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Paulo Silveira

Sócio fundador do Observatório das Adições Bruce K Alexander (www.observatoriodasadcoes.com.br). Membro fundador do movimento "respeito é BOM e eu gosto!" (www.reBOMeg.com.br)

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Psicoterapia corporal em grupo

Técnica parte do princípio, extremamente simples, que o ser humano é um ser social

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Prezados leitores,

Estamos iniciando uma sequência de artigos sobre o tema “Terapia Corporal em Grupo”, técnica essa praticada em Cuba.

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Ela parte do princípio, extremamente simples, que o ser humano é um ser social. Nossa espécie sobreviveu e chegou até onde está porque tem como uma de suas principais características a solidariedade.

Sendo assim, se existe alguma insatisfação com a vida que levamos é porque não conseguimos nos realizar socialmente, seja no sentido afetivo, intelectual, profissional ou qualquer outro.

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Sem dúvida o processo terapêutico “em grupo” fica muito mais rico uma vez que repensamos nossa constituição como indivíduos e seus “porquês” além de podermos “experimentar” as mudanças que queremos produzir nas relações com o que nos cerca a partir de vivências e saindo do isolamento que a vida nos expõe, isolamento esse reafirmado nos processos terapêuticos individuais, que nos levam a uma compreensão isolada de nossas vivências.

O realce no “em” é intencional, uma vez que temos a “terapia de grupo”, que conduz o processo terapêutico considerando o grupo como algo homogêneo, descaracterizando, assim, os indivíduos que o compõe.

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Como vocês poderão observar, inicialmente faço algumas considerações abordando alguns temas de uma forma ampla com a única intenção de proporcionar ao leitor um mínimo de conhecimento a meu respeito e, assim, entender qual a ética que rege minha conduta como terapeuta.

Por fim, agradeço desde já as críticas.

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  1. O Psicoterapeuta

Antes de entrarmos na discussão da questão principal, quero refletir com vocês qual a minha ética ao ocupar o lugar de terapeuta.

Comecemos por pensar especificamente na palavra terapeuta. Origina-se da palavra grega therapeutés e é definida assim no dicionário da língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda:

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"Pessoa que exerce a terapêutica e/ou conhece bem as indicações terapêuticas."

E segundo o mesmo dicionário, terapêutica vem a ser:

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"Parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar os doentes".

Já os gregos tinham outra visão a respeito do terapeuta.

"...Terapeuta, na antiguidade grega, designava aquele que, escolhendo a via do guerreiro, colocava suas forças físicas, emocionais e espirituais a serviço de um guerreiro.

Pátroclo era o terapeuta de Aquiles.

A história seguinte, que Homero conta, é significativa pelo fato de que o terapeuta é o duplo daquele a quem serve, que é de quem no fundo ele retira suas forças; ele também deve permanecer em estreita comunicação com o senhor, se pretende guardar a ambos e manter-se eficiente...

A palavra designava também aquele que rendia um culto aos deuses e que, ligado às forças do céu, podia transmiti-las....

Também era chamado terapeuta aquele que, nas festas, colocava-se a serviço dos outros e animava os jogos..."

Me propunha a ser terapeuta a partir da visão grega, colocando minhas "forças" a serviço do paciente. Ser terapeuta, de acordo com meu entendimento, é se tornar cúmplice do desejo do outro. Para isso é necessário que o terapeuta conheça suas forças, para não se comprometer com aquilo que não possa dar conta, e esteja atento aos ideais de quem vai "servir", de tal modo que não se torne cúmplice em algo que não concorde.

Acredito sinceramente que ser terapeuta, assim como tudo na vida, não é uma questão de profissão, mas sim de postura.

De acordo com a visão dos gregos citada acima, uma cozinheira quando está preparando uma refeição para alguém, está se colocando no lugar de terapeuta, assim como quando alguém se propõe a escutar um amigo, etc. Não é a postura que surge em função da profissão, mas a profissão é que surge em decorrência dessa postura.

Me identifico, profissionalmente, através do título de “psicoterapeuta corporal”, o que para mim significa ser terapeuta da alma humana (pisco / psique). Ou seja: tenho a pretensão de me tornar cúmplice no mais íntimo desejo do outro.

Acrescento o adjetivo corporal, para caracterizar que todas as formas de expressão do indivíduo são levadas em consideração, entendo corpo aqui como o conjunto das características do indivíduo (sua aura, sua matéria, sua fala, seu gestual, seu olhar, etc)].

Ser psicoterapeuta, para mim, é ter a consciência que se vai estar trabalhando com pessoas, que têm dificuldades de lidar com suas vidas, em sua grande maioria, o que lhes gerará medos e angústias, e, exatamente por reconhecerem isso, os procurarão. Cabe ao profissional, no caso o psicoterapeuta, se aparelhar de tal maneira, para junto com o paciente construir um caminho pelo qual o paciente possa percorrer sem se sentir mais impedido por seus medos e angústias, com eles, os medos e angústias sirvam de alerta, sejam, assim, aliados dos indivíduos.

