As origens cristãs da catástrofe ecológica

Desde a campanha contra o animismo pagão, à não aplicação da ética cristã no universo da economia, até a teoria de propriedade Lockeana, o Cristianismo, como base intelecto-moral da civilização ocidental, é o maior responsável pela iminente catástrofe ecológica

(Foto: Reuters/David Mercado)
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Leonardo Sobreira, 247 - Em meio às possíveis soluções para a iminente catástrofe ecológica que ameaça a humanidade, diversos caminhos vêm sendo propostos, desde tratados internacionais com o intuito de reduzir emissões de gases nocivos, à redução no consumo, ou até mesmo uma reestruturação do sistema econômico sob o qual vivemos. 

Dada a necessidade do modo de produção capitalista de extrair recursos naturais, comodificá-los, e perpetuar este processo através da cultura do consumo, é evidente que a mudança requerida para nos assegurarmos de um futuro mais sustentável se dá somente quando este mesmo modo de produção é reestruturado fundamentalmente. 

Naturalmente, se levantam questões sobre maneiras como este objetivo pode ser atingido. No entanto, preliminarmente, é necessário se avaliar as próprias pressuposições do modo de produção capitalista. Somente desta forma é possível tornar claro o que exatamente no capitalismo leva, na última instância, à crise ambiental. 

Estas pressuposições remetem à cultura capitalista. Ou seja, devemos nos perguntar: quais são os elementos da nossa cultura que nos levam a naturalizar práticas como, por exemplo, extração de recursos e acúmulo de lucro? 

Não é novidade em círculos acadêmicos a noção de que a ética cristã serve de base para o modo de produção capitalista, legitimando-o e, assim, perpetuando-o. Vista desta forma, o cristianismo não passa de mera ideologia, no sentido marxista do conceito. Louis Althusser, maior teorista marxista da ideologia, a define como as relações imaginárias que se tornam realidade através da prática, que fazem com que o modo de reprodução se reproduza incessantemente. Em outras palavras, sob ideologia, ‘fatos imaginários’ que fazem parte da cultura popular são na verdade instrumentos para a manutenção do modo de produção vigente. 

O exemplo mais nítido desta dinâmica é a ética protestante. Como notado por Max Weber, o espírito de trabalho duro e progresso, até mesmo no que diz respeito às tarefas mais mundanas, foram dignificados durante a Reforma Protestante. 

No entanto, o exemplo mais relevante se relaciona à teoria de propriedade Lockeana. O argumento, apresentado nos Dois Tratados, de que é pecado permitir que terras improdutivas permaneçam desta forma, pois Deus disponibilizou a terra para que ela seja cultivada, serviu como justificativa para as empreitadas coloniais europeias nas Américas. Com base nesta mesma noção, o acúmulo de propriedade se torna algo divino, e as consequências sociais e ambientais deste processo são inteiramente negligenciadas.
Um outro exemplo de naturalização da exploração de recursos naturais é notado pelo historiador americano Lynn-White. Segundo ele, “[na] antiguidade, cada árvore, cada fonte, cada colina tinha seu próprio genius loci, seu guardião espiritual. Destruindo o animismo pagão, o cristianismo assim permitiu a exploração da natureza sob um clima de indiferença no que diz respeito à sensibilidade dos objetos naturais.”

Assim, o cristianismo e a concepção da natureza como objeto de extração, a serviço da humanidade, estão claramente ligados. Obviamente, isto não sugere uma rejeição completa ao cristianismo em si. No entanto, é evidente que para resgatar o meio ambiente e este verdadeiro cristianismo, onde quer que ele esteja, é necessário nos livrarmos deste perverso e impiedoso cristianismo ideológico. 

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