A batalha de Pinochet contra a cultura
"Não se preocupe, já queimamos os livros"
Por Gabriela Máximo e Javier M. González - No dia 28 de novembro de 1986, um carregamento de livros que acabara de desembarcar no porto chileno de Valparaíso foi confiscado por ordem do governo militar. Angustiado, o editor Arturo Navarro, que esperava os exemplares para levá-los à Feira do Livro de Santiago, correu para a sede do comando militar na cidade portuária, a 120 quilômetros de Santiago, para tentar a liberação. Navarro se surpreendeu com um aparato de segurança incomum àquelas alturas da ditadura, que terminaria quatro anos depois. Sacos de areia formavam trincheiras e soldados armados em uniforme de campanha vigiavam os arredores. O editor foi recebido por um oficial militar que fez uma série de ligações telefônicas e ao final lhe aconselhou com uma dose de sarcasmo: “Senhor Navarro, não se preocupe. Já queimamos os livros”.
E assim viraram cinzas 14.846 exemplares de “A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile”, livro então recém-lançado do prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez. O livro narrava as peripécias reais do cineasta chileno exilado que voltou a seu país clandestinamente para gravar o documentário “Acta Central de Chile”. Uma história que impressionou o autor de “Cem anos de solidão”. Em 1985, Littín entrou disfarçado no Chile e por vários dias gravou registros do país que já levava 12 anos sob a ditadura do general Augusto Pinochet. Sua aventura narrada por García Márquez foi vítima de uma das últimas grandes queimas de livros promovida pelo regime militar, uma prática adotada com frequência desde os primeiros dias. Por 17 anos, o governo Pinochet promoveu um massacre à cultura e empreendeu todos os esforços possíveis para apagar da consciência cultural dos chilenos tudo o que dissesse respeito ao governo socialista deposto da Unidade Popular.
Escritores, cineastas, cantores, compositores, os artistas foram alvo de censura e perseguição tão logo a Junta Militar assumiu após o golpe que depôs o governo socialista de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Muitos se exilaram, entre os quais Littín. Foi estabelecida a censura prévia aos meios de comunicação e editoras de livros. A ordem militar N 107, de 1977, informava que apenas a Junta Militar tinha a faculdade de autorizar a importação e a comercialização de livros, revistas e impressos em geral. No sexto andar do edifício Diego Portales, onde estava instalada a Junta, operava o Departamento de Avaliação, que decidia o que podia ou não ser publicado. Dos 11 jornais que havia antes do golpe, apenas quatro sobreviveram. Os meios de comunicação de esquerda ligados ao regime de Allende, por motivos óbvios, desapareceram.
Os militares assumiram o controle das universidades, consideradas pelo regime golpista como centros de doutrinação marxista. Houve um expurgo generalizado de professores e alunos suspeitos, e alteração dos currículos, sobretudo nas áreas de ciências sociais. As bibliotecas sofreram um escrutínio rigoroso. Livros considerados subversivos foram queimados nos pátios das universidades na presença de professores e alunos, como medida intimidatória.
Milhares de livros foram queimados no Chile, muitos por seus próprios donos, temerosos de serem acusados de possuir literatura subversiva. A autocensura confirmava o triste êxito da repressão. No dia 23 de setembro, doze dias depois do golpe, houve uma queima em massa de livros a céu aberto, em plena luz do dia na rua Paraguay, no Centro de Santiago. Os militares fizeram questão de ostentar o ato de barbárie, que foi coberto pela imprensa oficial.
No dia seguinte, fotos da fogueira infame estamparam os jornais. Arderam por 14 horas desde obras de Marx e outros teóricos socialistas até livros técnicos e literatura de ficção. Entre eles, a poesia de Pablo Neruda, Prêmio Nobel de Literatura (1971), e alvo de perseguição dos militares por suas posições políticas. Neruda morreu neste mesmo 23 de setembro de 1973. O poeta sofria de câncer, mas até hoje paira a dúvida sobre um possível assassinato por envenenamento.
Um dos primeiros alvos dos militares foi a Editora Nacional Quimantú. A editora, criada em 1971 pelo governo Allende, foi uma experiência muito bem-sucedida de democratização do conhecimento. Durante três anos de existência, facilitou o acesso ao livro com políticas de produção e distribuição que reduziam os custos de edição e venda. A política da editora era simples e revolucionária: o livro não podia custar mais do que o maço de cigarros Hilton.
A Editora Quimantú teve tiragens de até 80 mil exemplares que chegavam a lugares do país onde o acesso à leitura era escasso. Além das livrarias, os livros eram vendidos em sindicatos e bancas de jornal localizadas em locais com grande fluxo de estudantes e trabalhadores. Dias antes do golpe, o jovem escritor chileno Roberto Bolaño, que vivia no México desde os 15 anos, chegou a Santiago para trabalhar na editora. No entanto, o golpe frustrou sua reintegração no Chile e, após uma breve detenção, ele retornou ao México. Com o golpe, a Quimantú foi fechada e seus livros foram confiscados.