  1. A Formação do Psicoterapeuta

Uma questão que me pergunto permanentemente é:

"Qual o pré-requisito para ser psicoterapeuta?"

Minha resposta é: "Não sei!!!".

A resposta mais constantemente dada para essa pergunta é que o indivíduo deve estudar muito e fazer terapia. Só, que pela minha experiência, isso não é suficiente. Me parece óbvio que é o mínimo, mas não o suficiente. É possível ter conhecimento, mas não ter ética ou caráter, ou ter ética e não ter nem conhecimento, nem caráter.

Acredito que deveria haver uma forma de se estar permanentemente avaliando os profissionais que atuam na área de saúde, assim como se faz com pilotos de avião, por exemplo, embora sinta que essa questão é muito mais complicada. Deve-se tomar muito cuidado para que não ressurja nenhuma nova versão dos antigos tribunais da época da inquisição ou do macartismo. Mas que os critérios atuais são insuficientes, lá isso são. Diplomas universitários ou como muitos defendem, a seleção feita pelos próprios pacientes, são critérios frágeis e inócuos.

"... Nesses institutos os próprios candidatos são submetidos à análise, recebem instrução teórica mediante conferências sobre todos os assuntos que são importantes para eles, e desfrutam da supervisão de analistas mais velhos e mais experimentados quando lhes é permitido fazer suas primeiras experiências com casos relativamente brandos. Calcula-se um período de cerca de dois anos para essa formação. Mesmo após esse período, naturalmente, o candidato é apenas um principiante e não ainda um mestre. O que ainda necessita deve ser adquirido pela prática e por uma troca de ideias nas sociedades psicanalistas nas quais membros jovens e velhos se reúnem. O preparo para a atividade analítica de modo algum é fácil e simples.

O trabalho é árduo, grande a responsabilidade. Mas qualquer um que tenha passado por um curso de instrução dessa natureza, que tenha sido analisado, que tenha dominado o que pode ser ensinado em nossos dias sobre a psicologia do inconsciente, que esteja familiarizado com a ciência da vida sexual, que tenha aprendido a delicada técnica da psicanálise, a arte da interpretação, de combater resistências e de lidar com a transferência - qualquer um que tenha realizado tudo isso não é mais um leigo no campo da psicanálise. Ele é capaz de empreender o tratamento de perturbações neuróticas e ainda poderá com o tempo alcançar nesse campo o que quer que se possa exigir dessa forma de terapia."

Uma questão que contribui muito para dificultar o processo de formação de psicoterapeutas, em minha opinião, é que o conhecimento utilizado na área humana é totalmente subjetivo.

"O homem não é um ser-substância de quem poderíamos descrever e coisificar as atitudes e comportamentos. Não é um ser estático e acabado, cujo comportamento teria o privilégio de assemelhar-se à sua essência, isto é, a uma definição de seu ser inscrita na "natureza humana". Porque antes de constituir um ente como outro qualquer, o homem é um existente que se constrói constantemente por sua presença no mundo: é um ser histórico, em devir, que sempre se coloca em questão. (grifos meus)"

A psicologia é uma "ciência" que ainda está engatinhando. É um lugar que está tudo por fazer. Muito ainda tem-se que pesquisar e discutir. Por tratar de questões abstratas (localize em seu corpo o inconsciente) é possível elaborar-se diferentes teorias a respeito de um mesmo assunto. Dependendo da filosofia de vida de cada indivíduo, ele optará por uma visão do ser. Os hindus, assim como os chineses, por exemplo, percebem os seres humanos completamente diferente de nós ocidentais.

Um belo exemplo, é o número de linhas de trabalho existentes para a psicologia clínica. Para umas pessoas a psicanálise é mais eficaz, para outros é a terapia corporal, para outros é o psicodrama.

Qual ciência que ainda se atém a princípios estabelecidos no início do século como verdades absolutas, como a psicanálise?

Nenhuma! Seja a medicina, a física, a matemática, etc todas elas se transformaram.

Não aponto essa questão como uma crítica aos profissionais, não. Muito pelo contrário. A crítica é ao nosso regime político. O estado é quem deveria se responsabilizar pela saúde, não só pela prática como pela pesquisa. Devido à ausência do estado, somos nós os profissionais que temos que patrocinar nossas pesquisas, o que para um profissional liberal se torna muito caro. Acredito que as pessoas que se propõe a pensar e estruturar conhecimentos nessa área são, antes de mais nada, uns apaixonados por aquilo que fazem.

A produção desse conhecimento não traz lucros imediatos e, portanto, não atrai patrocinadores para as pesquisas. Enquanto o laboratório que descobrir uma droga que promova a cura da AIDS, por exemplo, terá um enorme lucro, e, portanto, compensa as empresas em investirem em pesquisas sobre AIDS, um pensador como Freud ou Reich não produz lucro, uma vez que, não se tem como patentear um pensamento! É claro, pelo menos para mim, que um pensador como Reich ou Freud ou Piaget ou Paulo Freire ou... gera um enorme "lucro" a sociedade, mas esse tipo de lucro não se pode depositar em bancos de imediato...

