Será Putin um gênio corajoso e Scholz um idiota medroso?

Setores da esquerda brasileira que apoiam Putin de maneira resoluta afirmam que Scholz é incapaz e levou um “ippon” russo na questão energética. Será mesmo?

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Por Mauro Lopes

Depois de mais de um mês de uma guerra que era, nas previsões de russos e russófilos, para ter sido fulminante, a esquerda putinista brasileira tem realçado em sua interpretação a oposição entre duas figuras centrais na cena: Putin, o líder corajoso, audaz, genial, determinado; e Scholz, o chanceler pusilânime, incapaz, completamente rendido aos EUA.

Essa fulanização é, evidentemente, uma redução da complexidade do drama em curso. Mas, sob o império da comunicação televisiva, das plataformas e suas redes, vende-se ao público uma versão novelesca e simplificada. 

Para a esquerda putinista, o líder alemão é algo como como um idiota. 

Será?

Tal leitura, no terreno da economia e, sobretudo, das fontes energéticas, traduz-se assim: os alemães, empregados de Biden, aderiram às sanções contra a Rússia e levaram um contragolpe mortal com o carvão e sobretudo com o gás e o petróleo. As imagens mais corriqueiras para explicitar essa versão são as de que Putin, lutador de judô, teria aplicado um ippon em Scholz. Ou, na linguagem enxadrista, um xeque-mate. Esta foi a análise predominante na esquerda putinista nas últimas semanas. 

Os últimos dias, entretanto, parecem indicar que tal avaliação foi precipitada. 

De fato, o governo Putin imaginou que, depois de invadir a Ucrânia e ameaçar a Europa, a dependência do carvão, do gás e do petróleo russso deixaria os alemães à sua mercê. Subestimaram os alemães. 

Os russos  tinham a poderosíssima arma do petróleo e do gás apontada contra a Alemanha. Mas, paradoxalmente, ao usarem-na, correram o risco de ficar de mãos abanando, a não ser que obtivessem a capitulação alemã -não a conseguiram. 

A Alemanha, apesar da dependência do petróleo, do gás e do carvão russos e da reação inicialmente lenta, acordou. E nunca mais será dependente dos russos.

Na última sexta-feira (25), o governo social-democrata de Scholz anunciou que: 1) até o outono a Alemanha não precisará mais do carvão russo; 2) até o inverno, reduzirá a dependência do petróleo pela metade; 3) até meados de 2024 irá zerar a dependência do gás.

Putin supervalorizou sua posição como fornecedor de energia aos alemães e agora está assistindo à mudança radical da matriz energética alemã e europeia no meio da guerra. Consequência: os russos perderão o mercado precioso numa velocidade estonteante e isolam-se da comunidade europeia, que crescentemente abria-se à parceria com eles.

É evidente que a economia alemã está sentindo e sentirá o impacto da perda do gás e do petróleo russos, que tinham e ainda têm grande peso na matriz alemã.

Mas é bom ter em mente que os alemães, desde a última década do século passado, estão empreendendo a mais ousada transição energética do planeta. Os alemães estão executando um plano de ação que prevê ter 100% da energia do país de fontes renováveis até 2050. Em 2019, 46% da eletricidade na Alemanha já provinha de fontes renováveis.

A ameaça de Putin fará esse processo se acelerar, e muito. Repito: em alguns meses, a Alemanha irá zerar a compra de carvão russo e reduzirá pela metade as compras de petróleo. Além disso, irá comprar parte do gás que necessita dos Estados Unidos. É mais caro que o gás russo, mas garantirá que a economia alemã não será estrangulada por Putin enquanto a transição energética avança.

Uma palavra sobre a questão do gás

Há muita propaganda e desinformação ao redor do tema do gás russo para a Alemanha. 

O Nordstream 1 teve sua construção iniciada em em abril de 2010 e ficou pronto em junho de 2011, inaugurado pela então chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente russo à época, Dmitri Medvedev. Mas sua origem é iniciativa do social-democrata Willy Brandt (chanceler de 1969 a 1974) e formulador da Ostpolitik (Política do Leste), com o objetivo de desenvolver relações amistosas com a União Soviética e escapar da relação dura com os EUA. Brandt enfrentou o jugo estadunidense, o que é desprezado hoje pela esquerda putinista, e estabeleceu uma política de relativa autonomia alemã diante do império. O Nordstream 1 é filho direto da Ostpolitik. O primeiro gasoduto era um projeto econômico e de paz. Putin liquidou a política de boas relações dos alemães e empurrou-os e a toda a Europa para Washington.Quanto ao Nordstream 2, a história é outra. Projetado para ser construído em 2011, com o funcionamento previsto para finais de 2012, só saiu do papel dez anos depois. No meio do caminho, a transição energética alemã foi se tornando realidade. Desde 2018 havia questionamentos na Alemanha quanto à sua real necessidade. Bem antes da guerra, em setembro de 2020, um parecer do instituto de pesquisa econômica mais renomado da Alemanha, o Deutsches Institut für Wirtschaftsforschung (DIW) foi taxativo. O Nordstream 2 era avaliado, nas palavras da especialista em energia da instituição, Claudia Kemfert, como "desnecessário em termos energéticos, prejudicial ao meio ambiente e economicamente ineficiente".Portanto, quanto Scholz anunciou, em 22 de fevereiro, a suspensão do processo de licenciamento do Nordstream 2, um dia depois do reconhecimento pela Rússia da independência de  Donetsk e Lugansk, pode ter parecido aos desavisados um ato desesperado no contexto da guerra que estouraria dois dias depois. Não o era. Do ponto de vista político, foi o sinal de Scholz a Putin que o abandono das negociações em curso entre a Rússia e a Europa sobre a Ucrânia teria consequências. Do ponto de vista econômico, era uma medida que estava nas cogitações nas planilhas há pelo menos três anos.

O povo russo é formidável; o alemão também o é

A esquerda putinista afirma, com razão, que os russos são um povo formidável, que renasceu da quase destruição da Segunda Guerra e do esfacelamento da União Soviética, o feito mais recente sob a liderança de Putin.

Equivoca-se, entretanto, embarcando na ilusão de que os alemães seriam um povo "frouxo" (para usar a linguagem machista que renasce com força nesses tempos de encantamento com militares, seus uniformes e armas), sem vontade, de joelhos diante dos EUA. 

Ignoram que a Alemanha enfrentou dois tratados de paz depois da Primeira e da Segunda Guerra que tiveram como objetivo reduzir o país a pó. Durante 40 anos, foi imposta a divisão à Alemanha. No entanto, o país, pela terceira vez, tornou-se uma potência - ninguém duvida que é a Alemanha a locomotiva da União Europeia. Registre-se: o PIB alemão é o quarto maior do planeta (US$ 3,78 trilhões em 2020), quase o triplo do russo, o 11º (US$ 1,46 trilhões). O PIB per capita alemão, US$ 46.563, é quatro vezes maior que o russo, US$ 11.162. A Alemanha é o sexto maior IDH do mundo (ranking 2019), enquanto o russo é o 52º.

Imaginar que, com sua história e pujança, a Alemanha seria liquidada por causa do carvão, do gás e do petróleo russos foi uma ilusão com consequências ainda incertas, mas de largo impacto para todos os envolvidos no confronto e todo o planeta.

Há ainda a tese de que os alemães seriam serviçais dos EUA. E o tema do rearmamento alemão. São assuntos para outro dia. 

Por enquanto, vale refletir: será mesmo Putin um gênio e Scholz um idiota?

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