Homenagem a Luiz Alfredo Garcia-Roza

Nossos atos e feitos como psicanalistas, professores e pesquisadores em Psicanálise seguirão seu curso com o legado preciosíssimo e certamente imortal que recebemos de Luiz Alfredo Garcia-Roza

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Neste 16 de abril de 2020, a cultura brasileira perdeu um de seus maiores nomes, um de seus maiores homens – Luiz Alfredo Garcia-Roza. Eu poderia ter dito várias outras palavras no lugar de cultura brasileira: a ciência, o pensamento, a intelligentsia, a filosofia, a literatura, a psicanálise, a psicologia, a universidade, a educação. Sim, todos esses campos e todas as comunidades humanas que os compõem estão de luto, em perda. Em todos eles Luiz Alfredo foi fundamental. Um pensador de raro e extremo rigor, o maior professor de filosofia que muitos de nós jamais teve. Aliás, o melhor professor, tout court, pois creio que poucos nasceram com a mesma verve e capacidade de uma transmissão tão cristalina sobre temas e problemas nada semelhantes a um cristal até que ele pusesse suas mãos de escultor na matéria. Depois de uma grave doença pulmonar durante a qual, em aparente (ou real) estado de coma, ouviu dos médicos inadvertidos sobre sua capacidade auditiva uma conversa na qual cogitavam sobre seu reservadíssimo prognóstico, ele, uma vez recuperado, decidiu levar a cabo um velho desejo que sempre adiara e que, naquele momento, em suposto coma, ouvindo sobre um possível fim próximo de sua vida que afortunadamente não ocorreu, tornou-se um ato já ali, naquele momento: “seu eu sair dessa vou escrever literatura!”. Saiu, e escreveu vários e saborosos livros que tem como protagonista o detetive... Espinosa, claro, condensação de desejos, pela filosofia e pela literatura, agora, diante do limite da vida delineado no horizonte, realizado numa vida ainda cheia de tempo pela frente.Seu começo foi na Psicologia, e não poderia ser outra senão a psicologia estrutural, para alguém com pensamento articulado em tamanha estruturalidade como o dele, que não poderia se contentar nem com as psicologias gelatinosas por falta de rigor, nem as demasiado flébeis por falta de conceitos. Em 1972 publicou, pela Vozes (Petrópolis) Psicologia estrutural em Kurt Lewin. Mas seus interesses no Mestrado já indicavam a veia crítica que sempre acompanhar o seu percurso na Psicologia: Análise do saber psicológico, de inspiração foucaultiana (cf. O triedro dos saberes, em As palavras e as coisas), que já evidenciavam a psicologia como espaço de dispersão do saber.  Pouco tempo depois, março de 1974, eu ingressei no curso de Psicologia da PUC, que tinha acabado de conseguir a proeza de demitir, por razões políticas e em massa, um time de feras, a começar por Luiz Alfredo, mas que incluía Clauze Abreu, Yolande Lisbona, Roberto Oswaldo Cruz e o próprio Dr. Carlos Paes de Barros, o grande mestre e pensador “galileano” da psicanálise, que formou tantos psicanalistas egressos da PUC-Rio, entre os quais tenho a honra de me incluir, embora extemporaneamente, pois quando entrei na graduação ele tinha sido excluído do corpo docente e só dava aulas no mestrado, nas quais eu evidentemente me infiltrei. Luiz Alfredo, demitido, também foi resgatado por nós, do GEP – Grupo de Estudos em Psicologia, núcleo intelectual do Diretório Acadêmico Jackson de Figueiredo, pólo de resistência estudantil durante os anos de chumbo, do qual eu viria ser ser presidente no ano seguinte. O GEP organizou aulas com Luiz Alfredo, fora do currículo e pagas por nós, nas salas de aula da PUC. O tema já não era a Psicologia Estrutural nem o pensamento de Kurt Lewin, mas a Arqueologia do saber, livro difícil e fundamental de Michel Foucault publicado em 1969. Certamente a participação de Luiz Alfredo na mesa-redonda com Foucault no ano de 1973 (21-25 de maio) no ciclo de conferências organizado pelo Departamento de Letras da PUC-Rio que deu origem ao inigualável volume A verdade e as formas jurídicas teve grande influência na escolha do tema que nós, recém-ingressos e já órfãos, de nascença, do que havia de melhor no curso de Psicologia da Puc-Rio, que havíamos escolhido e agora nos era apresentado amputado, leite sem nata, iríamos trabalhar com nosso mestre Luiz Alfredo por todo aquele ano de 1974.

