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Camilo Irineu Quartarollo

Autor de nove livros, químico, professor de química, com formação parcial em teologia e filosofia.

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Quem morreu

Se alguém ressuscitasse não voltaria para a antiga artrose ou enfermidades, é preciso sepultar o corpo inerte e celebrar a vida. Afinal, quem morreu?

Peça de teatro "Quem Morreu" (Foto: Divulgação)
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Um velório com três artistas de circo e um morto. Quem morreu é uma peça do grupo Andaime, e será apresentada no Sesc de Piracicaba-SP, no dia 03 deste mês, sexta-feira. A peça surgiu na pandemia, na versão digital, entretanto, a proposta é teatral, de palco, de picadeiro, de praças ou de rua, onde se pode rir, chorar e ver a vida no momento em que a Cultura reacende em seus espaços, e não está morta. Vamos ver!

Por certo o último desejo de um morto é da morte se livrar e, se possível, vivo. Apesar do dizer no frontão do Cemitério da Saudade de Piracicaba, de que lá somos todos iguais, os túmulos monumentais e famosos mostram as posições sociais e econômicas diversas. Ainda que vejamos a arte funerária de fora, dentro seremos mesmo iguais e irreconhecíveis.

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Quem são os mortos? Neste Finados pelo mundo, anoto, já não bastassem as mortes naturais, os senhores da guerra se põem a matar criancinhas em Gaza como um meio de eliminar etnias. Enquanto se finge discutir, o apito aos cachorros é avançar com a carnificina. Bem provável que se condenem os que fazem o serviço sujo e mandem ajuda “humanitária” a moribundos, mas o território já está ocupado.

Nos velórios dos nossos parentes idos, mesmo que por doença ou idade, os olhamos dentro do caixão se vão nos dar alguma piscadela, algum sinal de vida e até chegamos a pensar se sentem alguma dor. Depois da última despedida ainda é difícil sepultá-los de vez, temos alguns lampejos de memória, sensações de suas presenças, do tom de suas vozes, de seus olhares que não mais existem. Com o caixão dentro do túmulo, um vácuo do ruído da colher de pedreiro raspando nos tijolos, fechando-os no escuro eterno. Em volta o vazio, um vento do nada, parece que nem pássaros se ouvem, num silêncio da inexistência onde surgem alguns ombros compassivos.

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Do cemitério o retorno solitário para casa, os passos são contados de porquês irrespondíveis e noites vazias nas quais o mesmo ruído do cinzel não nos sai da mente.

Voltei ao Cemitério da Saudade nos dias seguintes ao passamento da minha mãe para tomar as providências pendentes, como a de pôr uma foto na lápide daquela que me julgava alguma coisa, seu filho. Ali vi alguns gatos pingados e um sol quente de fritar janeiros. Para os gatos há até uma associação de cuidados a eles, mas os túmulos trincados... Ali mesmo na rua sete, de túmulos simples da vizinhança, há um jazigo com grande trinca devido à raiz protuberante de uma árvore. De tão velho o túmulo e a árvore nem sei se há descendentes do morto. O coveiro que me acompanhava olhou e disse “ é de família pobre”. Na loja de lápides notei muitas fotos esquecidas, ou deixadas por famílias sem condições de pagar e pegar o retrato do jazigo.

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Se alguém ressuscitasse não voltaria para a antiga artrose ou enfermidades, é preciso sepultar o corpo inerte e celebrar a vida. Afinal, quem morreu?

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