Os EUA dão o pontapé inicial nos loucos anos 20 declarando guerra ao Irã

Jornalista Pepe Escobar afirma que "não importa de onde veio o sinal verde" para o ataque que partiu dos EUA e assassinou dois líderes do Irã e do Iraque. "Trata-se de um ato de guerra. Unilateral, não-provocado e ilegal" e que a resposta do Irã "será uma retaliação de milhares de pequenos talhos"

(Foto: Reuters)
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Por Pepe Escobar, em Palermo, Sicília - Especial para o Consortium News  

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Não importa de onde veio o sinal verde para o assassinato que teve como alvo o comandante da Força Quds, o Major- General Qassem Soleimani, e o segundo no comando do Hashd al-Shaabi, Abu Madhi al-Muhandis, em Bagdá.

Trata-se de um ato de guerra. Unilateral, não-provocado e ilegal. 

O presidente Donald Trump talvez tenha dado a ordem. O Deep State dos EUA pode ter ordenado que ele desse a ordem. Ou os suspeitos de sempre podem ter dado a ordem a todos eles. 

Segundo minhas melhores fontes de informação no Sudoeste Asiático, "Israel deu aos Estados Unidos as coordenadas para o assassinato de Qassem Soleimani, já que eles queriam evitar as repercussões de assumirem eles mesmos o assassinato".

Não importa que Trump e o Deep State estejam em guerra entre si.

Uma das poucas obsessões geopolíticas que os une é o confronto ininterrupto com o Irã – qualificado pelo Pentágono como uma das cinco maiores ameaças aos EUA, quase que no mesmo nível que a Rússia e a China. 

E não pode haver uma provocação mais estarrecedora contra o Irã - em uma longa lista de sanções e provocações - do que isso que acaba de acontecer em Bagdá. O Iraque é agora o campo de batalha escolhido para uma guerra por procuração contra o Irã, que agora pode se metastizar em guerra quente, com consequências devastadoras.  

Nós sabíamos que  isso estava por vir. Havia rumores suficientes na mídia israelense partindo de ex-militares ou de agentes da Mossad. Houve ameaças explícitas do Pentágono. Discuti esse assunto em grande detalhe na semana passada  na Úmbria com o excepcional analista Alastair Crooke – que se mostrou extremamente preocupado. Recebi também mensagens preocupadas do Irã. 

A inevitável escalada por parte de Washington estava sendo discutida tarde da noite, na quinta-feira, aqui em Palermo, por sinal poucas horas antes do ataque. (A Sicília, aliás, na terminologia dos generais estadunidenses é AMGOT: American Government Occupied Territory - Território Ocupado pelo Governo dos Estados Unidos).

Mais uma vez, as mãos excepcionalistas mostram o quanto são previsíveis. Trump está encurralado por um impeachment. O Primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu foi indiciado. Nada como uma "ameaça" externa para reagrupar as tropas internas. 

O Líder Supremo Ayatollah Khamenei conhece essas variáveis complexas tão bem quanto conhece sua responsabilidade como o poder que definiu as linhas vermelhas do próprio Irã.  Não é de surpreender que ele já tenha anunciado oficialmente que haverá retaliação: "uma vingança enérgica espera pelos criminosos que têm nas mãos o sangue dele e o sangue dos outros mártires que pereceram ontem à noite". Esperem que seja muito doloroso.  

Qasem Soleimani (esquerda) com Abu Mahdi al-Muhandis (direita) em uma cerimônia de 2017 em homenagem ao pai de Soleimani, em Mossala, Teerã. (Fars News Agency, CC BY 4.0, Wikimedia Commons)

Retaliação por Mil Talhos 

Encontrei-me com al-Muhandis em Bagdá há dois anos e também com muitos membros do Hashd al-Shaabi. Aqui segue a  matéria completa. O Deep State tem verdadeiro pavor de que o Hashd al-Shaabi (Forças Populares de Mobilização), uma organização de base, esteja a caminho de se transformar em um novo Hezbollah, e tão poderoso quanto o Hezbollah. O Grande Ayatollah Sistani, a autoridade religiosa suprema do Iraque, e universalmente respeitado, dá pleno apoio a eles.

De modo que o ataque norte-americano também atinge Sistani — para não mencionar o fato de que o Hash al-Shaabi opera segundo as diretrizes traçadas pelo primeiro-ministro iraquiano Abdel Mahdi. Esse é um erro estratégico colossal, que só poderia ser obra de amadores. 

O major-general Soleimani, é claro, humilhou repetidamente a totalidade do Deep State - e, como estrategista militar, poderia comê-los todos no café da manhã, no almoço e no jantar. Foi Soleimani quem derrotou o ISIS/Daesh no Iraque - e não os Estados Unidos bombardeando Raqqa até reduzi-la a pó. Soleimani é um super-herói de estatura quase mítica para legiões de jovens apoiadores do Hezbollah, para os Houthis do Yêmen, para todas as cepas de combatentes de resistência tanto no Iraque quanto na Síria e os do Jihad Islâmico da Palestina, e por todas as latitudes do Sul Global, da África, da Ásia e da América Latina. 

Não há a menor possibilidade de os Estados Unidos virem a manter tropas do Iraque, a não ser que o país seja reocupado em massa com um banho de sangue. E esqueçam-se da "segurança": nenhuma autoridade do império nem força militar imperial estão agora seguros, seja onde for, do Levante à Mesopotâmia e ao Golfo Pérsico.  

A única  qualidade redentora dessa mistura de colossal erro estratégico e declaração de guerra talvez seja que ela represente o prego final no caixão do capítulo das bases do Império Norte-Americano no Sudoeste Asiático. O primeiro-ministro iraniano Javad Zarif veio com uma metáfora apropriada: a "árvore da resistência" continuará a crescer. É bem possível que o Império tenha que dar adeus ao Sudoeste Asiático.  

No curto prazo, Teerã será extremamente cuidadosa em suas reações. Uma pista das coisas - excruciantes - que estão por vir: será uma retaliação de milhares de pequenos talhos. Como atingir a estrutura - e a mentalidade - excepcionalista onde realmente dói. É assim que os Loucos e Crepitantes Anos 20 começam: não com um estrondo, mas com a soltura dos lamurientos cães de guerra. 

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