Alguns anos depois, tive a honra de assistir à defesa de sua tese de Doutorado no ISOP (Instituto de Seleção e Orientação Psicológica, da Fundação Getúlio Vargas), um dos únicos estabelecimentos de ensino em Psicologia que tinham curso de doutorado no Brasil em torno de 1980. Um doutorado na área de Psicanálise poderia vir a existir no Brasil muitos anos depois, e o primeiro que existiu foi graças à iniciativa de Luiz Alfredo Garcia-Roza. O Programa de pós-graduação da PUC-Rio, que era e é em Psicologia Clínica e não em Psicanálise, só abriu sua primeira turma em 1985, e eu fui um dos cinco doutorandos desta turma. Luiz Alfredo foi membro da banca de examinadores de minha tese de doutorado, defendida em 3 de abril de 1992.

Como eu tinha vínculos de contra-parentesco com ele (meu tio, irmão mais velho de minha mãe, era casado com a tia Hildette Garcia-Roza, irmã do “tio Almir”, pai de Luiz-Alfredo), eu o encontrava frequentemente, no início dos anos 80, na pequena praia de Lake View, em Araruama, em casas que davam diretamente na areia à beira de uma ainda limpíssima lagoa, onde os pais de Luiz Alfredo tinham uma casa vizinha à de sua tia e que era a casa do meu tio Paulo. Numa dessas conversas de praia, eu pedi a ele que me incluísse em um grupo de estudos de filosofia seus, fora da PUC, e ele me disse que procurasse o Meirelles (José Meirelles Filho), da Terra Clínica-Escola de Psicanálise, onde ele ministrava um curso de Filosofia. De volta ao Rio, imediatamente procurei o Meirelles e me associei ao curso na Terra, como a chamávamos os mais íntimos, e ali fiquei vários anos. Em 1984 foi a vez de nós mesmos, que tínhamos nossos consultórios de psicanálise em um casarão em Botafogo, conhecido de muita gente (Rua Estácio Coimbra, 26, onde eu permaneci por 20 anos [1981-2001] e onde muita coisa aconteceu na Psicanálise lacaniana nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), criarmos nossos próprios cursos com Luiz Alfredo: foram dois anos sobre a Fenomenologia do espírito de Hegel em que Luiz Alfredo, já tomado de paixão pela Psicanálise, nos transmitia de modo indescritível e inesquecível a articulação entre Hegel e o pensamento de Lacan, sobretudo em seu início. Em 1988 Luiz Alfredo criou, com Joel Birman, na UFRJ, o primeiro Programa de Pós-graduação brasileiro em Psicanálise (stricto nominus), na área de Teoria Psicanalítica. Nessa época já não mais havia o curso no nosso casarão que, em 1986, passou a ser a sede de uma instituição psicanalítica que precedeu o Laço Analítico/Escola de Psicanálise, fundado naquela mesma casa 12 anos depois, em 1998. 

Minha formação não teria sido a que foi sem Luiz Alfredo Garcia-Roza, e isso eu afirmo em vários níveis: o rigor do pensamento conceitual, a exigência metodológica intransigente, a lógica do pensamento freudiano, a freudianidade do pensamento lacaniano, o amor pelo pensar, o respeito e a qualificação das boas perguntas, enfim, essa lista poderia estender-se muito. Certa vez ele me confessou que não tinha nenhum desejo de praticar a psicanálise como uma experiência clínica. Estávamos em um restaurante à beira do mar de Tambaú, em João Pessoa, onde uma de minhas irmãs mora até hoje e era sua anfitriã naquele momento. Ele me disse: “acho que se eu receber um paciente posso até ter uma vertigem”, e isso era para expressar que a sua paixão pela psicanálise não era menor por não querer praticá-la clinicamente. Com certeza, seus feitos – aulas, livros, conferências, criação do primeiro programa de pós-graduação em Psicanálise no Brasil e os efeitos de sua transmissão na formação psicanalítica de muitos de nós – digo por mim e digo-o como psicanalista mesmo, não apenas como estudioso ou pesquisador da área da psicanálise, o atestam sobejamente.

Não poderia deixar de dizer uma palavra de homenagem e gratidão em nome do Programa de Pós-graduação em Psicanálise do qual eu mesmo fui um fundador, no Instituto de Psicologia da UERJ, criado em 1998 (10 anos depois de seu “irmão mais velho”, criado por Luiz Alfredo na UFRJ em 1988). Embora hoje – ventos que mudaram de direção – eu não ocupe mais o lugar que por cerca de 20 anos ocupei neste Programa, autorizo-me a dizer que ele tem uma enorme dívida de gratidão para com Luiz Alfredo, tanto por ele ter aberto a estrada criando o programa que foi o nosso antecessor na Pós-graduação brasileira e demonstrando à comunidade científica nacional e internacional que a Psicanálise pode e deve ocupar um lugar de extremo rigor e respeito entre as áreas do conhecimento oficialmente reconhecidas pelos operadores da Política Nacional de Ciência e Tecnologia, quanto por ele ter estado presente de forma tão decisiva e consequente na minha formação e talvez na de alguns de outros que fundaram comigo o Programa da UERJ. 

Nossos atos e feitos como psicanalistas, professores e pesquisadores em Psicanálise seguirão seu curso com o legado preciosíssimo e certamente imortal que recebemos de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

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