Candidatura presidencial única pela oposição mexicana abre um cenário político inédito
A conservadora Xóchitl Gálvez, do PAN, pretende ser a primeira presidente mulher na história do México. AMLO classificou nomeação como "farsa"
Por Jorge Pailhé (Télam) - A seleção por meio de pesquisas da conservadora Xóchitl Gálvez como única candidata presidencial da oposição no México para as eleições de junho de 2024 abriu um cenário político inédito no país. Isso porque o histórico Partido Revolucionário Institucional (PRI) não terá um candidato próprio pela primeira vez em seus 93 anos de história, além de haver muitas possibilidades de que a disputa seja resolvida entre duas mulheres.
A confirmação da candidatura da senadora Gálvez, de origem indígena e membro do Partido de Ação Nacional (PAN), anunciada pelo próprio presidente do PRI, Alejandro Moreno, gerou numerosos comentários na imprensa mexicana. Isso porque até o próximo domingo havia tempo para confirmar a tendência favorável à agora candidata, em detrimento das aspirações da candidata do PRI, também senadora Beatriz Paredes.
Gálvez é uma engenheira de origem indígena de 60 anos e pretende ser a primeira presidente mulher na história do México, algo que compartilha com a ex-prefeita da capital, Claudia Sheinbaum.
A aliança opositora que tentará tirar o poder do Movimento de Renovação Nacional (Morena) é complementada pelo Partido Revolucionário Democrático (PRD), criado em 1989 como uma cisão do PRI e do qual, por sua vez, se separou o atual presidente Andrés Manuel López Obrador para fundar a força hoje governante.
O presidente, conhecido popularmente por suas iniciais, AMLO, classificou como uma "farsa" a nomeação de Gálvez, oficializada depois que o resto dos aspirantes renunciaram em favor dela.
"O melhor é sempre a democracia, e o que vimos agora foi uma comédia, uma farsa", disse em sua coletiva de imprensa diária.
"Não se deixem enganar, sempre é preciso combater a simulação", acrescentou sobre o fato de que a senadora Paredes renunciou ontem, quatro dias antes de o prazo para a consulta se esgotar.
O governo atualmente tem em andamento seu próprio sistema de pesquisas para definir sua candidatura presidencial, que será conhecida na próxima quarta-feira, após três dias do fim da consulta popular correspondente.
Sheinbaum, Marcelo Ebrard, Adán Augusto López, Ricardo Monreal, Gerardo Fernández Noroña e Manuel Velasco Coello são as opções preferidas dos morenistas, mas apenas a ex-prefeita da Cidade do México e o ex-chanceler Ebrard têm chances concretas de serem nomeados.
Uma última pesquisa do jornal Reforma indica que Sheinbaum teria 37% de apoio, 11 pontos percentuais a mais que Ebrard, um velho companheiro de jornada de AMLO.
O atual mandatário - a figura pública com maior apoio popular do país, apesar do desgaste que cinco anos no poder implicam - e Ebrard inauguraram em 2012 o processo de nomeação partidária por meio do sistema de pesquisas para definir quem seria o candidato pelo PRD nas eleições daquele ano.
Naquela ocasião, López Obrador venceu por uma margem estreita e foi para as eleições, nas quais foi derrotado pelo candidato do PRI, Enrique Peña Nieto, que governou de 2012 a 2018.
O analista político e economista mexicano Fidel Carlos Flores comentou à Télam que tudo indica que a eleição será decidida entre Sheinbaum e Gálvez, com um prognóstico de vitória para a candidata oficialista.
Nesse sentido, Flores concordou com outra pesquisa de Reforma, segundo a qual, se a eleição fosse hoje, 46% se inclinariam a favor de Sheinbaum e 31% por Gálvez, enquanto 23% dos entrevistados não responderam.
O analista, diretor do portal Interés Público, avaliou em consulta a esta agência que a não apresentação de um candidato ou candidata do PRI está relacionada com o fato de que o tradicional partido político mexicano "se afogou na soberba que o poder proporciona".
"É uma consequência do afastamento das causas populares que o PRI teve; desconectou-se das necessidades das pessoas com um presidente como Peña Nieto, que era uma invenção da (emissora) Televisa, um produto de marketing", acrescentou.
Peña Nieto teve um mandato errático que não conseguiu reduzir os altos índices de violência que o México sofre desde 2006, quando o conservador Felipe Calderón inaugurou uma política de "guerra frontal ao narcotráfico" que resultou em um número inédito de mais de 100.000 mortos, vítimas dos abusos das forças institucionais e das gangues criminosas ao longo de seu mandato (2006-2012).
Durante o mandato de Peña Nieto, ocorreu o notório caso do desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, no estado de Guerrero, em 27 de setembro de 2014, que teve repercussão mundial.
Em relação a por que a candidata ou o candidato do Morena ganharia as eleições, Flores argumentou à Télam que a gestão de AMLO teria uma incidência fundamental, além das virtudes de Sheinbaum ou de Ebrard.
"López Obrador fez 70% do que prometeu em sua campanha, implementou uma ampla política que é reconhecida no âmbito socioeconômico. É um homem que já entrou para a história mexicana", concluiu.
