Três décadas após o fim da URSS, agrava-se a rivalidade EUA-Rússia

As tensões que o mundo vive hoje no Leste da Europa são a expressão máxima de uma luta geopolítica, intensificada nas últimas semanas entre os EUA e a Rússia

(Foto: Brasil 247/divulgação)


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247, por José Reinaldo Carvalho - Neste domingo transcorreu o 30º aniversário da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este aniversário coincide com o momento de maior tensão entre a Rússia e os Estados Unidos. A Otan, aliança militar comandada pela superpotência norte-americana, encontra-se às portas do território russo. A estratégia de expansão da aliança atlântica envolve a inclusão de países ex-soviéticos, como a Geórgia, a Moldávia e principalmente a Ucrânia. Para Moscou, trata-se de uma linha vermelha, que Washington e seus aliados da Otan foram advertidos a não transpor. As declarações do presidente Vladimir Putin em sua coletiva de imprensa pelo encerramento do ano de 2021 foram enfáticas. A Rússia está disposta a ir às últimas consequências para defender a segurança de suas fronteiras. 

A estratégia de expansão da Otan está em total contradição com os esforços das forças progressistas mundiais e países que lutam por sua independência para construir um sistema internacional baseado no multilateralismo e visando à paz. A existência mesma da Otan é um contrassenso. Com a queda da União Soviética desapareceu também o Pacto de Varsóvia, o que deveria ser acompanhado pela extinção da aliança atlântica. Esta, ao contrário, atualiza seus conceitos de guerra, inclui neles a guerra híbrida, promove intervenções em outras regiões (Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, Líbia), expande-se para o Leste da Europa e sinaliza até mesmo o interesse de aliar-se a países governados pela extrema direita na América Latina, como o Brasil e a Colômbia. 

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O contencioso EUA-Rússia, com o envolvimento da Otan, tornou-se a principal ameaça à paz mundial neste final de 2021. A rivalidade do imperialismo estadunidense com a Rússia afigura-se tão intensa como nos tempos da Guerra Fria entre os EUA e a antiga URSS, mas não tem o mesmo sentido ideológico, pois desenvolve-se em outro contexto político interno na Rússia e outra conjuntura internacional.  

A primeira década que se seguiu à dissolução da URSS foi dramática desde todos os pontos de vista nos planos interno e externo. O país regrediu, com a liquidação de conquistas históricas e a submissão ao imperialismo estadunidense. Quem vivenciou aqueles acontecimentos percebe o contraste com os fatos atuais. A geopolítica da Rússia mudou inteiramente desde o final da década de 1990. A Rússia evoluiu desde então de país condenado a se tornar pária no sistema internacional a um dos principais fatores de contenção e mesmo enfrentamento do imperialismo estadunidense. Passou a exercer papel de destaque no sistema internacional, valendo-se da herança soviética, assumindo posições nacionalistas e reforçando seu poderio militar e nuclear, processo em que foi decisivo o papel de Vladimir Putin, que imprimiu uma orientação geopolítica diametralmente oposta à de seu antecessor, Boris Ieltsin. 

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A nova transformação da Rússia em ator preponderante no cenário internacional não significa um retorno ao socialismo nem a reconstrução da União Soviética, o que inclusive explica a posição do Partido Comunista da Federação Russa, de apoio pontual a aspectos da política externa de Putin, ao passo que se opõe sistematicamente ao novo sistema capitalista, que combina políticas nacionalistas com neoliberais, ações de defesa da soberania nacional com outras de caráter antissocial. 

"A Rússia nunca demonstrou 'ambições imperiais' e não tem planos para reviver a União Soviética", disse a presidente do Conselho da Federação (câmara alta do parlamento), Valentina Matviyenko, em entrevista coletiva nesta segunda-feira (27), quando questionada sobre as alegações de que a Rússia tinha planos para recriar a União Soviética", informa a agência TASS. 

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Prossegue a dirigente: "Em primeiro lugar, mesmo que alguém desejasse fazer isso, seria impossível. Em segundo lugar, nunca demonstramos nenhuma ambição imperial. O trem se foi. Hoje em dia, é essencial desenvolver uma cooperação mutuamente benéfica em uma nova base. Não temos tais planos e estaremos vivendo em paz, acordo, amor e amizade com nossos vizinhos e irmãos em todos os antigos Estados da União". 

As declarações foram dadas em resposta às da subsecretária de Estado dos Estados Unidos para Assuntos Políticos, Victoria Nuland, segundo a qual seu país está preocupado com a suposta intenção de Moscou de recriar a União Soviética. 

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Em complemento, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Andrey Rudenko, tem chamado a atenção para o fato de que o Ocidente estava tentando transformar o espaço pós-soviético em uma "zona de conflitos e tensões permanentes".

O estágio atual da rivalidade faz lembrar as afirmações do decano da política externa estadunidense Henry Kissinger, que há 30 anos, ao comemorar a "vitória sobre o comunismo", alertou o establishment de seu país para o fato de que o triunfo americano só seria completo quando a Rússia deixasse de ser uma potência, independentemente de ser ou não um país liderado pelo partido comunista. 

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Ao longo das últimas duas décadas os Estados Unidos têm dado curso a ações anti-Rússia nos campos político, diplomático, comercial e militar. A Rússia, por seu turno, não suspendeu sua estratégia de defesa e consolidação, pelo contrário, avançou, visando a fortalecer-se como potência e a ocupar seu espaço como ator relevante no sistema internacional. 

As tensões que o mundo vive hoje, com o agravamento das disputas no Leste europeu em torno da expansão da Otan, aliança militar comandada pelos Estados Unidos, são a expressão máxima dessa luta geopolítica, intensificada nas últimas semanas.  

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Para além dos problemas geopolíticos, vale a pena, ao menos de passagem, relembrar o sentido ideológico da dissolução da URSS, como anúncio de um artigo posterior. Os atos finais da derrocada da superpotência socialista, que durante mais de sete décadas mudou a face de um país outrora feudal, imperial (prisão de nações e povos, como dizia Lênin), comandou a vitória dos povos soviéticos e da humanidade contra o nazifascismo e alterou a correlação mundial de forças, foram tomados por Mikhail Gorbachev, um líder político que entrou para a história como um dos maiores traidores do próprio povo e de outros povos, como corolário de um processo de degeneração política e ideológica do Estado socialista e do partido comunista. 

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A queda do grande bastião do socialismo no mundo resultou de um processo corrosivo gradual, que teve como marco o 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, já sob a liderança de Nikita Krushev, que deu início a um processo de elaboração e aplicação de uma plataforma oportunista de direita, em contraste com o socialismo científico leninista. 

Aqui vale um parêntese para situarmos a repercussão do revisionismo de Krushev nas polêmicas entre partidos comunistas e revolucionários. A regressão foi tamanha que abalou as estruturas do Movimento Comunista Internacional, com reflexos em todos os países. Foi notável o cisma, decorrente da nova orientação soviética, entre a URSS e a China. E, para não ficarmos em latitudes distantes, vale lembrar que a orientação krusheviana acelerou um processo de degenerescência do antigo PCB. Era uma época em que esse partido tinha reações pavlovianas às decisões soviéticas. A primeira destas foi a adoção de uma política que pode ser designada como oportunista de direita, consubstanciada em um documento que passou à história como a Declaração de Março de 1958, base para a resolução política do 5º Congresso (1960), um marco da trajetória do PCB como um partido reformista que apostou na conciliação com as classes dominantes e em opções estratégicas e táticas ideologicamente liquidacionistas que o transformaram em um partido de centro direita, como o PPS, agora Cidadania.  

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