Joaquín Sabina: o artista espanhol que o Brasil ainda precisa descobrir

O cantautor, conhecido como “Bob Dylan em castelhano” e um dos mais celebrados em seu país, comemorou a libertaçao de Lula, mas jamais se apresentou no Brasil

www.brasil247.com - Joaquin Sabina
Joaquin Sabina (Foto: Reprodução)


Por Josely Teixeira Carlos *

(Pós-Doutora em Análise do Discurso e Música pela Paris X. Doutora em Letras pela USP/Sorbonne. Pesquisadora da USP, com mestrado e doutorado sobre Belchior. Pesquisadora da obra de Joaquín Sabina)

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Avant la lettre: este texto começou a ser escrito em meados de novembro de 2019, quando o músico Joaquín Sabina revelou, durante concerto realizado em Montevidéo, que estava “con ganas” de vir ao Brasil, e terminou de ser escrito em 18 de fevereiro de 2020, quase uma semana depois de Sabina sofrer um acidente, ao tropeçar na borda do palco e cair no fosso, de uma altura de quase dois metros, em show realizado em Madri, na Casa Wizink Center. O artista sofreu “traumatismo no ombro esquerdo, no toráx e crânioencefálico”, o que causou um “pequeno coágulo”, pelo qual teve de ser operado. Na data de hoje, Sabina permanece se recuperando no Hospital Rúber Internacional de Madri. 

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Você precisa conhecer Joaquín Sabina

Para além de Julio Iglesias, cantor espanhol internacionalmente conhecido e cuja obra foi bastante difundida no Brasil, o público brasileiro de música vem tendo acesso a uma dezena de produções em língua hispânica, particularmente, a partir da década de 1970, e do trabalho da argentina Mercedes Sosa, e de suas parcerias com Caetano Veloso, Chico Buarque, Fagner, Milton Nascimento e Raul Elwanger. 

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Os cubanos Pablo Milanés e Silvio Rodriguez também tiveram e têm até hoje considerável divulgação no País, especialmente pelo diálogo estabelecido com Chico Buarque de Holanda. Chico fez versões de duas músicas de Milanés em 1984, “Iolanda” e “Como se fosse a Primavera”, a última com Nicolás Guillén, e em 1978 gravou “Pequeña serenata diurna”, de autoria de Rodriguez. 

O catalão Joan Manuel Serrat, um dos maiores ídolos da canção na Espanha, igualmente, realizou trabalhos, acessíveis ao ouvinte brasileiro. Depois de registrar com Fagner a canção “La Saeta” (Serrat e Antonio Machado), no disco clássico do cearense Traduzir-se (1981), Serrat gravou no Brasil, em 1986, o álbum “Sinceramente teu”, com a participação de Caetano, Fagner, Gal, Maria Bethania e Toquinho.

Dos países hermanos, o argentino Fito Paez e o uruguaio Jorge Drexler realizam, com frequência, espetáculos pelo País, tendo hoje constituído uma parcela do público, que pode ser chamada de “fiel”.

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Nesse cenário de escuta de músicos hispano-hablantes no Brasil, o público apreciador e consumidor de canção ainda precisa conhecer Joaquín Sabina: escritor, artista plástico e um dos grandes cantautores da canção em espanhol, que, pela densidade de seu cancioneiro, é considerado “o Bob Dylan em castelhano”.

Com 71 anos de idade, quase 40 anos de carreira, mais de 20 discos lançados e 20 milhões de cópias vendidas, o maior “poeta” da canção em espanhol atrai multidões em todos os demais países da América Latina, mas nunca veio ao Brasil.

Sabina e o Brasil

Ao nos voltarmos para “a obra” de Joaquín, identificamos que o Brasil aparece discretamente em sua música, através de algumas menções topográficas, como a que ele fez em “Con un par”, do disco Mentiras piadosas (1990), cuja letra se refere às praias de Copacabana e Ipanema.

Já se nos debruçamos n“a vida” do artista, comprova-se que Sabina conheceu de perto artistas brasileiros. Em uma de suas inúmeras idas a Argentina, ele aparece ao lado de Caetano e Fito Paez, em Buenos Aires, na época da gravação do álbum Circo Beat (do artista rosarino, em 1995), onde Veloso participou na faixa “Mariposa tecknicolor”. O encontro com o baiano não geraria, no entanto, nenhuma parceria entre Sabina e os artistas nacionais. 

