Rodando pela Rodovia Pamir, o coração agreste da Ásia Central

Um microcosmos privilegiado do que vem surgindo como a intersecção das Novas Rotas da Seda e da Grande Eurásia

(Foto: Pepe Escobar / Asia Times)

Por Pepe Escobar, na Rodovia Pamir, Tajiquistão, via Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres - Parte 2 de uma série de 2 partes (leia a parte 1 aqui)

Ao viajar pela Rodovia Pamir, nos deparamos não apenas com uma maravilha geológica e com a mágica da história e dos costumes da Antiguidade, mas também com uma janela privilegiada para uma renascença comercial que estará no coração da expansão das Novas Rotas da Seda. 

Khorog é a única cidade dos Pamires - seu centro cultural, econômico e educacional, a sede dos múltiplos campi da Universidade da Ásia Central, financiada pela fundação Aga Khan. Os ismailis dão uma importância tremenda à educação.  

Badakhshan sempre teve fama mundial por seus lápis-lazuli e seus rubis. A mina de rubis Kuh-i-Lal, ao sul de Khorog, era lendária. Marco Polo escreveu que em "Syghinan" (ele se referia ao distrito histórico de Shughnan) "as pedras são extraídas em nome do rei, e ninguém mais ousa cavar aquela montanha por medo de perder a vida". 

Shughnan adorava o sol, construindo estruturas circulares com  simbolismo solar.  É isso que vemos nas tumbas de Saka, no Pamir Oriental. Ao continuarmos rumo ao leste, a cultura sedentária pamiri, com sua profusão de pomares de damascos, maçãs e amoras, cede lugar à vida semi-nômade dos quirquiz, e as aldeias irrigadas são substituídas por campos de yurts, tendas circulares usadas  sazonalmente (mas não nesta época do ano, devido ao frio intenso). 

Em Langar, a última aldeia do Wakhan, pinturas rupestres mostram cabras da montanha, caravanas, cavaleiros portando bandeiras e o símbolo ismaili da palma da mão com cinco dedos. O arqueólogo A. Zelenski, fascinado, chamou os monumentos históricos do Wakhan  de "a Grande Rota Pamir". Aurel Stein ressaltou que essa era a principal conexão entre a Europa e a Ásia, e portanto entre todo o mundo clássico e o Leste Asiático, tendo a Ásia Central no centro. Estamos no coração da Eurásia. 

Última parada antes de Xinjiang

Se seguirmos o Wakhan até o fim, chegaremos a Tashkurgan, em Xinjiang. A fronteira paquistanesa, próxima à Rodovia Karakoram, situa-se a uma distância de apenas 15 a 65 quilômetros, atravessando o perigoso território afegão. 

É o Passo de Koyzetek, a 4.271 metros de altitude, que por fim leva ao Planalto do Pamir Oriental, que os chineses chamavam de Tsunlin e Ptolomeu, de Iamus, que tem a forma de um gigantesco prato raso, com cordilheiras nas bordas e lagos em grandes altitudes. Marco Polo escreveu: "A terra é chamada de Pamier, e leva doze dias para atravessá-la toda, sem que se encontre nada além de um deserto sem moradas nem nada de verde, de modo que os viajantes são obrigados a levar com eles tudo o que precisam. A região é tão alta e fria que não se vê sequer pássaros voando. E tenho que observar que, por causa desse frio tão intenso, o fogo não queima com tanto brilho nem produz tanto calor como de costume, e nem cozinha de forma tão eficaz". 

Murghab, povoado por quirquizes cujos verões são passados em remotos campos de pastoreio, gira em torno de um mini bazar de contêineres. Se seguirmos o rio Aksu – que antes era visto como a fonte tanto da água quanto do nome de Oxus – chegamos ao ponto mais remoto da Ásia Central: o Shaymak – a apenas 80 quilômetros da tríplice-fronteira do Afeganistão, Paquistão e China.

Os Pequenos Pamires ficam mais ao sul. Como  escrevi no Asia Times em 2001, foi nessa área, repleta de importantes passos da Rota da Seda tanto da China quanto do Paquistão, que Osama bin Laden talvez tenha se escondido antes de se mudar para Tora Bora.

De Murghab, tive que inspecionar o passo de  Kulma (a 4.362 metros de altitude), uma nova fronteira da Nova Rota da Seda. A estrada - construída pela China - é impecável. Passei por caminhoneiros chineses e comerciantes de Kashgar fazendo a travessia dos Pamires em mini-vans de fabricação chinesa a serem vendidas em Dushanbe.

