A ecologia vista através da evolução: um apelo aos anticapitalistas

Para muitos existe uma tensão fundamental na relação entre o homem e suas tecnologias e a natureza, mas uma concepção que enfatiza a teoria da evolução e a simbiose entre os dois aponta para caminhos alternativos

Quadro Caminhante sobre o mar de névoa por Caspar David Friedrich
Quadro Caminhante sobre o mar de névoa por Caspar David Friedrich (Foto: Reprodução)
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Leonardo Sobreira, 247 - O anticapitalismo é o caminho mais comumente adotado por acadêmicos e ativistas quando se trata de debates sobre soluções para a crise climática mundial. Inegavelmente, fatores como a necessidade de se produzir em grande escala com baixo custo, o consumismo crescente tanto no mundo desenvolvido como no mundo em desenvolvimento e a alienação ideológica que naturaliza e perpetua essas dinâmicas, são as causas principais da iminente catástrofe ecológica. 

De acordo com o Guardian, de 1988 até 2017, 100 grandes empresas foram responsáveis por 71% das emissões dos gases causadores do efeito estufa, sendo a maioria destas do ramo petroleiro e carvoeiro estatal. Em 2017, o mesmo revelou que a indústria da carne e de laticínios, cujo um dos maiores representantes é o Brasil, emitiu mais gases nocivos do que a Alemanha, o maior poluidor da Europa.

Por mais justificada que seja a revolta contra estes, o sentimento anticapitalista merece uma análise muito mais aprofundada.

Até mesmo antes da Revolução Industrial, o senso prevalecia de que a alienação do ser humano em relação à natureza só crescia. Conforme a tecnologia avançava, um certo distanciamento, que explodiu em um abismo, foi sendo criado entre aquele ser natural, instintivo, e o ser “artificial”, racional e industrioso. O homem cada vez mais passa a se imaginar como superior, capaz de controlar até mesmo as indomáveis forças da natureza para o seu benefício próprio.

O romantismo europeu do século 18 é justamente a reação artística contra as tendências destrutivas do homem que estavam sendo levadas ao extremo na época. Em seus momentos mais inspiradores, a literatura romântica fala sobre um certo estado semiespiritual de “estar em um” com a natureza, a alma em harmonia completa com ela, “flutuando” conforme o vento suave sopra. 

O seguinte trecho do lendário poeta inglês William Wordsworth ilustra bem essa perspectiva: 

Pois eu aprendi a olhar na natureza, 

Não como nas horas de juventude descuidada 

Mas escutando às vezes 

A serena, triste música da humanidade

O trecho seguinte, do poema Tintern Abbey, possui um tom mais alegre: 

Essas belas formas, 

Por uma longa falta, não estiveram comigo 

Assim como é a paisagem para o olho de um homem cego: 

Mas, frequentemente, em quartos solitários, e em meio aos ruídos 

Das cidades, eu devo a elas, 

Nas horas de enfado, sensações doces, 

Sentidas no sangue, e sentidas ao longo do coração; 

E passando até na minha mente mais pura, 

Com restauro completo: - sensações também 

De prazer jamais lembrado

Essa história nos ensina, em última análise, que a crise ambiental pode ser solucionada através do cultivo de um apreço maior pela essência do meio natural. Em outras palavras, ao notarmos essa suposta ligação entre a alma humana e a natureza, tão exaltada por figuras como Wordsworth, destruí-la significa também destruir a nós mesmos. 

No entanto, apesar de aparentemente inofensiva, um grande problema afeta a concepção romântica. Ao criar uma dicotomia entre civilização de um lado e um ambiente harmônico e pacífico do outro, o romantismo peca por ignorar a relação de dependência entre os dois lados. Ou seja, a distinção entre o que é natural e o que não é é muito mais embaçada do que se imagina. 

