“Raramente vi um país onde a elite tem tanto desprezo pelos pobres como o Brasil”, diz Noam Chomsky

Intelectual e ativista, considerado o maior pensador dos últimos tempos, Noam Chomsky vê na política econômica de Paulo Guedes a expressão máxima do desprezo pelos pobres. Em entrevista exclusiva à TV 247, ele afirmou que o ódio à classe trabalhadora é “enraizado” na elite brasileira. Assista

Noam Chomsky alerta: “o Brasil pode não estar mais entre nós dentro de algumas décadas”
Noam Chomsky alerta: “o Brasil pode não estar mais entre nós dentro de algumas décadas” (Foto: Divulgação)
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247 - O intelectual e ativista Noam Chomsky, um dos maiores pensadores da atualidade, afirmou, em entrevista exclusiva à TV 247, que a elite brasileira possui um ódio “enraizado” contra os mais pobres e a classe trabalhadora. Chomsky vê no avanço da política econômica de Paulo Guedes a expressão máxima do desprezo pelos pobres.

“O Brasil é uma espécie de caso especial. Raramente vi um país onde elementos da elite têm tanto desprezo e ódio pelos pobres e pelo povo trabalhador. É enraizado. Não pretendo saber muito sobre isso, mas pela minha limitada experiência, foi isso que vi”, afirmou.

Para ele, o avanço das privatizações significa uma “transferência de poder” da esfera pública para a esfera privada, que não possui a obrigação social de beneficiar a população. A privatização dos Correios, por exemplo, é mais um passo na “destruição do país”, explicou o professor.

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“Você tem uma das pessoas que atualmente está empenhada em destruir o Brasil, Paulo Guedes é um grande expoente disso. Ouvi da minha esposa, que é brasileira e me mantém informado sobre os assuntos brasileiros, que o último esforço é privatizar os Correios, pelo menos as partes lucrativas dos Correios. O público pode pagar pelas partes que apenas servem o público e não fazem dinheiro, mas as partes que fazem dinheiro, entregue-as ao poder privado. Essa é a fórmula do Guedes, privatizar tudo. Se lembra disso? Essa era a fórmula, então, isso significa entregar tudo ao poder privado e ao capital internacional. Uma maneira de destruir um país. Ele tinha prática nisso, tendo trabalhando sob a ditadura de Pinochet, que, na verdade, destruiu o país. Vemos o que está acontecendo agora no Chile como um esforço para resgatar algo dos destroços, mas o neoliberalismo faz isso em escala internacional. Por isso danificou gravemente a democracia, em quase todos os lugares, e por razões perfeitamente óbvias. O problema com o governo é que ele responde parcialmente à opinião popular, não totalmente é claro, mas pelo menos responde de alguma forma. Portanto, isso é ruim. ‘Temos que mover o poder das concentrações privadas de poder, que não têm nenhuma responsabilidade, nenhuma prestação de contas’”, explicou.

“Na verdade, isso foi explicitado pelo guru do movimento neoliberal, a pessoa de quem o seu amigo Paulo Guedes aprendeu Economia. Ele escreveu um artigo famoso que diz que as corporações têm uma única responsabilidade, o lucro, gerar lucro para si mesmas. As corporações são, na verdade, um presente do público. Incorporar é um presente significativo ao contribuinte, você ganha muitos benefícios com isso. Não quer aceitar, ou não gosta? Forme uma parceria, dê o presente. Mas deste presente, de acordo com as doutrinas do Friedman (Milton) e do Guedes, você não tem nenhuma responsabilidade. Somente se enriqueça, nenhuma responsabilidade com o público, com a força de trabalho, com nada”, prosseguiu Chomsky.

Ao empobrecer o povo, as elites compreendem profundamente o conceito de luta de classes. O rebaixamento dos mais pobres, através da política de Guedes, favorece a manutenção das classes dominantes no poder, explicou o professor. 

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“As classes de negócios são marxistas dedicados. Eles pensam que o mundo é gerido pela guerra de classes e que eles vão ganhá-la. Os valores estão invertidos, mas é basicamente a mesma ideia. E se eles tiverem a guerra de classes só para eles, é muito fácil prever o que vai acontecer”.

“O Brasil pode não estar mais entre nós”

Chomsky deu um forte alerta sobre a devastação da Amazônia, que, no governo Bolsonaro, atingiu níveis históricos. De acordo com ele, o Brasil pode se tornar um completo “deserto” caso medidas radicais para proteger o bioma não sejam tomadas.

“Mais grave ainda é que cientistas brasileiros descobriram recentemente que a parte sudeste da Amazônia já passou de um sequestrador de carbono para um emissor de carbono, muitas décadas antes do esperado, muito antes. Isso vai se estender pelo resto da Amazônia, especialmente se Bolsonaro for capaz de continuar sua política de destruir a Amazônia, seguindo o interesse de mineradores e fazendeiros ricos. Então, o que isso vai fazer ao Brasil? Bem, vai transformá-lo num deserto. A redução drástica das chuvas e o aumento da já grave seca torna áreas agrícolas maiores basicamente inutilizáveis. Também é um grave prejuízo para o mundo inteiro, mas particularmente para o Brasil. Esses são problemas que não podem ser adiados. A menos que o Brasil seja capaz de lidar com esses problemas, ele não estará mais entre nós dentro de algumas décadas de qualquer forma viável. Portanto, claro, também significa genocídio para a população indígena, que está lutando duro e tentando ser ouvida, suplicando por algum apoio. Só que, da vista aérea, a ironia é indescritível. Estas são as pessoas que têm preservado os recursos nas florestas. Agora, são eles que estão sendo dizimados pela nossa destruição dos recursos. Quero dizer, se há alguma história -- e não sei se haverá-- e as pessoas olharem para trás, eles não saberão como descrever”, alertou.

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