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Paulino Cardoso

Historiador, analista geopolítico e Editor do Mundo Multipolar

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O império contra-ataca: o significado da visita do presidente do Quênia a Washington

Ao que tudo indica, com um certo atraso, os Estados Unidos acordaram para a importância estratégica da África

Biden recebe William Ruto, presidente do Quênia, na Casa Branca (Foto: Leah Mill/Reuters )

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Por Paulino Cardoso - Entre os dias 21 e 23 de maio, o presidente do Quênia William Ruto, realizou uma visita de Estado aos Estados Unidos, onde foi recebido com toda pompa e circunstância pelo presidente Joe Biden no último dia 23.

O dignitário do Quênia foi o primeiro representante político africano a pisar na Casa Branca desde 2008. Na pauta, investimentos e parcerias sem precedentes na áreas  da saúde, educação e em troca, além de se constituir em uma plataforma de penetração no continente, o país colabora com os desejos estadunidenses no Haiti com o envio, em breve, de até mil policiais para ajudar o país caribenho e que pode render 300 milhões dólares aos cofres quenianos.

Ao que tudo indica, com um certo atraso, os Estados Unidos acordaram para a importância estratégica da África, em especial, quando assistiu reduzir sua importância no Sahel, principalmente no Níger onde estava instalada sua importante base de drones. Como sabemos, por meio dos BRICS, países como África do Sul, Argélia, Etiópia, Egito, não só percebem possibilidades de investimentos, liberam-se da supremacia do dólar no comércio internacional, e, ensaiam uma independência no plano geopolítico. Vide a brilhante atuação da África do Sul na defesa da causa palestina nas cortes internacionais.

Como sempre Washington acena con o apoio no combate ao terrorismo. Segundo Voa (Vóz da América em Português), o apoio no setor de segurança “incluem oportunidades de formação e exercícios militares, assistência na gestão de refugiados, investimentos dos EUA no sector da segurança do Quénia, esforços de combate ao terrorismo, incluindo uma maior partilha de informações e, para além de tudo isto, 16 helicópteros e 150 veículos blindados.”

De acordo com o periódico,  os Estados Unidos  anunciaram US$250 milhões em novos investimentos no Quênia através da U.S. International Development Finance Corp, incluindo US$180 milhões para um grande projeto habitacional acessível, disse uma autoridade do governo dos EUA em comunicado. Isso levará o portfólio da instituição de financiamento dos EUA no Quênia para quase US $1,1 bilhão. A corporação também abrirá um escritório no Quênia. Como medida de comparação, a China alocou cerca de 7 bilhões de dólares em ferrovias no país, desde 2013.

Para o presidente Joe Biden:

“Podemos estar divididos pela distância, mas estamos unidos pelos mesmos valores democráticos”, disse Biden, observando que os dois países estão comemorando 60 anos de parceria”. “Hoje, quando começamos a próxima década de nossa parceria, lançamos uma nova iniciativa para aproximar as empresas e comunidades do nosso país”, disse ele.

E Ruto respondeu: “Hoje, enquanto celebramos nosso passado, estamos otimistas sobre nosso futuro. Ao realizar esta visita de Estado, teremos a oportunidade de discutir e conversar sobre a construção de parcerias e liderança globais.”

O beijo da morte?

A Sputnik Internacional, no seu canal no Telegram , publicou entrevistas com intelectuais africanos, para ajudar a desvendar esse caso de amor repentino de Washington e Nairobi. O Quênia é uma porta de entrada para a África – como tal, qualquer país que deseje se infiltrar no continente acharia benéfico cortejar Nairóbi”, disse à Sputnik o Dr. Michael Ndonye, ​​comentarista político e professor sênior da Universidade Kabarak, no Quênia.

E quanto ao estatuto de grande aliado não- OTAN? Para o professor Alexis Habiyaremye, analista político, investigador sénior da Escola de Economia da Universidade de Joanesburgo,isso é algo com que Nairobi deveria estar preocupada, diz  comparando o pacto ao “estatuto de vassalagem” ao estilo do Império Romano.