O homem e a natureza, sim, são parte de um só esquema, mas este vai muito além do que uma mera ligação espiritual sugere. A conexão homem-natureza é de um tipo corpóreo, pelo que se entende que o corpo do homem, assim como sua mente e invenções tecnológicas, dependem, e crescem, da natureza. Afinal de contas, como nos ensina a teoria da evolução, este é um processo inteiramente orgânico, de forma que tudo que pensamos e fazemos é condicionado por fenômenos naturais. A oposição defendida pelos românticos perde aqui sua sustentação.

A própria tecnologia possui um elemento inegavelmente natural. Foi através da criação de ferramentas de caça pelos humanóides de dois milhões de anos atrás que o Homo erectus se relocou para o solo, dispensando a segurança oferecida pelas árvores. O manuseio do fogo, por exemplo, diminuiu drasticamente o tempo e energia gastos em digestão, o que ocasionou a potencialização das capacidades do cérebro humano em até dois terços. Assim, a evolução humana, que é sempre um processo biológico-natural, se dá em grande parte através de criações externas à natureza (no sentido de não serem frutos completamente orgânicos, por assim dizer.)

O fato é que a tecnologia em si, propulsionada inegavelmente pelo capitalismo, possui um forte aspecto de naturalidade, que ao invés de ser condenado deveria ser celebrado. Quando profetizam contra o capitalismo, partindo de um ponto de vista visivelmente odioso, acadêmicos e ativistas se esquecem dessa relação simbiótica do homem animal com suas tecnologias e, em última análise, com o próprio capitalismo.

Isso está longe de ser um argumento sobre a “natureza humana” ser inerentemente capitalista. Uma coisa é apontar para uma propensão natural para a tecnologia, outra é associá-la a um sistema em particular, o que constituiria um juízo de valor.

Aqui, Nietzsche talvez seja iluminador. Em A Gaia Ciência, ele diz:
Que evitemos dizer que existem leis na natureza. Existem somente necessidades: não há ninguém que comanda, ninguém que obedece, ninguém que transgride. Quando você entende que não existem propósitos, daí você entende também que nada é acidental: pois é somente num mundo de propósitos que a palavra ‘acidente’ faz sentido.

Ou seja, a natureza, vista como uma ordem à parte, como popularmente dito pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek, “não existe.” O que realmente existe, como apontado por Nietzsche, é somente o caos anárquico no qual estamos inseridos. 

Diante disso, o ato de se apropriar da natureza para benefício próprio (ou da espécie) não pode ser visto como errado sob nenhuma circunstância.

Isso, é importante clarificar, não elimina jamais a nossa responsabilidade de preservação do meio ambiente.

Mas para onde tudo isso nos leva? Qual o sentido prático dessa concepção de simbiose no que diz respeito ao ambientalismo? 

Em primeiro lugar, ela nos ensina que a ruptura com o sistema deve ser extremamente cautelosa. É impossível proferir que atingimos um nível máximo de desenvolvimento tecnológico, pois a relação do homem com suas criações sempre cresceu exponencialmente, ainda mais no século 21. E, mesmo aceitando uma ruptura com o sistema, essa não deve levar a uma ruptura com a essência, que é a relação simbiótica do homem com suas tecnologias. É importante enfatizar esse ponto, já que assim distanciamos o ambientalismo de um naturalismo regressista, que pretende retornar a um passado romantizado, “mais simples”, e que, visto desta forma, na realidade nunca existiu.

Segundo, temos de aceitar um certo grau de destruição natural. Esse grau pode ser visto talvez como uma “taxa da evolução”, que necessita ser paga como custo da nossa própria existência. 

É justamente aqui que entra a ecologia. Sendo nossa relação com a natureza tanto dependente como naturalmente destrutiva, se torna necessário a elaboração de esquemas que não só reponham e compensam o que “pertencia” a ela originalmente, mas que também mantenham sua existência como uma entidade própria. Somente assim é possível garantir um futuro tão próspero quanto sustentável. 

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