Nos Altos Pamires, encontramos cerca de 800 lagos muito antigos formados por terremotos, atividade tectônica e geleiras. O lago Yashilkul ("Água Azul"), a 3.734 metros de altitude, congelado nesta época do ano, situa-se em um planalto  que era percorrido por caçadores da Idade da Pedra. O arqueólogo tajique V. Ranov encontrou pinturas rupestres de cavalos e carruagens, atributos de Mitra, o deus do sol persa. Do século X ao século III A. C., o planalto era habitado por tribos nômades de sakas de língua persa.

De Shughnan a Ishkoshim, estamos naquilo a que os antigos chamavam de "o país dos sakas". 

As vastas estepes citas que se estendem do Danúbio até a China, eram habitadas por uma numerosa confederação de tribos. Então, nos séculos II e I A.C., as tribos começaram a se deslocar para o leste do estado greco-báctrio. Algumas delas instalaram-se nos Pamires e se tornaram o componente etno-genético da etnia Pamiri. Alex, meu motorista, é um verdadeiro pamiri de Khorog. Ele é também o verdadeiro bamba da Rodovia Pamir, com seu Land Cruiser fodão. ("É uma máquina mortífera/ ela tem tudo", como a imortalizou o Deep Purple). 

O ponto alto dos Pamires Orientais é o espetacular lago de água salgada de Karakul, formado há 10 milhões de anos por um meteoro. À luz do sol, ele é de um azul-turquesa radiante. Nesta época do ano, o que vi foi um azul muito profundo, e não o "Lago Negro" sugerido por seu nome. O Karakul, devido a sua leve salinidade, não estava congelado. Este é o Karakul chong (grande), o irmão mais velho do Karakul kichi (pequeno) situado do outro lado da fronteira, em Xinjiang, que tive o prazer de visitar nas minhas viagens na Rodovia Karakoram. 

Os Altos Pamires ficam bem atrás do Karakul, ocultando a geleira Fedchenko, de 77 quilômetros de extensão. A leste do lago, se você conseguir sobreviver a uma caminhada em condições árticas, fica Xinjiang. O monge peregrino Xuanzang, da alta dinastia Tang, esteve aqui em 642 (ele pensava que o lago era povoado por dragões. Marco Polo esteve aqui em 1274.

Nossa base para explorar o Yashilkul e, em seguida,  o Karakul, foi Bulungkul – que nesta época do ano é uma espécie de estação ártica, com apenas 40 casas servidas por painéis solares no meio do nada, com temperaturas que oscilam em torno de 22º C negativos. É uma vida duríssima. Contaram-me que, no inverno, a temperatura pode cair a -63º C.

Mais adiante na estrada, fiz um desvio a leste para observar o passo de Kulma, a 4.363 metros de altitude, a fronteira oficial entre o Tajiquistão e a China, cujo acesso se faz por - o que mais seria? -  uma estrada de construção chinesa aberta em 2004, seguindo a antiga Rota da Seda.

A fronteira entre o Tajiquistão e o Quirguistão, no passo de Kyzyl-Art lembrava uma cena do Stalker, de Tarkovsky, com a total desolação de estilo soviético, exceto por um táxi lotado de quirguizes a caminho de Khorog. De lá, o trajeto é espetacular até a encruzilhada de Sary Tash e através do estonteante passo Taldyk, a 3.615 metros de altitude, rumo a Osh, o portal para o vale Ferghana.

Em toda essa fascinante jornada pelo coração da Ásia Central, principalmente nos bazares, vemos em detalhes o cruzamento do nomadismo pastoril com a agricultura de irrigação, fertilizada século após século pelo comércio intercultural da Rota da Seda, que envolvia pastores, agricultores, mercadores, todos eles parte do comércio de bens e do abastecimento das caravanas.  

Mergulhamos no turbilhão das riquíssimas influências sociais, religiosas, científicas, estéticas e ideológicas - provenientes principalmente da Pérsia, Índia, China e Irã. A passagem das rotas terrestres ao comércio marítimo, ocorrida no século XVI - que marcou o início do domínio mundial europeu – na verdade jamais suprimiu as rotas tradicionais para a Índia através do Afeganistão, para a China através Xinjiang, e para a Europa através do Irã. O comércio permanece como o principal fator da vida na Ásia Central. 

Hoje, a Rodovia Pamir é um microcosmo privilegiado daquilo que, de forma lenta porém segura, vem evoluindo como a intersecção entre as Novas Rotas da Seda e a Grande Eurásia - com seus principais nós formados pela Rússia, China, Irã, Paquistão e - ao que se espera - a Índia. 

A grande encruzilhada de civilizações, o coração da Ásia Central, voltou a ser, mais uma vez, o coração da história.

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