“Tal estatuto de vassalo implica que o Quénia terá de agora em diante de considerar como seus inimigos quem quer que os americanos designam como seus inimigos, e como amigos quem quer que os EUA vejam como seus amigos… A medida destina-se, portanto, a trazer o Quénia para o clube dos países. que apoia incondicionalmente as guerras dos EUA e se curva aos seus aliados mais próximos (os Cinco Olhos). Esta é uma aliança da qual o Quénia, como vassalo, tem pouco ou nada a ganhar, para além dos gestos honoríficos simbólicos lançados aos líderes de tais países”, alertou Habiyaremye.

Por que o Quênia é estratégico? Isto diz respeito “tanto à sua posição na região dos Grandes Lagos, mas sobretudo à sua proximidade com o Corno de África. Ser capaz de controlar o Corno de África e, por extensão, o Golfo de Aden é obviamente de importância capital para os EUA”, disse Habiyaremye.

Já Nicodemus Minde, professor adjunto de relações internacionais na Universidade Internacional dos EUA – África em Nairobi, concorda, dizendo à Sputnik que o estatuto de grande aliado não-OTAN não é apenas “perigoso” para o Quénia, uma vez que força Nairobi a curvar-se às exigências dos EUA. , mas rouba à nação africana o tão necessário poder de negociação diplomática.

A jornalista queniana Joyce Chimbi, escrevendo para o chinês Global Times, aborda o problema de uma perspectiva diferente, articulando as ações dos EUA na Palestina ocupada. Para ela, na medida em que os EUA continuam a tomar uma posição forte de apoio a Israel, a China tem mantido uma abordagem mais reconciliatória, apelando a um cessar-fogo imediato, ao fim dos combates e a que os corredores humanitários permaneçam abertos, utilizáveis ​​e seguros.

Ou seja, a interferência arbitrária em assuntos externos por parte dos EUA apenas alargou as fissuras nos seus laços com os países africanos. Os EUA enfrentam agora um dilema sem precedentes relativamente à sua posição em África, uma vez que um número crescente de nações do continente afirma que já não é possível manter os negócios como sempre, escreve a jornalista..

Não por acaso, os países africanos estão a resistir progressivamente à estratégia de longa data de ganhar-perder do Ocidente, com a balança sempre equilibrada a favor dos EUA. Os EUA impõem as suas políticas com total desrespeito pela soberania de outras nações, pela paz, pela estabilidade, pelo crescimento económico e pelo desenvolvimento.

Chimbi conclui,  à medida que os EUA continuam a gerir mal questões importantes para a comunidade global, há uma mudança de perspectivas e uma disponibilidade para os países africanos reavaliarem os seus laços bilaterais e multilaterais.

De fato, o Ocidente centra sua ação em uma estratégia de perpetuação do domínio global, originário da expansão marítima a 500 anos atrás. Pouco se importam com a paz, meio ambiente , ou qualquer coisa que os desvie do eterno almoço grátis às custas dos povos do Sul Global.

Como  disse o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, ser inimigo dos EUA é muito perigoso, mas ser aliado é fatal.O Quênia terá liberdade para comprar armas, mas poucos recursos em investimentos em estruturas críticas como portos, aeroportos, estradas e ferrovias, nada que permita um projeto autônomo de desenvolvimento. Não por acaso e Departamento de Estado anunciou a concessão de mais três milhões  de dólares em bolsas estudos, como no Brasil, isso implicará na consolidação de uma inteligência colonizada que, tornada liderança, acorrentará por décadas o destino do Quênia aos desvarios imperialistas dos EUA. citando Kissinger, os Estados Unidos não tem amigos, apenas interesses. 

Fontes: 

VOA - Português. EUA e Quénia juntos contra a influência da China e Rússia em África. https://www.voaportugues.com/a/eua-querem-qu%C3%A9nia-como-aliado-contra-china-e-r%C3%BAssia/7624175.html

Sputnik Internacional. Pacto de segurança 'Beijo da Morte' ameaça transformar o Quénia em vassalo dos EUA. @SputinikInt no Telegram

CNN Brasil.

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/biden-recebe-presidente-do-quenia-na-casa-branca-com-foco-em-investimentos

Joyce Chimbi. A interferência arbitrária dos EUA apenas aumentou as fissuras com os países africanos. https://www.globaltimes.cn/page/202405/1312960.shtml

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