Os números do perigo

"A soma das forças formais de segurança pública e das forças armadas não alcança a de vigilantes de empresas particulares", aponta o jornalista Eric Nepomuceno ao falar sobre o armamentismo desenfreado no Brasil

(Foto: Alan Santos/PR | Reuters)


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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

A verdade é que eu tinha visto, aqui e ali, dados sobre o número exorbitante de vigilantes que trabalham para empresas privadas de segurança. Mas o que o jornal Folha de S. Paulo trouxe em sua edição de domingo, 6 de dezembro, em texto assinado por Thaiza Pauluze é, em primeiro lugar e acima de tudo, aterrador. Mostra a que ponto o armamentismo desenfreado se espalhou país afora.

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O Brasil tem hoje mais de um milhão de vigilantes. O total de integrantes das três polícias – a Militar, a Civil e a Federal – é de 531 mil. Os do Exército, Marinha e Aeronáutica em regime ativo é ainda menor: 380 mil. A soma das forças formais de segurança pública e das forças armadas não alcança a de vigilantes de empresas particulares.  

A metade desses funcionários não conta com registro de trabalho, e escapam das regras e normas estabelecidas para o setor. Teoricamente deveriam ser obrigados a cursos de preparação e atualização periódica. Alguém controla essa exigência tão óbvia como inexistente?

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Mais números preocupantes: no começo de 2019, quando Jair Messias chegou à presidência, havia pouco menos de 200 mil armas de fogo devidamente registradas no país. No fim de ano, foram contabilizados novos 8.850 registros. E entre janeiro e junho deste malfadado 2020, mais 8.844. Em um ano e meio, um aumento de quase 10%.  

E, atenção: esses números se referem apenas às armas que estão em mãos de vigilantes e empresas de escolta.   

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O quadro não é propriamente novo, a não ser por um detalhe grave: se desde décadas existem empresas irregulares prestando serviços de segurança particular, quase todas controladas diretamente por militares ou policiais, agora se constata que o volume de armas em mãos despreparadas cresceu assustadoramente. Essa falta de preparo e de controle é ingrediente fundamental para o tremendo aumento de casos de violência, como o que terminou com o assassinato, em Porto Alegre, do soldador João Alberto Silveira Freitas.  

Um de seus assassinos, aliás, foi um policial militar que não poderia estar cumprindo a função que cumpria, e mais: numa empresa controlada de maneira ilegal por policiais.  

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Essa máquina geradora de renda surgiu nos tempos da ditadura, quando os bancos passaram a contratar serviços de vigilância. Teoricamente, tais empresas deveriam ser submetidas ao controle da Polícia Federal.

Ora, esse controle não existe. E, se existe, é totalmente falho. Vale repetir: se as empresas contam com o dobro de efetivos das forças de segurança pública, não tem como serem controladas. Simples assim.  

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Voltando ao caso do assassinato de um trabalhador negro num supermercado da cadeia global Carrefour em Porto Alegre: os dois assassinos foram presos. Mas nem o contratante – o Carrefour, que tem vários antecedentes de violência registrados em suas instalações Brasil afora – nem a empresa contratada sofreram qualquer tipo de punição.  

Não há, no horizonte, nenhuma perspectiva de mudança nesse quadro, a não ser para pior. A liberdade que as empresas contam para contratar, se armar e atuar em tempos de um regime que espalha militares pelos quatro cantos do governo, enquanto incentiva a compra desenfreada de armas, irá prevalecer. Da mesma forma que continuará em plena ação o trânsito de policiais civis e militares entre as forças públicas de segurança e as forças absurdamente armadas de segurança privada.

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Aqui está, pois, outro ponto do nosso dia a dia que exige atenção e deve ser denunciado.  

Aqui está, pois, outro ponto do desmantelamento cotidiano deste país despedaçado: há mais armas em mãos repressoras que atuam sem controle e sem critério que nas mãos das forças públicas de segurança.

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Que, aliás, também atuam sem controle e sem critério.

Qual a saída, além do aeroporto internacional?

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