Crise no Líbano: sectarismo ou desigualdade social?

Em meio aos acontecimentos recentes no Líbano, é necessário que enxerguemos soluções que vão além de condenações ao sistema político sectarista do país

Beirute, Líbano
Beirute, Líbano (Foto: REUTERS/Issam Abdallah)
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Leonardo Sobreira, 247 - O caos se instaurou de vez no Líbano. Desde outubro do ano passado vem crescendo uma onda de protestos contra a corrupção e o sistema político do país como um todo. Isso sem contar a explosão no porto de Beirute, que, além de ter deixado em torno de 300.000 pessoas desabrigadas, fortaleceu esse movimento e levou à renúncia de parlamentares, ministros e, mais recentemente, do primeiro-ministro.  

Para termos uma compreensão completa destes eventos é necessário navegarmos pela turbulenta história do país. Tradicionalmente dominada pelos interesses da elite cristã, a política libanesa foi reestruturada radicalmente após a guerra civil (1975-1990). O Acordo de Taif, que marcou o fim do conflito, reequilibrou a condição do país, garantindo mais poder político aos sunitas, mais poder militar aos xiitas e menos poder aos cristãos, através de medidas que diminuíram a influência do Presidente.

No entanto, apesar de aparentemente inofensiva e sensível à diversidade religiosa, a divisão de poderes no Líbano é, segundo diversos analistas internacionais, a causa principal dos problemas que observamos atualmente. Segundo eles, Taif criou um sistema fechado, onde os grupos religiosos favorecem a si através de postos no governo e contratos e serviços sociais exclusivos aos seus apoiadores. 

“A crença religiosa é raramente discutida na política. Na verdade, a discussão ocorre como tentativa de determinar qual grupo religioso ganhará mais poder e favorecerá mais sua própria comunidade, o que infelizmente muitas vezes vem às custas de outras comunidades e do interesse nacional”, declarou Lina Khatib, diretora da Chatham House e pesquisadora na School of Oriental and African Studies, ambos em Londres.

A crise no sistema de coleta de lixo ilustra esse problema. A crise começou em 2015, quando um dos principais aterros do país fechou e o governo falhou em elaborar um plano de contingência. A expansão do sistema de tratamento de lixo, apesar de ter contido o problema temporariamente, agora está se mostrando insuficiente em meio a cenas de acumulação de lixo nas praias do país. 

Muitos apontam para o sistema sectário como a fonte da crise. Por exemplo, o ex-primeiro ministro Saad Hariri, sunita, concedeu contratos multimilionários para a construção de aterros a parentes de assessores do antigo governo. Outro contrato multimilionário foi concedido a Dany Khoury, empresário cristão próximo de Michel Aoun, atual presidente e principal líder cristão do país. Como apontado por Paula Yacoubian, congressista, “o lixo é uma mina de ouro para a casta política.”

A situação é semelhante no que diz respeito à crise energética. O Líbano não produz energia suficiente para abastecer sua população, mas isso não se devem a nenhuma incapacidade estrutural do país de produzir sua própria eletricidade. Na realidade, existe um imenso lobby dos donos de geradores de energia, que abastecem o país durante blackouts, assim como a bilionária indústria do petróleo por trás deles. Uma das peças chaves no esquema é Walid Jumblatt, líder da minoria drusa - uma vertente do Islã. É alegado por diversos congressistas, apesar de não estar provado em definitivo, que o governo recebeu pagamentos destas indústrias. 

Com base nas evidências que emergiram até o momento, não é possível enquadrar a explosão no porto de Beirute como corrupção determinada por preferências religiosas. No entanto, anos de negligência, inegavelmente, fizeram com que o nitrato de amônio estivesse presente no porto desde 2013. Isso, como admitido pelo próprio ex-primeiro-ministro, Hassan Diab, se deve à “corrupção endêmica”, “maior que o próprio Estado.”

Estes casos fizeram com que milhares de manifestantes tomassem as ruas do país, em protestos que, desde outubro de 2019, só vem aumentando e radicalizando suas pautas. Mas, em meio ao caos, é necessário que nos perguntemos sobre qual é de fato a melhor estratégia. 

De acordo com Rima Majed, da American University of Beirut, a situação no Líbano remete mais aos seus problemas políticos e econômicos do que à religião em si. 

Para ele, “apesar do fato de que a maioria das análises da sociedade libanesa focam no sectarismo, essas geralmente falham em tratar sobre os fatores políticos e econômicos que na verdade estão por trás do sectarismo.” 

Somente alguns grupos se tornam politicamente salientes, e o que está por trás deste processo são as circunstâncias políticas e econômicas de cada grupo. “A mobilidade ascendente da comunidade xiita através da urbanização e migração transformou muitas figuras xiitas em investidores chave e em atores proeminentes na economia libanesa. Semelhantemente, as políticas de reconstrução neoliberais de Hariri [pai do ex-primeiro ministro] após a guerra civil reestruturaram as relações de classe em Beirute, criando uma nova classe de elites econômicas que emergiram às custas dos antigos latifundiários e empresários de Beirute (majoritariamente cristãos e sunitas).”

Para Majed, essa mudança demográfica, propulsionada por uma dinâmica econômica diferente, explica o fato de Taif ter redistribuído o poder no país de forma tão radical. Ele conclui: “Como em qualquer outro lugar, o conflito no Líbano é essencialmente econômico e político; o conflito assume formas diferentes quando cruza com identidades, mas esse cruzamento não o torna essencialmente uma guerra identitária.”

É justamente esse o risco que a análise típica sobre corrupção no Líbano corre. Ao reduzir o conflito à simples intenção de um certo grupo de favorecer a sua base, a porta se abre para que soluções como a defendida pelos manifestantes - entre outras, a de liquidar o sistema de divisão do poder - ganhem popularidade. 

Por contrapartida, uma análise como a de Majed sugere outros caminhos que podem ser mais efetivos. Sendo o problema centralmente político e econômico, logicamente, soluções devem ter por objetivo alterar as estruturas de poder que levam à situação atual.

Um deles é um trabalho para que se reduza a desigualdade e entre grupos religiosos no país. Outro caminho talvez seja a desassociação gradual entre política e religião, através da criação de um sistema que represente todos os grupos, mas que não abra brechas para a criação de comunidades tão fechadas, como é o caso atualmente.

No entanto, o mais importante seria não permitir que houvesse qualquer interferência internacional no Líbano. Somente desta forma seria possível evitar que potências como os Estados Unidos, União Europeia e Rússia favoreçam um determinado grupo, em detrimento do restante da população. Isso se torna imperativo quando levamos em consideração os fatos de que a administração Trump interpretou a explosão como um “ataque terrível” e de que o presidente francês, Emmanuel Macron, viajou ao Líbano prometendo assistência ao país. 

Desta forma, o combate à corrupção deve ser visto através das lentes do neocolonialismo. Não é viável enxergarmos os esforços internacionais como meras medidas humanitárias. Por trás destes, historicamente, sempre esteve um plano nefasto de dominação por proxy. No final das contas, como de costume, a população libanesa sofrerá enquanto as elites do país se enriquecerão caso este se materialize.  

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