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Roberto Ponciano

Escritor, mestre em Filosofia e Letras, especialista em Economia. Doutorando em Literatura Comparada

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O evangeliquistão, a morte do Estado laico e a leniência da esquerda

O estado laico agoniza, preso a aparelhos, perto de uma falência múltipla dos órgãos

Ato bolsonarista na Avenida Paulista (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
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Hoje de manhã fui pagar uma conta na lotérica, em altos brados, num alto-falante de rua, em decibéis de fazerem inveja a qualquer baile funk, uma rádio de rua toca música de louvor. Fui comprar um pepino no hortifruti da esquina, 5 minutos de tortura na fila, obrigado a escutar música gospel, num espaço que não dá folga a seus funcionários aos domingos, mas no qual há um cartaz bem grande, “Deus é o senhor”. Depois fui ao Centro e peguei o trem, no vagão um culto evangélico, aos brados, com os fiéis mais do que tentando converter, intimidando que se sente incomodado com o som, ainda que haja um cartaz em que se lê, “proibido cultos de qualquer espécie”, só não há a quem recorrer e reclamar pode te deixar perto do linchamento público.

Bem-vindo ao conto da Aia. O evangeliquistão é aqui. Uma distopia no qual um exército de zumbis marcha com pentagramas, que eles pensam que é a estrela de David e no qual confundem a Israel mitológica de Salomão (que nunca existiu de fato) com o Estado sionista assassino de palestinos, e no qual, o ignóbil Malafaia passa por uma pessoa culta que, como Moisés, desceu do Morro do Rato Molhado com as tábuas da Teologia da Opressão.

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O estado laico agoniza, preso a aparelhos, perto de uma falência múltipla dos órgãos e a esquerda se felicita por organizar “atos ecumênicos” e também falar no nome de Deus, a cada 5 minutos, para não correr o risco de perder eleitores. Na campanha eleitoral em que a Branca de Neve de Bolsonaro falava shalalavai minha boca e os idiotas acreditavam que ela estava imbuída de algum espírito, que não fosse o de Mamom, a cada 2 falas, em 3, Lula fazia questão de usar o nome de Deus. Não que Lula seja ateu, nunca o foi, e eu considere inclusive, pelos relatos de quem é próximo ao presidente, que sua devoção é honesta, mas a questão é bem outra.

Com a luta política reduzida a uma corrida eleitoral a cada 2 anos, o taticismo virou estratégia. Luta pelo curral eleitoral neopentecostal com a fábula encantadora dos “evangélicos progressistas” virou “estratégia”, e ninguém quer colocar o guizo no gato errado, nesta noite em que todos os gatos são pardos. Uma mistura atávica de orientalismo de quinta, de crendices esotéricas e de confusão entre respeito à diversidade e deserção na luta pelo Estado laico virou a estratégia de falta de estratégia da esquerda.

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Citei Lula sem o culpar pelo fato, na verdade, ele apenas navega por este mar conturbado criado pela redução da política a um espetáculo eleitoral, do qual toda a esquerda participa. Não propomos e não defendemos ideologicamente absolutamente nada. Apenas tentamos convencer aos eleitores que não somos menos cristãos que nossos adversários ou que não representamos o perigo vermelho, ou que somos mais educados e civilizados que a turba fascista. O combate ideológico atrapalha esta empreitada e sumiu de nosso horizonte.

Taticismo não é estratégia. Eleição não é uma disputa ideológica ou horizonte de mudança eleitoral. Longe de mim migrar para o incrível mundo de Bob do PSTU, que desconsidera a importância das eleições, e acha que qualquer briga no bar do Totonho é prenúncio de revolução, mas sim, temos que falar sobre o fato de que a esquerda está doente de institucionalidade.

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Subversiva agora é só a ultradireita. Underground, antissistema é só a ultradireita. E nós ficamos relegados a seres defensores da lei e da ordem, o que limita, inclusive, o nosso discurso. O mais patético é que, até na defesa da lei e da ordem, vamos somente até a página 3, tudo que venha em defesa do Estado laico é esquecido para não assustar os eleitores neopentecostais.

Não fazemos mais o embate ideológico porque confundimos intolerância com leniência. Intolerância é proibir cultos de qualquer espécie – observando que o limite entre culto, falcatrua, exploração e curandeirismo deva existir para colocar pilantras de todos os cultos, que roubem o povo, na cadeia –, leniência é colocar em pé de igualdade evolução e criacionismo e aceitar que religião seja ensinada na sala de aula, com desculpa tosca e mentirosa da diversidade. Tosca e mentirosa porque o Estado não vai ensinar revolução, ou distribuir livros de Nietzsche, Marx ou Hegel em nenhuma igreja de nenhuma espécie.

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Escola é lugar de ciência, há mais templos que escolas no Brasil e não precisamos de nenhuma lição de catequese de nenhum tipo em nenhuma escola, porque os templos de todos os tipos já fazem isto.

Uma esquerda medrosa e recuada não tem coragem de fazer a disputa, apenas se defende da acusação de doutrinação, Doutrinação é o que fazem todas as religiões com todas as crianças. O fato de pararmos de questionar porque crianças não tem direito de esperar para escolher sua devoção quando chegarem à idade adulta e que sejam “educados” (doutrinados) desde que nascem nas religiões dos seus pais, mostra como introjetamos acusações que na verdade não são contra a esquerda. Nenhum esquerdista (a não ser que tenha alguns parafusos a menos) fica falando de Karl Marx para criancinhas de 5 anos de idade, mas achamos, no nosso evangeliquistão, que criancinhas participem de cultos religiosos, mesmo que não tenham idade alguma para se definir por esta ou aquela denominação religiosa ou até preguem e sejam incensados por sua “vocação precoce”.

