Opinião

Viva a diversidade

No rebuliço da rua das Palmeiras, a magia da diversidade

Luis Cosme / Wikimedia
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A galeria é porta aberta para as profundezas da Vila Buarque.

Trabalha-se muito em seus boxes miúdos.

Brechó unissex. Corte e costura. Sapateiro. Molduras. Suco natural e bolo de fubá. No Gegê, cabelo, barba e bigode a 60 reais. Se lavar, 65.

A sorte está cercada. Nos fundos do sebo de livros religiosos joga-se no Bicho. No subsolo, a aposta é nos cavalos de corrida. Às 10 da manhã, um grupo grisalho vê, revê e torce como se já não soubesse o resultado do páreo disputado na noite passada.

“Foi por cabeça”, lamentam.

Outros cavalos estão agora à minha frente. É a polícia montada, que não vejo em nenhum outro lugar da cidade. Em silêncio, motoristas e motoboys acompanham o trote a 10 km por hora.

Convido vocês a, mais uma vez, bater perna pela rua das Palmeiras e seus arredores. Vamos dos primeiros metros até o número 481, onde começa a praça Marechal Deodoro. A ida é pela sombra, a volta pelo sol.

A Palmeiras não permite repetição, a diversidade é sua magia.

Como a riqueza de topetes, coques e penteados. Franjas, tranças, cores. No inverno quente, a multidão mestiça passeia com pés à mostra. Pintados, tatuados, confortáveis em sandálias de borracha ou protegidos pelo couro bem engraxado.

Dois pés descalços dormem embaixo de uma marquise. São de um homem com menos de trinta anos. O canhoto está camuflado pelo rabo peludo e castanho da melhor amiga. O direito, não há dúvida, é pé vistoso, de dedos grandes e peito largo, capaz de dominar e brincar com a pelota. Algo me diz que perdemos um craque.  

O Chevette laranja com rodas prateadas dobra a esquina. No mesmo ponto, já encontrei uma Vemaguetti chocolate. Migalhas de cor e alegria na massa opaca e congestionada.

Agora é uma Kombi azul com faróis de milha e capota branca, que recolhe plástico, papelão e recicla a paisagem.

Já alertei em nossas crônicas: a rua com nome de árvore tem pouco verde. Pois o raro é também variado.

Cercado de fumaça e algazarra, o jacarandá estica como se vivesse no sossego da mata.

A despedida das folhas do Ipê é sinal de que nova florada se aproxima. Será branca, amarela, roxa?  

O amazônico Pau Mulato é espigado. Cresce resoluto, não bifurca o danado. Tronco fino cabe em nossas mãos. Os primeiros galhos tocam a janela do quarto andar.

Também precisam voar alto os sabiás e sanhaços se quiserem ninho na copa da Sibipiruna, a mais frondosa da quadra.

Colado ao tronco malhado do Pau Ferro, um pedaço de papel avisa que o Elson procura rapaz que aceite dividir quarto com beliche.

Na família dos Paus, que nos perdoem o Ferro e o Mulato, o mais ilustre é o Pau Brasil.  Ainda mirradinho, já exibe um buquê dourado. A gente da Vila vem na pressa e nem percebe a árvore que dá nome ao país.

A cascuda Figueira acolhe mais um aviso muito útil: a calopsita sumida já voltou pra casa. A boa notícia vem com foto.

Entre sombras esparsas, matuto sem resposta ou explicação convincente, por que as tantas lojas de vestuário evitam a palavra roupa? Se anunciam assim nos letreiros e vitrines: “endereço da moda”, “ponto certo da moda”, “magazine da moda”, “Moda e acessórios”

 Minha avó Lili, que sabia de tudo e mais um pouco, dizia quando o clima esquentava em casa por calor ou outras razões.

– Vou ali ver as modas e já volto.

Lili também é nome de loja aqui na Vila Buarque. A Lili Modas.

Pode apostar, quando algo se repete nestas bandas é por um bom motivo.

(Agradeço ao amigo Zezo Cintra pelas informações sobre a flora da rua das Palmeiras)

Numa viagem de trabalho ao sertão baiano, finalmente entendi o verdadeiro sentido da expressão o Mala Bacana. A história se repetiu em outras coberturas e até fora do Brasil.

Cinegrafista experiente, ele gravava as imagens para a reportagem, garantia também as entrevistas e, então, pedia aos assistentes que fizessem outras cenas. 

Orientava os novatos, entusiasmados com a chance de aprender.  

Enquanto todos trabalhavam para finalizar as gravações, Beto distribuía nas malas com os equipamentos e também nas bagagens pessoais, pedras e tijolos que recolhia sem que ninguém visse. Tudo embrulhado em jornal.

Estranhávamos as bolsas pesadíssimas. Mas ele ia lá na frente gritando, sem deixar ninguém parar.

– Vamos gente, vamos perder o avião. Corram. Tô falando sério. 

A gente obedecia e só quando chegava em casa ou no almoxarifado da TV entendia porque o mala-pesada tinha passado a viagem às gargalhadas.

O mala-mais-parceiro-do-mundo fez faculdade de jornalismo e hoje é um respeitado editor de imagens. Em dias mais tranquilos, os colegas se assustam com estranhos telefonemas que se repetem insistentemente na redação. O último foi assim.

– Bom dia, aqui é Jonas, do Palácio Bandeirantes, vocês não foram avisados da entrevista coletiva do governador?

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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