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Ricardo Nêggo Tom

Cantor, compositor, produtor e apresentador do programa Um Tom de resistência na TV 247

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Jesus Cristo: um sem-terra como líder de um cristianismo latifundiário

A postagem do MTST foi imprudente, mas a reação dos bolsonaristas é puro mau-caratismo e desonestidade intelectual

Postagem do MTST sobre Cristo (Foto: Reprodução X)
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Desde a Grande Revolta Judaica, ou, a Primeira Guerra Judaico-Romana, ocorrida entre os anos 66 e 73 D.C, que foi a primeira rebelião da população da Judéia contra a dominação romana, o Império Romano começou a se articular politicamente para tentar conter a revolta dos Judeus que não aceitavam, entre outras coisas, ter que prestar culto aos deuses de Roma e pagar impostos ao seu governo. Anos mais tarde, após o Império Romano já ter expandido ainda mais o seu território de domínio, surge a figura de Constantino, a quem podemos chamar de o verdadeiro deus do cristianismo sistêmico em vigor nos dias de hoje. Até então perseguida e proibida por Roma, a fé cristã primitiva, baseada nos ensinamentos de Cristo, ganhava um importante e oportunista aliado.

Na véspera da batalha na ponte Mílvia, Constantino, o grande, um dos tetrarcas do Império Romano, teria sonhado ou tido uma visão com as iniciais do nome de Cristo, que deveriam ser grafadas no escudo dos soldados do seu exército, o que lhe garantiria a vitória na batalha contra o também Imperador romano Maxêncio, conhecido como “O usurpador”.  Seguindo o que havia sido recomendado em sonho, Constantino venceu a batalha, levou Maxêncio à morte por afogamento no rio Tibre e extinguiu o regime tetrarca, tornando-se o único governante do Império Romano. Grato à ajuda que teria recebido do deus dos cristãos, ele declara o fim da perseguição aos seguidores de Cristo, dando início a um político e conveniente processo de cristianização do Império Romano, o que foi oficializado anos mais tarde pelo Imperador Teodósio, que reconheceu o cristianismo como religião oficial de Roma.

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Jesus Cristo, a essa altura dos fatos, já era apenas um detalhe para o cristianismo romano. Tanto, que uma das primeiras iniciativas de personalização da religião foi retratá-lo à imagem e semelhança de Roma. Branco, loiro e de olhos azuis, uma farsa que a Igreja Católica cuida de manter verídica até os dias atuais. Aliás, há historiadores que defendem a tese de que a romanização do cristianismo visava conter a revolta de judeus e palestinos contra os cidadãos romanos, utilizando a figura conciliadora e legalista do Cristo que um dia ensinou aos judeus que eles deveriam dar à César o que é de César, ou seja, pagar tributos à Roma sem reclamar. Sem contar que Jesus teria nascido em Belém, cidade Palestina próxima a Jerusalém, região que era governada por Roma, o que poderia sugerir uma rendição à fé daquele povo, o reconhecimento da divindade de Jesus e um pedido de desculpas pela crucificação do maior profeta daquela terra.

Assim sendo, o caráter divino de Jesus no cristianismo romano deu lugar a um título que era concedido a alguém tido como superior dos superiores politicamente. Um Imperador. E ele passou a ser chamado de “rei dos reis”, o mesmo título que já havia sido ostentado por Nabucodonosor II, Imperador da Babilônia, e também por outros Imperadores na Assíria e na Etiópia séculos antes de Cristo. Vale lembrar que na Roma antiga o Imperador também era cultuado como uma divindade, o que não mudou com a entronização de Jesus Cristo ao panteão romano. Uma prova da conveniente e restrita aceitação do cristianismo como religião oficial do Estado. Os “Césares”, os Imperadores, e os “Augustos”, os “veneráveis” e “majestosos”, se mantinham no mesmo patamar que Jesus Cristo, ainda que de forma subliminar. Eles detinham o verdadeiro poder sobre o latifúndio, mas passaram a utilizar o Deus cristão como laranja para justificar suas ações de governo. 

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Quando o MTST posta uma foto de Jesus sendo crucificado e ironiza com a frase “bandido bom é bandido morto”, numa clara alusão a extrema-direita que professa o mesmo cristianismo político de Constantino, os bolsonaristas se arvoram em produzir o cancelamento da candidatura de Guilherme Boulos à prefeitura de São Paulo e a ratificar a narrativa de demonização da esquerda como inimiga da fé cristã. Em que pese a postagem ter sido pouco inteligente, dada as atuais circunstâncias político-religiosas que atravessam a democracia brasileira, a reação dos opositores evidencia o mau-caratismo e a desonestidade intelectual que os caracterizam. Jesus foi julgado como um bandido pelo mesmo Império Romano que três séculos depois o adotava como sua principal divindade. Recebeu a pena máxima que era imposta aos condenados - a morte na cruz – exatamente por ter denunciado a hipocrisia dos “bolsonaristas” de seu tempo.

Jesus era um sem-terra, um homem do povo cuja ideologia social e política incomodava aos poderosos. Propunha a partilha do pão, mandava os ricos doarem tudo o que tinham para os mais pobres, esteve ao lado das minorias e o seu conceito de “salvador da humanidade” é uma metáfora que define a sua elevada proposta de mudança das relações sociais no mundo. Uma proposta de um mundo justo, fraterno, pacífico e igualitário, algo que jamais seria atingido através da dominação de um povo sobre o outro. A proposta de um Deus que ama a todos sem distinção e lhes deseja uma vida plena e abundante, diferente de uma realidade religiosa onde o deus é criado à imagem e semelhança daqueles que detêm o poder e apresentado como o salvador daqueles que são oprimidos por esse poder. Jesus ameaçou a autoridade religiosa do seu tempo e desafiou a fé das pessoas que acreditavam que seus algozes poderiam conduzi-las a uma vida eterna na presença de Deus. Se voltasse nos dias de hoje, seria morto por Malafaia, Macedo e companhia, por desautorizá-los diante das ovelhas que cegamente são conduzidas por esses falsos pastores.

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O cristianismo latifundiário tem um líder sem-terra, mas odeia os movimentos sociais que defendem os mesmos princípios que Jesus defendeu e faz de tudo para crucificá-los e apresentá-los à sociedade como inimigos da fé cristã. Talvez seja mesmo, quando falamos de um cristianismo asqueroso e nauseante, que tenta violentar liberdades individuais e avanços coletivos, a pretexto da defesa da palavra e da moral do seu deus. O deus de Constantino, Teodósio, Hitler, Malafaia, Flordelis, Bolsonaro e de todos os ditos cristãos que se dizem seguidores de um “rei dos reis” que nunca teve majestade, mas que conseguiu reinar sobre todos os outros com humildade, simplicidade, respeito e amor ao próximo. Um filho de Deus, assim como todos aqueles que promovem a paz, a equidade e a justiça social. Boa Páscoa!

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