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A doutrinação anticiência avançou no Brasil ao ponto de uma deputada de ultradireita, Júlia Zanata, ter a coragem de defender que não se vacine mais crianças de menos de 5 anos de idade. Doutriná-las em qualquer igreja ou culto, pode, “é a vontade de Deus” (do deus dos pais daquela criança, o que torna a criança um objeto de pertencimento dos pais), vaciná-la para não morrer de varíola, covid, sarampo, poliomielite, malária, não. Meninas adolescentes são aconselhadas por seus pastores a não se vacinar contra o HPV, porque “a melhor prevenção contra a doença é a castidade”, o resultado é que estas meninas vão transar, como todas as outras, e vão contrair uma doença facilmente evitável, por conta do fundamentalismo religiosos dos pais.

Como nossa estratégia eleitoral é apenas taticismo eleitoral de disputar a máquina, não temos projeto, não temos proposta de longo prazo, não temos projeto de mudança estrutural. E não temos programas e propostas políticas para o embate na sociedade. Contra a “Escola sem partido” não criamos nenhuma “escola da diversidade”, ficamos apenas na defensiva tentando mostrar que professores não são tão vermelhos assim e nem são doutrinadores. Não que os professores o sejam, mas o fato é que não fizemos nenhum embate, para dizer que a escola é o espaço da diversidade no qual, tal qual a diversidade dos pares sexuais faz bem a evolução de todas as espécies, inclusive a humana, evitando as deformidades com a diversidade no DNA, também as opiniões contraditórias de uma escola que separa (sim, o verbo é separar) a criança de sua família pode combater a idiotia endêmica quando comunidades que já não tem mais qualquer ligação a uma tradição de cultura oral rica, transformam em “cultura” apenas preconceitos estereotipados. Sim, uma escola da diversidade serve para que as crianças possam se emancipar de opiniões preconceituosas, atrasados, de crendices, de superstições, do machismo, misoginia, do racismo.

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Porque temos medo de falar isto? Porque a esquerda hoje faz um discurso tolo e medroso de “defesa da família” como se esta realmente fosse uma entidade sacrossanta e não um núcleo financeiro e de sustento, mas que não está acima do bem e do mal na manutenção dos seus preconceitos e perversidades. A esquerda, doente de eleição, tem medo de denunciar o conservadorismo das práticas da família pequeno-burguesa. Não, a família não é uma entidade sacrossanta intocável, mas não podemos falar mais nisto, senão perderemos votos!

Porque pensamos apenas a eleição perdemos também a dimensão territorial. As igrejas estão no território, em cada esquina, nós não. No máximo, com algum centro de “serviço social” de algum parlamentar nosso, mas não mais pensamos em espaços de pertencimento e de política como existiram na esquerda durante o século XX. Tanto o KPD quando o SPD tinham florescentes centros culturais antes de serem destruídos pelo nazismo e o PCI possuía redes potentes locais nos quais a juventude comunista não só se formava, mas se socializava. Os anarquistas possuíam clubes e tinham até campeonato amador próprio de futebol no Brasil. Ser de esquerda era um processo de socialização. Os partidos que perderam o contato com a disputa ideológica reduziram o processo de pertencimento à esquerda ou ao voto ou à ir à rua lutar, uma vez por mês.

Pessoas são seres simbólicos. O que nos diferencia dos outros seres da natureza é a racionalidade, isto é uma benção e uma maldição. O mundo é sempre uma mediação. Ele existe fora de nós, mas para cada um de nós existe de um jeito. A ultradireita brasileira participa do embate do simbólico efetivamente. Pouco importa se a Israel que eles defendam seja apenas uma fantasia pervertida imaginária, ela existe de verdade na cabeça de milhões dos seguidores da ultradireita. Os seres humanos precisam do pertencimento ideológico para serem seres humanos. A esquerda perdeu a dimensão disto. A esquerda brasileira não oferece nenhum espaço simbólico de projeto a seus militantes, alguns, ativam uma forma reificada de socialismo imaginário e ficaram fossilizados, como numa fotografia, numa estrutura cristalizada da década de 60, e oferecem soluções sempre prontas para desafios novos (ainda que mais progressista, esta forma de encarar a realidade não se diferencia muito das dos mórmons).

A esquerda multiplicou seus números entre o século XIX e o século XX não só por conta da luta material, mas também na luta pelo simbólico. Emancipação de toda humanidade, homem novo, educação dos 5 sentidos, liberação sexual, feminismo. Todas lutas que antes de serem materiais e eleitorais foram lutas simbólicas. Quando ficamos reduzidos ao taticismo eleitoral fiel ao sistema, temos pouco a oferecer para a disputa de corações e mentes no século XXI e sequer temos coragem de defender coisas que defenderíamos no século XIX, como, a de que o Estado laico (e Estado laico, senhores, com todas as letras é Estado ateu, pode não ser ateizante1, mas é ateu) é herança da Revolução Francesa de 1789 e não da Revolução Russa de 1917, mesmo que está também o tenha defendido. É uma propositura liberal burguesa, e nem esta mais conseguimos colocar entre nossas bandeiras!

Atos ecumênicos não são atos laicos, ficar justificando nossos atos em nome de Deus nos iguala à ultradireita, e o Brasil vai virando uma distopia assustadora, em que regredimos a um estágio quase feudal, pré-iluminista, em que alguém que diga o óbvio passa por intolerante justamente por defender a tolerância.

Só o Estado laico é capaz de defender a liberdade de todas as religiões, porque, felizmente, não tem rabo preso com nenhuma!

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