Nubank é reflexo da dominação tecnológica em meio à hegemonia financeira

"Cada vez mais cresce o interesse de capitais globais sobre fintechs brasileiras", explica o colunista Roberto Moraes. "Não apenas Warren Buffet adquiriu parte do Nubank, mas na semana passada, o JP Morgan colocou alguns bilhões para ficar com 40% de outra fintech que cresceu muito no Brasil: a C6Bank"

(Foto: Nubank/Divulgação)
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Além da análise mais macro sobre os caminhos do “capitalismo da gestão de ativos” na era da dominação tecnológica e hegemonia financeira, eu resolvi observar mais perto os caminhos da financeirização digital (home banking e a fintechs).

Assim, resolvi descer para uma investigação mais próxima da nossa realidade com uma pesquisa no âmbito micro sobre as fintechs. Escolhi iniciar pela player, atual campeã, do setor de varejo digital de crédito no Brasil, o Nubank. Observar como o Nubank funciona na prática para as pessoas.

A líder Nubank hoje já possui quase 40 milhões de contas e alcançou valor de mercado que já é superior a US$ 30 bilhões, cerca de 50% maior que o valor do Banco do Brasil. Crescimento que no último mês se deveu também ao aporte de capital feito pelo fundo do Warren Buffet de cerca de R$ 2 bilhões. Hoje, o Nubank é a quinta instituição financeira mais valiosa do Brasil, atrás – na ordem - do Itaú, Bradesco, Santander-Brasil e BTG e o 5º maior banco digital do mundo.

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O Nubank ultimamente vem crescendo sua carteira de clientes na faixa de 41 mil novas contas por dia. Possui apenas 5 mil funcionários contra cerca de 90 mil do Bradesco ou do Itaú que como bancos tradicionais ainda contam com milhares de agências pelo país. O Nubank é apenas um APP. Um banco digital. Home banking, ou Internet banking. Ou uma fintech, acrônimo que reúne as palavras finanças e tecnologia.

Em termos práticos, entre 5 e 10 minutos, depois de baixar o APP do bando digital, eu já tinha aberto a conta e logo em seguida já pude realizar como teste, a transferência de um valor do meu banco usual para essa conta do Nubank que de forma online no mesmo momento acusou o crédito.

Em seguida, recebi por email a informação de que estavam enviando para o meu endereço um cartão, ao mesmo tempo que ofereciam uma opção de “guardar dinheiro”, uma espécie de conta remunerada para ser baixado a qualquer momento, com pagamento de rendimento de 100% do CDI, superior à poupança em muitos CDBs.

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Certamente é coincidência, porque não vou acreditar em teoria da conspiração, mas logo que acabei de realizar o teste, eu recebi em meu celular uma ligação do tal Itaú Personalité com ofertas parecidas.

Porém, o que interessa nesse caso é identificar que essas facilidades e desburocratização ajudam a explicar o sucesso dessas fintechs entre a população, em especial, a mais jovem e mais endinheirada, que domina com maior destreza esses mecanismos do mundo digital. Os bancos não se interessam pela periferia do sistema onde estão as pessoas de baixa renda e sem propriedade.

A lógica da intermediação financeira via startups e Internet banking e fintechs

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Enfim, a internet banking - fintechs - é uma forma de uso das plataformas digitais que realiza a intermediação financeira, que antes era feita por uma agência bancária tradicional e agora é executada automaticamente por um aplicativo.

É bom que seja lembrado que estes grupos trabalham com potentes mecanismos de Inteligência Artificial (IA) tanto para identificar seus atuais clientes, como para captar depósitos e contas e ainda monitorar o uso que fazem de suas finanças. O cruzamento destes dados com outros interesses e perfis de milhões de pessoas potencializam seus negócios financeiros.

Banco de dados são comprados por valores altíssimos para aperfeiçoar as buscas de informações para que o cruzamento de dados se efetive como a alma do negócio-chave das fintechs: intermediação financeira ágil e de massa. Os dados trabalhados de forma inteligente substituem os antigos bancários. 

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Já é quase natural, no ambiente das fintechs, em que a maioria de trabalhadores é de engenheiros de computação e técnicos de Tecnologia da Informação (TI), que a concessão de créditos seja decidida por algoritmos, a partir do aprendizado de máquina (machine learning), desenvolvido por enormes bases de dados (Big Data). 

IA e BD se combinam. Aprendizado de máquina é basicamente estatística, sustentado em estoque de dados. Algoritmo é um programa que organiza o aprendizado de máquina através dos algoritmos, a partir de direções e escolhas definidas pelo dono do sistema. Eles buscam o aumento da capacidade de intermediação financeira em massa, menor custo-risco e maiores rendimentos de curto prazo com o dinheiro dos correntistas.

