Quando a manchete esconde a notícia

Datafolha apurou que a maioria dos brasileiros criticam Bolsonaro pela atuação na covid-19, opinião partilhada até por 35% dos eleitores bolsonaristas, mas a Folha deixou essas informações em segundo plano, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

(Rio de Janeiro - RJ, 14/08/2020) Palavras do Presidente da República Jair Bolsonaro.
(Rio de Janeiro - RJ, 14/08/2020) Palavras do Presidente da República Jair Bolsonaro. (Foto: Marcos Corrêa/PR)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Um dos ensinamentos básicos da comunicação é simples: a manchete vale mais que o título, o título vale mais do que o texto e às vezes a foto vale mais do tudo.

Estamos falando de comunicação, é bom esclarecer. Jornalismo é outra atividade.

Muitas vezes, por incompetência ou alguma motivação obscura, a notícia -- a informação mais importante -- está na última linha do texto. Pode parar na nota de rodapé. Ou mesmo desaparecer.

Num momento dramático da vida do país, a manchete de hoje Folha de S. Paulo é uma demonstração definitiva de uma inversão dessas noções elementares do jornalismo -- atividade cuja legitimidade reside na capacidade de oferecer informações fidedignas para orientar leitores e, através deles, a população de um país.

Como não era difícil imaginar, a pesquisa mais recente do Datafolha apurou que 52% dos brasileiros consideram que Bolsonaro teve um papel negativo no combate à pandemia.

Alguns acreditam que ele é totalmente responsável. Outros, que é parcialmente responsável.

Em qualquer caso, 52% da população não tem receio receio de afirmar que Bolsonaro tem responsabilidades numa tragédia destinada a permanecer para sempre na memória do país.

A Folha também apurou que, para 47% dos entrevistados, Bolsonaro "não tem culpa nenhuma". Um número respeitável, sem dúvida.

A notícia, no entanto, é que 52% apontam a responsabilidade de Bolsonaro no episódio, com ênfase maior ou menor. Estamos falando da opinião da maioria de brasileiros e brasileiras, um dado essencial para o país debater a pandemia, as responsabilidades e as providências que devem ser tomadas no próximo periodo.  

O destaque a esse número permite valorizar a necessidade de correção de rumo e definir responsabilidades. Sob governos democráticos, as pesquisas de opinião podem funcionar como filtros que auxiliam na tomada de decisões com apoio da maioria.

A longo prazo, é óbvio que essa avaliação --  e a forma pela qual foi retratada -- terá um efeito político óbvio sobre a conjuntura política, inclusive na campanha presidencial de 2022

Não cabe, aqui, questionar a qualidade técnica do levantamento do Datafolha. O instituto tem reputação comprovada pelo trabalho técnico.

A questão é outra. Ao colocar a opinião minoritária na manchete, repetindo o destaque nas páginas internas, os editores do jornal fizeram uma opção questionável, quando se recorda que vivemos numa sociedade dividida, com maiorias difíceis.

Também deram pouco destaque a um dado importante que o próprio Datafolha apurou:  a crítica a atuação do presidente atinge uma dimensão tamanha que já envolve uma parte significativa do eleitorado que lhe deu o voto em 2018.

Perdido na página B1, um gráfico mostra que 30% dos eleitores de Bozolonaro no segundo turno de 2018 apontam o presidente como "um dos culpados" pela pandemia. No mesmo gráfico, descobre-se que 5% cravam na opção "principal culpado". Conclusão: 35% dos brasileiros e brasileiras que voltaram em Bolsonaro têm uma visãoa negativa de seu papel na luta contra a covid-19.

Isso explica porque 52% tem uma visão negativa do papel de Bolsonaro.

É fácil saber onde estava a notícia.

Alguma dúvida?

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247