Um sofá no divã

(Foto: Pixabay)


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As gentes que circulam pela avenida não se dirigem a mim. É normal, nunca vi ninguém falar com um sofá. Todos, no entanto, acabam me lançando um olhar. Deve ser pela minha cor vermelha e a posição estratégica: estou bem numa esquina movimentada do bairro. É impossível passar pelas adjacências e não notar meu encosto, os três assentos e os braços, tudo em courvin. Dois dos pés de madeira foram arrancados, o que me deixa levemente rebaixado para frente.

Ontem um sem-teto dormiu sobre mim. A noite estava quente, a brisa tépida, deu vontade de contar ao homem detalhes do meu passado. Falar das muitas encarnações (ou seriam encadernações?) pelas quais passei desde que um estofador da Lapa de Baixo me concebeu. Narraria a ele os fatos que presenciei sendo móveis e utensílios de tantas famílias paulistanas. As napas, tecidos floridos, veludos cotelês, materiais sintéticos, e mantas de tricô que já me trajaram. As reformas nas molas, o bater de martelo nos pregos da minha estrutura, as intermináveis sessões de hidratação no couro. 

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Quanto mais o pedinte roncava, mais me assaltava o desejo de colocá-lo a par de todas as particularidades. Um sofá velho sabe mais da vida humana do que muito padre confessor. Amantes rolaram as impetuosidades por cima de seus botões; crianças, que depois viraram pessoas chave ou fracassados na sociedade, pularam em seus almofadões; até mortes súbitas, ou assassinatos frios e calculados, tiveram lugar em algum de seus lugares. Quantas decisões sórdidas, murros animalescos em resposta a frustrações, costas suarentas, pés catinguentos, quanta libidinosidade já foi suportada sobre nossos pés.

O esmoler, de bruços, ressonava. Não fazia ideia, em seu úmido resfolegar, do que se passara comigo. Estava eu ruminando tais ideias quando chegou o caminhão e começou a descer a caçamba no asfalto. O barulho da carroceria despertou o pobre desgraçado. Pulou para a calçada, pegou uma guimba de cigarro, e saiu andando como um autômato. Logo vão me lançar no depósito de lixo, pensei. Contudo, rapidamente me aquietei. É parte do jogo. Nada pode continuar indefinidamente, ainda mais no meu caso, um canapé que deve estar aí há mais de nove gerações. É razoável dar lugar aos mais novos. Sempre foi e continuará sendo assim. Só não me conformo com uma coisa: sair fora deixando no meu posto essas porcarias desmontáveis, feitas de compensado, revestidas com alguma folha delgada e vagabunda. Melhor mesmo virar chorume do que viver nas salas de estar de um século tão descartável. 

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