Ataque dos EUA à Venezuela muda cálculo estratégico da América do Sul
Professor Oliver Stuenkel diz que ofensiva marca a primeira ação militar direta dos EUA na América do Sul e gera inquietação nas forças armadas da região
247 - Uma análise do professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel aponta que o ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela representa um marco inédito e de grande impacto geopolítico para a América do Sul. Segundo ele, classificar a ofensiva como apenas a primeira intervenção americana na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989, reduz a real dimensão do episódio e suas consequências estratégicas para a região.
Em publicações feitas nas redes sociais, Stuenkel destaca que o elemento central não é a América Latina como um bloco homogêneo, mas o fato de que, pela primeira vez, os Estados Unidos realizaram ataques militares diretos contra um país sul-americano. A avaliação foi divulgada em seu perfil no X (antigo Twitter), onde o professor analisou os desdobramentos regionais da ação americana.
“O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela vem sendo descrito como a primeira intervenção americana na América Latina desde o Panamá, em 1989. Mas esse enquadramento subestima a real dimensão do que está em jogo. A América Latina não é um espaço estratégico único”, escreveu. Em seguida, reforçou o ponto central de sua análise: “O que realmente importa é outra coisa: pela primeira vez, os EUA lançaram ataques militares diretos contra a América do Sul — uma decisão com implicações profundas para toda a região”.
Na avaliação do professor, a comparação com o Panamá não reflete a percepção dos países sul-americanos, especialmente daqueles que ocupam posições geopolíticas relevantes. Ele observa que, para nações como Brasil e Chile, a invasão do Panamá foi vista como um episódio preocupante, porém distante do ponto de vista estratégico e geográfico.
“Do ponto de vista de países como Brasil ou Chile, a invasão do Panamá foi preocupante, mas distante. A Venezuela não é. É um grande país sul-americano, geograficamente central, politicamente influente e dono das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo”, afirmou Stuenkel, ao destacar o peso específico do território venezuelano no equilíbrio regional.
Segundo o professor, a ofensiva americana produz efeitos que vão além do cenário político imediato e alcançam o campo da defesa e da segurança regional. Ele sustenta que a ação obriga as forças armadas de toda a América do Sul a repensarem suas próprias estratégias diante do poder militar dos Estados Unidos.
“Uma ação militar dos EUA nesse contexto obriga forças armadas de toda a América do Sul a reavaliar sua própria vulnerabilidade diante do poder de Washington, algo que vai muito além do caso venezuelano e afeta o cálculo estratégico regional”, escreveu.
Stuenkel também diferencia as reações públicas das avaliações feitas de forma reservada. De acordo com ele, enquanto manifestações oficiais seguem, em grande medida, linhas ideológicas, o ambiente interno entre militares é marcado por apreensão, independentemente do governo em vigor em cada país.
“Em público, as reações seguem a ideologia — a direita comemora, a esquerda critica. Nos bastidores, porém, militares de toda a região, independentemente do governo, veem o precedente com inquietação, acelerando debates sobre redução da dependência dos EUA”, concluiu.
A análise do professor reforça a percepção de que o ataque à Venezuela pode redefinir parâmetros de segurança e defesa na América do Sul, criando um precedente que influencia decisões estratégicas de longo prazo e amplia o debate sobre autonomia regional em matéria militar.