Mas como poderíamos pensar ser possível ao humano construir uma ciência onde ele é o próprio objeto de pesquisa?

Como acreditar na imparcialidade se o próprio indivíduo está envolvido na questão?

O mais interessantes é que as ditas ciências exatas já perceberam essa dinâmica.

"A característica crucial da física atômica reside no fato de que o observador humano não é necessário apenas para a observação das propriedades de um objeto, mas, igualmente, para a definição dessas propriedades.

Na física atômica não podemos falar acerca das propriedades de um objeto como tal. Estas apenas possuem significado no contexto da interação do objeto com o observador."

Se estudarmos a vida dos grandes pensadores da psicologia, veremos o quanto sua história pessoal contamina suas teorias, como não podia deixar de ser. Freud, oriundo de uma família judia, estrutura a questão edípica, Reich, que flagra a mãe em adultério e ao denunciá-la ao pai ela se suicida, estabelece o orgasmo como parâmetro de saúde, Lowen, professor de educação física, pensa numa terapia através de exercícios corporais.

E de novo as ditas ciências exatas nos chamam a atenção para esse fato:

Diante da ilusão, bastante aristocrática, do poder de percepção ilimitada do pensamento, existe outra ilusão bem plebeia, o realismo ingênuo, segundo o qual os objetos "são” a pura verdade de nossos sentidos. Ilusão que ocupa a atividade diária dos homens e dos animais. Na origem, as ciências se interrogam deste modo, sobretudo as ciências físicas.

As vitórias sobre as duas ilusões nunca se separam. Eliminar o realismo ingênuo é relativamente fácil. Russell define de forma muito característica este momento do pensamento na introdução a seu livro An inquiry into Meaning and Truth.

"Começamos todos com o realismo ingênuo, quer dizer, com a doutrina de que os objetos são assim como parecem ser. Admitimos que a erva é verde, que a neve é fria e que as pedras são duras. Mas a física nos assegura que o verde das ervas, o frio da neve e a dureza das pedras não são o mesmo verde, o mesmo frio e a mesma dureza que conhecemos por experiência, mas algo totalmente diferente. O observador que pretende observar uma pedra, na realidade observa, se quisermos acreditar na física, as impressões das pedras sobre ele próprio. Por isso a ciência parece estar em contradição consigo mesma; quando se considera extremamente objetiva, mergulha contra a vontade na subjetividade. O realismo ingênuo conduz à física, e a física mostra, por seu lado, que este realismo ingênuo, na medida em que é consequente, é falso. Logicamente falso, portanto, falso."”

Uma outra decorrência do regime político que vivemos é que a manutenção da saúde se torna extremamente cara para o paciente, acarretando com isso a procura do terapeuta só quando se apresenta alguma anomalia. Se o estado se responsabilizasse pela saúde, poderia ser feito a prática preventiva, que é muito mais barata para o próprio estado e muito mais saudável. Além disso, essa política evitaria que fosse o doente e, consequentemente, sua doença, quem sustentasse o profissional de saúde. Um terapeuta chinês, por exemplo, não cobra consulta de seu paciente quando ele fica doente.

A adoção de uma política social onde o estado patrocine a saúde, necessariamente teria que passar por uma reformulação total das políticas sociais, principalmente, da política ligada a área de educação. É nas escolas, por exemplo, principalmente as chamadas pré-escolas, onde são recebidas crianças de zero a seis anos (e no convívio familiar), que se pode fazer o mais efetivo trabalho de prevenção as neuroses. Mas isso já é outra estória...

Quanto a necessidade do psicoterapeuta estar permanentemente em terapia, penso assim: na função de psicoterapeuta, a ferramenta de trabalho é o próprio psicoterapeuta, e portanto, só se pode obter resultados satisfatórios, se utiliza-se de ferramentas com os quais exista um comprometimento de fato. É no mínimo essencial que o psicoterapeuta possa conhecer seus limites. Costumo dizer que "para ser psicoterapeuta é essencial se saber o que não se sabe."

Muitos podem estar pensando que cobro a perfeição e que esta não existe. Não cobro a perfeição, mas sim a humildade e o compromisso com aquilo que se faz, bem como um sistema de seleção de psicoterapeutas e documentação a esse respeito mais apurado.

Enquanto existem pessoas (escultores, engenheiros, etc) que lidam com pedaços de ferro como se fossem gente (com carinho e cumplicidade), na área de saúde tenho conhecido pessoas que lidam com gente como se imagina que se lida com pedaços de ferro. Se em outras profissões fossem permitidas as mesmas leviandades, muitas pontes cairiam, companhias faliriam, etc.

Uma terapia mal conduzida, não só desperdiça tempo e dinheiro, como também pode determinar o futuro de uma pessoa ou mesmo levá-la a morte.

Lidar com a vida humana não é uma brincadeira que se possa participar levianamente.

Conheci o caso de uma pessoa que seu psicoterapeuta a convenceu em abandonar o tratamento tradicional de câncer de mama com quimioterapia, que ele a curaria. Pouco tempo depois ela estava morta.

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