O cerco a Bolsonaro está se fechando

Para Ribamar Fonseca, "Bolsonaro e bolsonaristas ficaram enlouquecidos diante da possibilidade, a cada dia mais real, de ser defenestrado do Palácio do Planalto antes das eleições do próximo ano. Afinal, o cerco está se fechando."

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(Foto: Felipe Campos Mello)


Ribamar Fonseca

Os movimentos populares, as manifestações de rua, as pesquisas  e a CPI da Covid, além das suspeitas de corrupção no governo e denúncias de rachadinha, estão levando  Bolsonaro ao desespero, deixando-o sem dormir  e agravando o seu conhecido desequilíbrio. Ele não tem mais dúvidas de que não conseguirá reeleger-se em 2022 e, por isso, prepara o terreno para o tudo ou  nada, o que inclui uma tentativa de golpe. 

Primeiro, contrariando todo mundo, insiste no retorno do voto impresso, sob a alegação de que o voto eletrônico é fraudável, ao mesmo tempo em que faz ameaças de que não aceitará o resultado do pleito, o que significa que já admite a derrota. O seu desespero é tamanho que chegou até a ameaçar cancelar as eleições presidenciais do próximo ano, como se tivesse poderes para tanto. E ainda tem coragem de se dizer defensor da democracia.

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Acuado, diante das investigações da CPI da Covid, Bolsonaro quer aproveitar o episódio do atrito entre o Congresso Nacional e as Forças Armadas, caracterizado pela nota do Ministério da Defesa repudiando declaração do senador Omar Aziz, presidente da CPI, para conquistar o apoio dos militares para uma possível ruptura da Constituição. Já chegou a promover uma reunião-almoço no Palacio do Planalto com os comandantes militares para um exame das manifestações de rua contra ele, ressuscitando a velha desculpa do  comunismo como motivação para um ato de força. 

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Como tem muita gente dentro e fora dos quartéis que ainda acredita que  comunista come criancinhas,  na visão deles uma ameaça ao nosso país, Bolsonaro provavelmente imagina que usando esse mote anacrônico poderá sensibilizar militares também anacrônicos para a sua causa. 

Felizmente, porém, os tempos são outros, os quartéís foram renovados  pela nova geração de militares e esse pensamento jurássico já não predomina entre eles. Na verdade, a nota oficial do Ministério da Defesa, se fosse submetida aos quartéis, não teria a aprovação da maioria que, certamente, não aprova o comportamento de alguns colegas de farda que ocupam cargos civis no governo, especialmente no Ministério da Saúde. 

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A nota, provavelmente inspirada por Bolsonaro, torceu a declaração do senador Omar Aziz que, ao contrário do que disse, não agrediu as Forças Armadas, apenas condenou a atitude de militares envolvidos nas negociações para a compra de vacinas. A nota, portanto, parece querer blindar os militares acusados de participação na negociata de vacinas no Ministério da Saúde, o que imita atitude do próprio Bolsonaro que, ao invés de mandar investigar as pessoas denunciadas por irregularidades, mandou investigar os denunciantes. Toda categoria profissional tem bons e maus profissionais, o que não deve ser diferente com os  militares, que são seres humanos como qualquer outro e, portanto, sujeitos aos mesmos erros, aos mesmos vícios e às  mesmas tentações   

Em vez de defender maus militares, os comandantes  deveriam  separar o joio do trigo, preservando a instituição e, consequentemente,   o respeito e  a confiança que sempre tiveram do povo brasileiro. 

O fato é que, embora nomeados por Bolsonaro, os comandantes militares não deveriam dar suporte às suas loucuras, até porque eles devem obediência e respeito  à Constituição, já que são agentes do Estado, não do governo, ou não estão compromissados com a democracia, que dizem defender. 

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E mais: ao contrário do que o capitão  costuma repetir, as Forças Armadas não são tutoras do país mas responsáveis por sua defesa diante de uma ameaça externa e pela  garantia dos poderes constituídos. E só. Não estão a serviço do Presidente da República, mas do país. O povo, de onde emana todo o poder, segundo a Constituição, é o seu patrão. E de acordo com as pesquisas, a esmagadora maioria não está nada satisfeita com a conduta do Presidente, o qual,  com um linguajar chulo e atitudes impróprias para um ocupante do cargo mais importante da Nação, envergonha os brasileiros, especialmente os que foram enganados e votaram nele.

Hoje, muitos deles estão arrependidos, mas a “cagada” está feita. Os comandantes militares que, estranhamente, se sentiram ofendidos pelas declarações do senador Omar Aziz, ao contrário do que imaginaram,  não defenderam a instituição com aquela nota despropositada, já que a instituição não foi atacada por ninguém. 

Na verdade, ao que parece, apenas pretenderiam intimidar  a CPI, de modo a estancar as investigações sobre as maracutaias no Ministério da Saúde, cujo titular era um general da ativa, e chegar até Bolsonaro, que parece comprometido com as irregularidades denunciadas, pois sequer respondeu às indagações da Comissão Parlamentar de Inquérito quanto às revelações feitas pelo deputado Luis Miranda e seu irmão. 

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Na realidade, praticamente confessou seu envolvimento ao se recusar a confirmar ou desmentir as denúncias do parlamentar e o irmão. Acredita-se que os comandantes militares não aprovaram os termos da sua resposta à CPI, pois isso seria a desmoralização completa do país.  Em vez de notinhas ameaçadoras, portanto,  melhor ficarem em silêncio para não perderem o respeito e a confiança que ainda desfrutam, pois ninguém consegue imaginar um general, um almirante ou um brigadeiro dizendo que está “cagando” para o Congresso. 

É forçoso reconhecer que Bolsonaro foi a pior desgraça que aconteceu ao Brasil em toda a sua história, destruindo tudo o que os governantes anteriores construíram, inclusive o prestígio internacional alcançado no governo de Lula. 

Depois da morte de mais de 500 mil brasileiros, por negligência no combate à Covid-19, ficou muito difícil conviver com Bolsonaro no Governo por mais um ano e meio. E após o seu mais recente surto de insanidade, difícil prever sua próxima loucura, sobretudo na disfarçada ditadura que o país já vive, onde não se pode sequer dizer que ele é feio, pois corre-se o risco de ser preso.  

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o cozinheiro de um hotel foi preso por não querer cozinhar para ele e uma senhora foi igualmente presa por bater panela durante a sua motociata. Não, a mulher não bateu nele com a panela, o que poderia ser motivo para prendê-la, apenas bateu na própria panela, em sinal de protesto. 

E o seu mais conhecido advogado, Wassef, ameaçou de morte a jornalista Juliana Piva, que denunciou no UOL o esquema de rachadinha em seu gabinete, quando  era deputado federal.

Não é difícil concluir, nesse cenário,  que Bolsonaro e bolsonaristas ficaram  enlouquecidos diante da possibilidade, a cada dia mais real, de ser defenestrado do Palácio do Planalto antes das eleições do próximo ano.   Afinal, o cerco está se fechando.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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