrável.

Christensen explica que, em termos de lavagem de dinheiro, havia o chamado "laddering" (relativo a escalonar): usar um destino após o outro para que seja extremamente difícil descobrir o segredo.

"Londres é a parte superior da escada. Era comum, digamos, que um governante corrupto mantivesse cinco ou seis degraus nessa escada, até chegar a Londres", afirma. "Assim, se as autoridades londrinas quisessem averiguar qual era a fonte da riqueza, seria necessário consultar Jersey, onde descobririam que existe um depositário, e ninguém revelaria quem é o beneficiário, porque os beneficiários não são revelados em nenhum lugar, de nenhum registro". "E depois você descobre que o depositário possui uma grande quantidade de companhias nas Ilhas Virgens Britânicas ou em outros locais".

Empresas que só existem no papel tornam a investigação da fonte do dinheiro uma tarefa infernal

Estas empresas a que Christensen se refere são as chamadas "shell companies" — empresas-fantasma, fictícias, de fachada, que só existem no papel. A terceira peça da máquina de lavar dinheiro.

"São empresas que não têm propósito comercial", diz Graham Barrow, especialista no conturbado mundo das empresas de fachada. "É um depósito de ativos, nem todos legítimos, que não tem funcionários, nem escritórios, não vende nada, mas pode ser usado de muitas formas, e não tem outra razão de ser, exceto sua própria existência".

Mas por que exatamente os britânicos são tão úteis para a lavagem de dinheiro? "O Reino Unido é considerado, quase universalmente, uma jurisdição de baixo risco em termos de criminalidade", explica Barrow.

Se forem estabelecidas muitas empresas e muitas contas bancárias para estas empresas em diferentes jurisdições com normas flexíveis, é possível mover o dinheiro por meio delas. E, se forem empresas britânicas, com diretores britânicos, tudo parece ser legítimo para o próximo país de destino. "Estas empresas são criadas com facilidade", diz Barrow.

"Você pode pagar 12 libras (cerca de R$ 77) a partir de um computador em qualquer parte do mundo, dizendo que você se chama Darth Vader e mora na Lua, e criar uma empresa com estas informações."

"Você terá uma entidade que pode transferir centenas de milhões de dólares sem dizer realmente quem você é, se escondendo atrás de terceiros, pois não há sistemas para verificar o que você afirma", explica. A incapacidade de processar adequadamente o registro de companhias levou à criação do terceiro aspecto fundamental da lavagem de dinheiro no Reino Unido. Falsificar deliberadamente as informações de uma empresa é ilegal, mas é um delito de baixo risco.

Aqueles que querem esconder seu dinheiro e movimentá-lo como quiser não enfrentaram obstáculos ao usar as estruturas corporativas do Reino Unido para ocultar sua identidade.

"Você se assustaria com a quantidade de casos na Companies House [o órgão governamental responsável pelo registro de companhias no Reino Unido], em que a empresa A é propriedade da empresa B, que é propriedade da empresa A... você pode ficar louco pesquisando isso!", exclama Barrow.

A Companies House enfrenta diariamente uma avalanche de fundações de novas empresas — e não tem poder nem recursos para verificar todas as informações fornecidas. "Em um dia comum, cerca de 3,5 mil empresas se apresentam para registro. Cada uma fornece cerca de 15-20 pontos de dados separados. Assim, diariamente, isso representa cerca de 100 mil dados", diz Barrow.

"Como se pode monitorar tudo isso com recursos limitados e tecnologia antiquada? É impossível, e os criminosos sabem disso." Diversos governos já tentaram, com maior ou menor empenho, limpar o sistema financeiro. A ilha de Jersey, por exemplo, já fez esforços significativos. "O governo de Tony Blair (1997-2007) foi o que realmente começou a pressionar seriamente não apenas Jersey, mas as ilhas do Canal e os territórios ultramarinos", destaca Christensen.

"Tem havido muitas melhorias, mas existe uma grande fila dos chamados clientes herdados, que se estabeleceram em Jersey nas décadas de 1970 e 1980 e, em muitos casos, continuam ativos, como fantasmas do passado. Na própria City de Londres, não só resta muito a fazer — como também falta vontade.

*Esta reportagem é uma adaptação de parte da série "How to Steal a Trillion" ("Como roubar um trilhão", em tradução livre), do escritor e jornalista Oliver Bullough, produzida por Phil Tinline, da BBC Radio 4.

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