O espanhol mostrou, ainda, mais de uma vez, que conhece a produção musical brasileira, ao citar, por exemplo, Chico Buarque como um dos maiores artistas vivos da canção de autor na América Latina, como ele fez na entrevista ao escritor Javier Menendéz Flores, publicada no livro Sabina en carne viva (2006). Ademais, Joaquín cita Chico, no poema “Mis poetas. Dos sonetos” (2009), dedicado a um conjunto de artistas que constituem as influências do compositor andaluz. 

A atenção de Joaquín pelo Brasil, notadamente pela conjuntura política do país, manifestou-se também recentemente. Na ocasião da libertação do ex-presidente Lula, Joaquín, que realizava turnê na Argentina e Uruguai, junto a Serrat, declarou em concerto em Buenos Aires, exatamente no dia 08 de novembro: “Hoy es una noche feliz, muy alegre”. Ao que complementou: “¡Por qué!...”. “Porque salió à la calle de nuevo Lula da Silva, donde siempre estuvo. Es un día muy grande, feliz para la democracia, para la libertad y no solo para la los brasileños, sino para toda Sudamérica, toda Latinoamérica…”, encerrou Serrat, com aplausos dos espectadores. O gesto demonstra que tanto Sabina quanto Serrat, ao contrário da postura de outros artistas, faz questão de se posicionar. 

Momento do show em que Sabina fala de Lula: 


Por que Sabina deveria vir ao Brasil? Nos sobran los motivos

O fato de sermos o único país da América Latina a falar português e de o castelhano não ser língua usada com fluência no Brasil talvez explique o motivo de Sabina nunca ter investido em sua carreira em terras nacionais, mesmo tendo cruzando o Atlântico, da Europa para a América de língua espanhola, diversas vezes, desde a década de 80.

Apesar de não ter sido propagada no Brasil, as características da obra de Sabina suplantam, onde quer que toque, qualquer restrição aparente à língua estrangeira. A voz singular, a crônica social, a ironia fina, o diálogo com a literatura, a grande extensão, temáticas e complexidade de suas letras, além de o fazer ser comparado ao Prêmio Nobel de Literatura, transformam o artista no mais cosmopolita músico espanhol. 

O conjunto de personagens, espaços e cenas espalhados em suas músicas são de tal maneira amplos que tornam sua obra tão universal como são as dos melhores literatos, configurando sua produção uma espécie de “Dom Quixote da canção”.

Neste sentido, a obra lapidar de Joaquín, vinda ao Brasil, combinaria perfeitamente com o frescor, extroversão, alegria e tropicalidade que nos definem. 

Sabina está querendo conhecer a nossa batucada

Nestes anos todos em que venho pesquisando a obra de Sabina, um autoquestionamento me tem sido recorrente: Joaquín fará um dia espetáculos no Brasil? Tive a oportunidade, mas, não fiz essa pergunta a ele!

Para minha surpresa, depois de eu ter conversado com ele, em Montevideo, no último mês de novembro, um dos maiores artistas de língua espanhola declarou, em concerto realizado com Serrat, na casa de espetáculos Antel Arena (no dia 20), diante de um público de milhares de pessoas: “Estou com vontade de ir ao Brasil”.

Hoje, passados 3 meses dessa declaração e, até agora, com o susto provocado por um acidente sofrido por Sabina há uma semana, que caiu da borda do palco, de uma altura de quase dois metros, em show realizado em Madri, na Casa Wizink Center, tendo sido retirado em uma cadeira de rodas, eu gostaria de dizer a ele:

- Recupera-te logo, levanta-te e anda, Joaquín, porque o Brasil, terra de Noel, Cartola, Belchior e Gilberto Gil, ainda precisa descobrir Sabina!

 * A professora e comunicadora Josely Teixeira Carlos tem pesquisas acadêmicas na área de Letras e Música e vem estudando canção desde 1999. Concluiu mestrado e doutorado sobre a obra de Belchior. Vem pesquisando, nos últimos anos, a obra de Joaquín Sabina. Já ministrou palestras, cursos e conferências sobre música popular no Brasil e na França. É jornalista e radialista.

Pesquisas da autora:

CARLOS, Josely Teixeira. Muito além de apenas um rapaz latino-americano vindo do interior: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior. 2007. 278 p. Dissertação (Mestrado em Linguística) - Pós-Graduação em Linguística, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2007. Acesso em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/8767 

CARLOS, Josely Teixeira. Fosse um Chico, um Gil, um Caetano: uma análise retórico-discursiva das relações polêmicas na construção da identidade do cancionista Belchior. 686 p. Tese (Doutorado em Letras) - Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Acesso em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-07102014-121114/pt-br.php 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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