Comunidade no Peru dá ultimato ao governo e ameaça buscar integração ao Brasil
O posicionamento foi anunciado por lideranças do povoado
247 - Uma comunidade indígena localizada no extremo norte do Peru lançou um ultimato ao governo central e passou a admitir publicamente a possibilidade de se integrar ao território brasileiro. O posicionamento foi anunciado por lideranças do povoado de Bellavista Callarú, situado na região de Loreto, na tríplice fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia, que deram prazo de 30 dias para que o Estado peruano responda a uma série de reivindicações consideradas urgentes.
As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, que detalhou as denúncias de abandono institucional feitas pelos moradores da localidade, habitada majoritariamente por indígenas da etnia ticuna. Segundo a comunidade, a ausência do poder público abriu espaço para a atuação de organizações criminosas ligadas ao narcotráfico, que operariam livremente na região.
O ultimato foi anunciado pelo líder comunitário Desiderio Flores Ayambo, que afirma não haver presença efetiva do Estado na fronteira. Em entrevista ao jornal peruano La Región, ele declarou: "Se não houver uma resposta concreta, consideraremos alternativas drásticas, incluindo a anexação ao Brasil".
Bellavista Callarú fica no distrito de Yavarí, na província de Mariscal Ramón Castilla, uma das áreas mais sensíveis da Amazônia peruana. De acordo com relatos locais, o abandono governamental favoreceu uma escalada de violência, marcada por assassinatos, extorsões, ameaças e casos de sicariato, termo usado para descrever a contratação de assassinos de aluguel.
A precariedade dos serviços públicos é apontada como uma das principais causas do descontentamento. A comunidade não dispõe de policiamento permanente, sistema de Justiça, atendimento de saúde adequado nem infraestrutura educacional suficiente. Em entrevista à rádio RPP, Flores afirmou que nenhuma autoridade de alto escalão visitou a localidade. "O único que nos visitou foi o deputado Edwin Martínez, a quem pedimos ajuda porque também há necessidades aqui", disse.
Na área da saúde, a situação é descrita como crítica. A unidade local funciona apenas com dois técnicos, sem médicos ou obstetras. Em casos mais graves, pacientes precisam ser transferidos para outras cidades ou até para o Brasil. “Quando uma mãe está grave, mandam para Santa Rosa e depois para o Brasil. O que fazemos nós?”, questionou o líder comunitário.
O sistema educacional também enfrenta dificuldades severas. Há apenas uma escola com dez salas de aula, obrigando alunos do ensino fundamental e médio a dividirem os mesmos espaços ou a estudarem em locais improvisados, como refeitórios e auditórios. Segundo autoridades locais, mais de 90 estudantes do ensino médio e cerca de 200 do fundamental convivem diariamente com a falta de estrutura.
O isolamento em relação ao restante do Peru se reflete até na economia cotidiana. De acordo com Flores Ayambo, o sol peruano praticamente deixou de circular na comunidade. "Aqui nós não vemos a moeda peruana, é tudo brasileira e colombiana", afirmou, ao descrever o distanciamento econômico e simbólico do país.Além das demandas imediatas, os moradores cobram a criação oficial do distrito de Bellavista Callarú, processo que, segundo o líder comunitário, está paralisado há mais de dois anos no Ministério das Relações Exteriores. "A criação do distrito permitiria instalar o Estado, controlar o território e oferecer serviços para frear o narcotráfico", declarou.
Apesar do tom duro do ultimato, Flores afirma que a comunidade não deseja romper com o Peru, mas exige uma resposta rápida e concreta do governo. Caso o prazo não seja cumprido, a busca por alternativas, incluindo a possibilidade de integração ao Brasil, passaria a ser considerada de forma mais direta. "Somos governados pelo Brasil e por dinheiro colombiano", resumiu, ao retratar a realidade de uma fronteira onde, segundo ele, o Estado peruano praticamente não existe.