A ampliação do surgimento das fintechs vem no bojo do processo de startupização que acontece no Brasil e no mundo, onde investidores descobriram uma fórmula de investir praticamente sem riscos. Em 2011, o Brasil tinha 600 startups, mas em 2021 deu um salto para 13.813 startups, incluindo as fintechs. Nos últimos quatro anos, as startups conseguiram aportes de capital no valor de US$ 11,75 bilhões, sendo 1/3 de valor, cerca de R$ 4,1 bilhões, aportados apenas nas fintechs (Internet Banking).

O uso dos aplicativos também vem sendo ampliado pelos bancos tradicionais, mas com resultados mais modestos em termos de captação de novas contas e/ou clientes. Apesar desse movimento, a concentração bancária no país ainda é muito grande. Em 2018, era de 84,8% e no final de 2020, ainda estava em 81,8%, com queda de apenas 3%.

Para se analisar o setor bancário os economistas dizem que é necessário observar o que eles chamam de três agregados contábeis: ativo total; depósito total e operações de crédito. Este último muito relacionado, mas não diretamente, ao número de clientes ou contas.

Ainda, segundo segundo o Banco Central, em termos de operações de crédito, em 2018 no Brasil quase metade (48,9%) delas eram realizadas pelos bancos públicos (BB, CEF e BNDES). Mas, em 2020, já se podia observar como cresce rapidamente, a participação dos bancos privados, quando as operações de crédito nos bancos públicos tinham caído para 42,8%. Ou seja, atualmente, quase 60% já são realizadas pelos bancos privados aí incluídos as fintechs.

O mais interessante deste processo é que essas bancos digitais (internet banking) ganham com a enorme redução de despesas por não possuírem agências físicas e terem um número muito menor de trabalhadores (bancários), o que aumenta bastante os seus lucros.

Além disso, a captação de clientes e investimentos pelas fintechs é muito mais barata. Aliás, também segundo o BC, esse é o maior peso no índice de Custo de Crédito (ICC) dos bancos, cerca de 31%, acima até das despesas administrativas que são estimadas em 21%. É com esta redução de custos, de cerca de 50%, que os bancos digitais estão oferecendo algumas vantagens, embora, os juros dos seus créditos sejam tão altos quanto dos chamados bancões (tradicionais) no Brasil, que são conhecidos como os maiores do mundo.    

Por tudo isso, é possível afirmar que estamos diante de um movimento também no setor bancário - muito vinculado ao mercado de capitais e fundos financeiros – de um expressivo aumento do controle do mercado sobre a política econômica que também define o direcionamento do crédito, entre os setores da economia e a distribuição regional (espacial) no Brasil. O Estado segue aceleradamente, perdendo o seu protagonismo.

Trata-se de um esquema de captura do varejo de crédito no país das mãos dos bancos tradicionais. Por isso, não apenas Warren Buffet adquiriu parte do Nubank, mas na semana passada, o JP Morgan colocou alguns bilhões para ficar com 40% do C6Bank, outra fintech que cresceu muito nestes últimos anos Brasil.

Porém, a leitura necessária para se entender esse processo no setor bancário brasileiro é a da mudança que está em curso na forma de intermediação financeira. Os excedentes da poupança das pessoas, famílias e das empresas estão encontrando outro destino. Eles estão indo para essas fintechs e para os fundos financeiros. Assim, estes investidores passam também a controlar, diretamente, a produção, além de alimentarem o processo de especulação com papeis do setor financeiro. Ao controlar parte maior da produção, esses investimentos vão atrás de maiores rendimentos de curto prazo, que extraem valor da geração de riqueza e do trabalho.

A dominação tecnológica reforçou o protagonismo do mercado das finanças nas relações com a sociedade sem regulação do Estado

Assistimos a um movimento que explica como o capitalismo foi se tornando hegemonicamente financeiro. A Plataformização (e/ou Appficação) das finanças mostra como a dominação tecnológica amplia a hegemonia financeira, ao mesmo tempo em que extrai mais valor da renda do trabalho, amplia a taxa de lucro e torna o trabalho mais precarizado.

O capital flui de forma mais livre, desregulamentada e num circuito imbricado entre as finanças globais e nacionais. Um processo que demonstra como o mercado ampliou o seu protagonismo nas relações com a sociedade que antes eram mediadas e reguladas pelo Estado.

Na essência, as finanças não criam valor como defendem os economistas neoclássicos. As finanças não são um setor e sim um “acordo contratual” de intermediação e circulação do dinheiro e do crédito. O que há é que intermediação (circulação) financeira foi extremamente facilitada com o mecanismo das plataformas digitais e da Internet Banking, se tornando ainda mais lucrativa.

Por tudo isso, eu tenho insistido para a necessidade se compreender porque o Brasil de hoje é tão distinto de duas décadas atrás. Não haverá saída sem que o Estado retome esse protagonismo, sua autonomia e soberania nas relações entre o mercado e a sociedade.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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