A "higienização cultural" também teve um aspecto estético. Houve ocupações físicas ou simbólicas de espaços públicos de cultura, como o Museu de Belas Artes. Gonzalo Leiva, professor de Estética e coautor do livro "O Golpe Estético" junto com Luis Errázuriz, lembra em entrevista ao jornal El Mostrador: "Há um caso muito dramático, o da galeria de Paulina Waugh. Foi a primeira galeria privada no Chile e foi incendiada porque exibia quadros de Matta, que havia expressado publicamente sua desaprovação ao regime. Aqui não há violência simbólica, é violência direta." Roberto Matta era um pintor surrealista que apoiava o governo de Allende.
Gonzalo Leiva lembra em seu livro que em junho de 1975 um decreto da Prefeitura de Santiago proibiu "o uso da cor preta ou outras cores violentas nas fachadas, para não perturbar a harmonia do conjunto". A campanha estética começou nos primeiros dias do golpe. O jornal El Mercurio, que se alinhou com o regime, convocou a população a se unir aos esforços das autoridades para limpar as paredes e ruas de Santiago, declarando: "As autoridades do governo informaram sua decisão de implementar um programa que restaure a imagem de limpeza e ordem que a capital da República tinha no passado". A ideia era associar o novo regime à limpeza e ordem, enquanto o governo socialista deposto era associado à desordem e ao caos.
O apagamento cultural se estendeu a todas as formas de arte. Na música, o assassinato do cantor e compositor Victor Jara tornou-se um símbolo. Jara, que apoiava o governo da Unidade Popular, foi levado para o Estádio Nacional de Santiago, torturado e morto com 44 tiros. Seu corpo foi abandonado na rua, exibindo todas as marcas da brutalidade. Para a historiadora chilena Karen Donoso, o caso de Jara possui um significado que vai além da violação dos direitos humanos. "Ele representa a repressão aplicada ao projeto cultural da esquerda chilena", escreveu Karen Donoso em seu livro "Cultura e Ditadura: Censura, Projetos e Institucionalidade Cultural no Chile, 1973-1989".
Donoso relata um episódio em que o produtor musical Camilo Fernandes recebeu a ordem do secretário-geral do governo, o coronel Pedro Edwig, de que as gravadoras deveriam parar de gravar "música que atentasse contra a nova institucionalidade", especialmente o "folclore andino". O resultado foi a retirada dos catálogos das gravadoras e o recolhimento de discos de artistas como Víctor Jara, Violeta Parra, Joan Baez, entre outros, além de grupos como Quilapayún e Inti Illimani. Outras reuniões semelhantes aconteceram em todo o país, como a do mesmo coronel Edwig com o Sindicato dos Folcloristas. Segundo Donoso em seu livro, o militar estabeleceu que tipo de música os folcloristas poderiam ou não divulgar e afirmou que os estaria observando de perto, afirmando: "Nada de flauta, quena ou charango, porque estão associados à luta social".
Como contrapartida, a música folclórica da região central do Chile, sem conotações políticas, foi incentivada pela ditadura. "Los Huasos Quincheros" eram o conjunto favorito de Pinochet. Tratava-se de um quarteto que se opôs abertamente ao governo de Allende. Em fevereiro de 1973, oito meses antes do golpe, estavam programados para se apresentar no último dia do famoso Festival de Viña del Mar, mas sua apresentação foi cancelada para evitar os distúrbios que ocorreram durante a apresentação do Quilapayún em um dia anterior, que resultou em confrontos entre apoiadores e opositores da Unidade Popular.
O cerco à indústria cultural levou muitos artistas ao exílio, e alguns que estavam fora do país foram proibidos de retornar. Isso aconteceu com os grupos Quilapayún e Inti Illimani, que estavam em turnê na França e na Itália, respectivamente. Também aconteceu com o cineasta Patrício Guzmán, autor do monumental documentário "A Batalha do Chile", que é o principal testemunho audiovisual da experiência socialista da Unidade Popular e de seu lento declínio. O diretor e sua equipe deixaram o Chile poucos dias após o golpe. Apenas um deles, Jorge Müller, não conseguiu escapar e até hoje faz parte da longa lista de desaparecidos. O material filmado de "A Batalha do Chile" foi escondido na embaixada sueca e enviado para Estocolmo. Guzmán levou seis anos para editar o enorme material, que foi concluído em Cuba.
Em uma declaração recente ao jornal chileno The Clinic, o diretor observa que mesmo após a democratização em 1990, nenhum distribuidor quis exibir o filme no Chile. Ele arrisca uma explicação para essa rejeição: "Quando eu estiver morto e todos os que aparecem no filme também estiverem mortos, este filme será exibido no maior cinema do Chile. Porque há personagens da Democracia Cristã diretamente envolvidos no golpe de Estado, há personalidades da transição que também não se destacaram em apoio a Salvador Allende, e há colaboradores de Allende que depois o renegaram; portanto, quando todos morrerem, você verá 'A Batalha do Chile' representada de maneira digna."
