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Roberto Ponciano

Escritor, mestre em Filosofia e Letras, especialista em Economia. Doutorando em Literatura Comparada

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Não se deve subestimar o fascismo, nem superestimá-lo

Diante do esforço hercúleo do bolsonarismo para mostrar poder, mostrou impotência

Ato promovido por Silas Malafaia em apoio a Bolsonaro na Avenida Paulista (Foto: Paulo Pinto/Agꮣia Brasil)
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De La Cruz passa como quer pela marcação tricolor e encontra Arrascaeta, que de letra toca para Pedro, que de letra encontra Cebolinha, que com um tirambaço faz um gol estilo “Canal 100”, no fato mais comentado no fim de semana. Não, não foi a micareta bolsonazistas, mas o Fla x Flu de Diniz versus Tite que teve mais destaque nas redes sociais. Não, este artigo não é sobre a indústria cultural, nem sobre pão e circo, mas para destacar, que diante do esforço hercúleo do bolsonarismo para mostrar poder, mostrou impotência.

O ato da Bolsonazi na Paulista foi opaco, apagado. Não bombou nas redes sociais, nem nas mídias tradicionais. Ao contrário das manadas de julho e do golpe contra Dilma, nos quais, com o interesse de derrubar o PT, a Globo e redes afins transmitiam até briga de bar se a discussão pudesse ser ligada a alguma atividade antipetista, a micareta nazista na Paulista recebeu uma atenção muito, muito pequena, tanto na web quanto na imprensa tradicional. 

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Apesar de todo o esforço dos exércitos de robôs de Bolsonaro para subir o engajamento nas redes, a retransmissão da opereta sem graça foi bem abaixo do que esperavam seus organizadores. Duas razões há para isto, a primeira é que parece, que agora, parte da esquerda começou a aprender a usar as redes sociais a seu favor e pararam de recompartilhar e engajar o conteúdo bolsonarista (não toda a esquerda, mas parte dela, a esquerda caça click ficou com link aberto o tempo todo no evento fascista). De outro lado, Bolsanazi, sem as tropas de assalto sob seu comando, que tinha quanto estava com o aparelho de Estado na mão, e encagaçado de medo, fez um discurso que não açula o seu bando.

Bolsonaro Tchuchuca não encanta o batalhão de ensandecidos “machos alfas a la Village People” e clones de Damares que o seguem. O discurso de perdão, anistia e “reconciliação nacional” não engaja suas matilhas fascistas. O fascismo é antes de tudo um estilo estético, como alerta João Bernardo, em seu excelente “Labirintos do fascismo” (o melhor panorama geral do fascismo que eu já li). Bolsonaro na personagem de führer tupiniquim Bento Carneiro encanta sua turba de ressentidos e recalcados, no papel de Polyanna Moça não engana ninguém. Um cabisbaixo ex-imbrochável (incomível continua a ser, ninguém em sã consciência sente libido por este traste) só faltou ajoelhar e pedir perdão a Moraes pelos delitos que confessou no púlpito – realcemos a burrice de confessar para milhares que sim, a minuta golpista existiu.

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Não se pede anistia para crimes que não foram cometidos, Bolsonaro subiu ao palco para pedir pinico ao STF, poderia se colocar um fundo musical com o Bezerra da Silva ao fundo: “Você com revólver na mão é um bicho feroz, sem ele anda rebolando e até muda de voz”. O rugido do leão nazifascista Bento Carneiro virou um miadinho bem sem vergonha de gato angorá de madame. O fascismo não consegue operar as suas turbas com base na racionalidade, opera no Tânatos, nunca no Eros, não é no princípio do prazer, é na sua negação, no sentido da morte, da destruição, do ressentimento, do recalque. Um “mito” nazifascista enfraquecido (como foi Mussolini na Alemanha, subjugado por seus pares e depois reposto no poder pela Gestapo, sem nenhum poder de fato), não serve para nada. Bolsonaro não mostrou nenhuma força, só fraqueza.

Há duas discussões na esquerda, uma sobre se o evento “flopou” – fracassou – ou não, olhando apenas pelos números. Os números do laboratório da USP falam numa média de 30, 40 mil pessoas e 185 mil no pico. São números grandes, mas não pelo que foi investido no ato. É bom lembrar que era um ato nacional com caravanas de todos os estados do Brasil, com o fenômeno de algumas denominações evangélicas mandarem ônibus de suas igrejas para o ato, como se fosse uma “marcha para Jesus”. Dada a envergadura do esforço, o público é para lá de mediano, de per si, não ilustra nenhum grande ato pró-Bolsonaro. E tem dimensões ainda mais interessantes: como ato pró-golpe fracassa esteticamente já no intento, porque o cagaço, o medo do ex führer Beto Carneiro já proibiu as manifestações estilo “Ustra te amamos”, próprias do golpismo desde o início. Se a tônica dos deputados bolsonaristas foi a de pedir o Impeachment de Lula durante a semana, no ato, Bolsonaro só pediu perdão. Estética e simbolicamente foi demonstração de fraqueza, não de força.

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Sobre a frase de que não podemos subestimar o fascismo, desculpe, ela é um truísmo. Este autor que vos escreve nunca o subestimou. Eu saí do PCB em 2004 rumo ao PT por conta do mensalão. Enquanto muita gente gozava com o Justiceiro Joaquim Barbosa e entrava numa fúria udenista de teatro bufão, eu já assinalava o risco de que, primeiro o mensalão, e depois a lava jato, fossem uma forma de macarthismo a la brasileira. Este escritor aqui foi contra a lei da ficha limpa, foi contra as delações premiadas, contra o mensalão e contra a lava jato. Vi o perigo do lawfare e do fascismo não em 2024, mas em 2004! Camaradas, alertar contra subestimar o perigo do fascismo agora não é antevisão, é falar o óbvio. Enquanto alguns de vocês posavam ao lado de Bretas e da Paulinha do Caetano num passado não muito distante, eu sempre estive do outro lado explicando, avisando: “senhores, vocês estão chocando o ovo da serpente”.

Não podemos subestimar o fascismo, nem superestimá-lo. Não podemos transformar um ato de fraqueza numa demonstração de força. Bolsonaro subiu ao palco, todo cagado, para pedir perdão, não para ameaçar. Não foi uma demonstração de força, foi de cagaço, medo mesmo. E é hora de metê-lo na cadeia, junto com Malafaia, sem medo da retórica de ameaças deste curandeiro de quinta que se finge pastor. É óbvio que o país continua dividido, é óbvio que o bolsonazismo continuará a ser uma força eleitoral considerável, é óbvio que o perigo de retorno do fascismo não passou, mas não, ontem eles não demonstraram força, estavam na defensiva, fazendo um ato preventivo contra a prisão de Bolsonaro. Ato tão ignóbil, que seus possíveis “sucessores” já de estapeavam no palco pela carniça do moribundo político fedorento, que ainda agoniza, mas está vivo ligado a aparelhos. Micheque, Caiado, Tarcísio, todos estavam lá não para apoiá-lo, mas para sucedê-lo.

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O perigo do fascismo não passou, sua força no Brasil é considerável, mas ontem teve menos destaque que o gol de placa do Cebolinha ou a virada do Inter no Grenal. Em tudo, a micareta golpista de Bolsonaro me fez lembrar o último baile da Ilha Fiscal, este acabou com o Império sendo extinto, o de ontem acabará com Bolsonaro na Papuda.

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