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Paulo Silveira

Sócio fundador do Observatório das Adições Bruce K Alexander (www.observatoriodasadcoes.com.br). Membro fundador do movimento "respeito é BOM e eu gosto!" (www.reBOMeg.com.br)

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Observatório das Adicções Bruce K. Alexander

Uma solução para evitar a sobrecarga de serviços públicos de um determinado país foi a criação do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência

Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (Foto: Reprodução (Youtube))
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Conheci Bruce casualmente na Faculdade de Direito da UFRJ, quando ele fazia uma palestra virtualmente. Depois dessa palestra ficamos muito amigos e a vida seguiu diferente, pois passamos a desenvolver uma série de atividades em conjunto.

Para quem não o conhece, Bruce é um homem extremamente simples, afetuoso, tem 83 anos, mora no Canadá, muito ativo e que dedicou sua vida a cuidar dos mais vulneráveis. Uma pessoa de bem com a vida.

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No início da década de 1970, Bruce idealizou e realizou a experiência que ficaria mundialmente conhecida como o “Parque dos Ratos“. Essa experiência transformou-se em um marco para todos aqueles que atuam (no sentido mais amplo que essa palavra possa ter) com o tema “uso abusivo de drogas ilegais ou legais.“

Pouco tempo depois, ainda na década de 1970, terminaria a guerra do Vietnã e, consequentemente, os combatentes das forças armadas norte-americanas voltariam para casa. As próprias forças armadas norte-americanas estimavam que cerca de 300.000 (trezentos mil) de seus combatentes eram usuários regulares de heroína, o que acreditava-se ser uma droga viciante a partir da primeira vez que fosse usada.

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O que fazer? Era essa a pergunta que circulava entre o alto escalão do governo norte-americano sem que se encontrassem respostas adequadas. O pânico no governo norte-americano era geral, não se sabia o que fazer, pois o sistema de saúde norte-americano não teria como oferecer tratamento para toda essa população simultaneamente, além de gerar um aumento abrupto da demanda por heroína, alimentando a criminalidade, etc.

Acontece que, para espanto geral, os combatentes usuários regulares de heroína (300 mil, só para lembrar) retornaram para casa e o caos previsto não aconteceu. Para entender o que estava ocorrendo, o governo norte americano decidiu fazer uma pesquisa com 100.000 combatentes usuários regulares de heroína, entrando em contato com cada um eles.

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O resultado foi surpreendente! Dos 100.000 contactados, 87,3% deles haviam deixado de usar heroína espontaneamente. Dos 12,7% restantes, 8,7% haviam solicitado suporte profissional para deixar de usar heroína sistematicamente e somente 4% não haviam deixado de usar heroína regularmente, seja como entretenimento ou por se sentirem incapazes.

A partir das informações colhidas nesses dois eventos (o “Parque dos Ratos” e a pesquisa com os ex-combatentes na guerra do Vietnã), não se teria mais como negar que as drogas não são viciantes, mas que o convívio social, a sensação de pertencimento, de ser acolhido e respeitado é fundamental para a saúde do ser humano em todos os aspectos, deixando evidente que esses são os alicerces para a construção de uma vida saudável, produtiva, realizada, feliz.

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Infelizmente, na mesma ocasião, Richard Nixon lança a “guerra às drogas” e boicota, de todas as formas possíveis, a divulgação de informações que pudessem contrariar os elementos fundantes dessa trágica estratégia,sendo o principal deles “que as substâncias viciam independentemente da vontade do usuário”.

Mas Bruce não desiste e passa a se dedicar ao estudo, pesquisa e militância de programas de inclusão social de populações excluídas socialmente, como, por exemplo, nativos, imigrantes (principalmente os chineses), população vivente nas ruas e egressos do sistema penal (nessa época, existia um presídio no centro de Vancouver), etc.

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Dentre os muitos que se uniram a Bruce ao longo desses 50 anos de trabalho, Dan Small destaca-se naturalmente, uma vez que vai se dedicar a implantar ações efetivas que promovam a inclusão social, dando sentido a tudo o que é pensado, estudado e pesquisado pelo restante da equipe.

Inicia-se em Vancouver a implantação de ações que têm por objetivo promover a inclusão social. O sucesso dessas ações foi tanto forçou o Governo Canadense a adotálas como políticas públicas, a ponto, de algumas delas, terem se multiplicado pelo mundo, como o “House First”, as salas de uso de drogas injetadas assistidas por profissionais de saúde etc.

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Todo o trabalho desenvolvido ao longo desses 50 anos pode ser resumido em uma única frase, cunhada por Dan Small: “é preciso criar sistemas que se adaptem as pessoas e não pessoas que se adaptem ao sistema.” As transformações ocorridas na cidade de Vancouver ao longo dessas últimas décadas, principalmente no bairro de West Side, foram de tal ordem que, atualmente, atraem turistas de todo o mundo dispostos a conhecer de que forma políticas públicas dedicadas ao bem-estar social podem transformar a vida de cidadãos, comunidades, cidades, países.

Mas esse trabalho em Vancouver trouxe também lições difíceis e dolorosas de serem aprendidas, dentre elas a de que “o poder público não pode tentar resolver questões sociais estruturais com ações locais” , sob o risco enorme de agravar a situação, ao invés de contribuir para sua solução.

No Brasil tivemos o exemplo do “Programa de Braços Abertos (2)“, da Prefeitura da Cidade de São Paulo. Se observarmos esse programa apenas pelo aspecto teórico conceitual, ele é quase perfeito.

Acontece que, dentre muitas outras questões, esse programa foi organizado para receber 300 usuários em um universo inicial de aproximadamente 3.000 demandantes diretos, além dos indiretos, como familiares, usuários não declarados, etc.

Para agravar ainda mais a situação, o programa “de Braços Abertos” foi intensamente divulgado na ocasião, provocando uma enorme imigração para a cidade de São Paulo de usuários que desejavam ser acolhidos, contribuindo para a criação da maior cracolândia do mundo. Segundo pesquisa da FIOCRUZ, 72% dos adictos brasileiros em crack queriam se tratar e mas não tinham onde!

Somente para situar os mais desavisados, a questão do acolhimento dos adictos é tão complexa que o famoso personagem “Carioca” ou “Sarda”, encontrado na cracolândia da cidade de São Paulo, morreu ao ser internado em uma clínica privada especializada em tratamento de “dependentes químicos” e frequentada por nossa elite

Com a criação do Mercado Comum Europeu e a possibilidade dos cidadãos migrarem livremente entre os países que a compõem em busca de serviços que atendam às suas demandas, a solução encontrada por seus mentores para evitar a sobrecarga dos serviços públicos de um determinado país foi a criação do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), vinculada administrativamente ao presidente da União Europeia, cuja finalidade é estimular a implantação de políticas públicas que atendam às demandas dos adictos, familiares e afins respeitando a cultura e os recursos de cada lugar

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