Sábado à beira mar

No IPTU mais caro do Rio a população, numa democratização que escapa do planejamento, divide a areia, o asfalto, o silêncio e a vista linda com os milionários

(Foto: Miguel Paiva)


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O Rio de Janeiro sempre foi uma cidade que convidou para se viver ao ar livre. Passear na praia para quem vive aqui é quase que natural. Será? Num sábado peguei a bicicleta e lá fui eu, tranquilo e feliz com meu capacete por via das dúvidas. Tudo ia bem até o primeiro buraco na ciclovia. Normal, basta desviar. Se não atropelar o pedestre que vem ao contrário está tudo limpo. A pista é compartilhada dizia o sinal já apagado no chão. Quando você volta pro seu curso a bicicleta elétrica que mais parece uma moto passa por você zunindo a 20 ou mais quilômetros por hora. Na rua elas também circulam, na contramão, avançando sinais.  

Aliás, os sinais não são mais respeitados pelos veículos de 2 rodas. Motos e bicicletas nem se preocupam com a própria integridade quando passam no vermelho. Pode parecer uma atitude suicida, mas a sensação de impunidade virou uma constante e a prepotência de achar que nada vai acontecer acaba atingindo outros quando o inevitável se manifesta. Quase fui atropelado por uma bike de aplicativo quando atravessava o sinal aberto para mim.  

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Na Lagoa Rodrigo de Freitas tudo parece melhor. Asfalto novo ainda sem pintura, mas um mundo de gente. Aquela ciclovia ali no meio de tanta gente significa perigo certo. E tem gente que não diminui a velocidade. Para chegar na praia passo pelo disputado Jardim de Alá que aguarda, pela enésima vez, uma revitalização. Ou da prefeitura ou da iniciativa privada. O lugar é lindo e abandonado.  

Chego finalmente à ciclovia da praia O sol queima, o mar é lindo e o céu azul. Uma leve brisa anuncia que o verão está terminando. Para mim, talvez. O povo frenético continua tirando proveito. Os comerciantes vendendo de tudo, o gelo sendo oferecido aos berros da ciclovia aos barraqueiros da praia, as barracas que falam todas as línguas, as caipirinhas passando na bandeja do improvisado garçom que circula pela areia dentre os banhistas. E não são funcionários dos Beach Clubs (Clubes de Praia, deveria ser) ao longo do calçadão. Esses são caros e elitizados. Pobre não entra. Só vê de fora. A cidade partida continua sua convivência quase pacífica misturando surfistas, turistas, moradores de Ipanema, granfinos dessituados, garotas e garotos espertos e jovens, muito jovens entrando e saindo da praia.  

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Passo pelos bares da orla e desvio da multidão que circula, dos triciclos de entrega e das aulas de axé no largo do Arpoador. Lá, o mar sempre transparente pela proximidade das pedras me traz uma certa nostalgia de quando eu ia à praia ali mesmo no Arpoador. Cheguei até a pegar a praia à noite como boa parte dos cariocas ainda faz. Hoje não sei se seria capaz, pela situação que mudou e pela minha idade que também mudou.  

Olhando com os olhos semi fechados a paisagem é linda. Barcelona também é uma cidade com um turismo desenfreado. Muita gente nas ruas, mas a cidade flui. Aqui flui por inércia. Você não vê quase a presença do Estado ajudando a população e os visitantes. Tirando a polícia que permanece ostensiva assistindo ao Rio passar, o salve-se quem puder é constante. O trânsito só não trava porque há um acordo tácito de locomoção.  

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No IPTU mais caro do Rio a população, numa democratização que escapa do planejamento, divide a areia, o asfalto, o silêncio e a vista linda com os milionários. Uns estão ali na ilusão do isolamento privilegiado. Outros para ganhar a vida. Eu, que só queria passear voltei para o meu bairro cansado depois de uma hora e meia de pedaladas. O Rio continua lindo, mas poderia ser muito mais. Se alguém olhasse por ele e não deixasse ele se virar sozinho.

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