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Pressão de Trump sobre Cuba leva cubanos a cozinhar com carvão e enfrentar apagões

Escassez de combustível e falhas estruturais reacendem temores do Período Especial e ampliam desigualdades no cotidiano da ilha

Pressão de Trump sobre Cuba leva cubanos a cozinhar com carvão e enfrentar apagões (Foto: Granma)

247 - A crise energética que atinge Cuba, marcada por apagões prolongados e escassez de combustível, tem alterado profundamente a rotina da população e foi agravada nas últimas semanas pela pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para restringir o acesso da ilha ao petróleo. Em bairros periféricos de Havana, famílias recorrem a fogões improvisados e à solidariedade entre vizinhos para garantir refeições básicas.

A reportagem é da BBC Brasil e retrata esse cotidiano a partir da história de Elizabeth Contreras, que mexe o carvão em um fogão improvisado sobre blocos de cimento no quintal de casa, em um município a sudoeste da capital. Na grelha, pedaços de frango que alimentarão três famílias do bairro. “Muitas pessoas têm cozinhado assim há dias porque a panela elétrica quase não funciona sem eletricidade e resta pouco gás”, disse à BBC Mundo.

Segundo ele, a situação tem levado os moradores a se apoiar mutuamente diante da incerteza. “Nós nos ajudamos mutuamente como vizinhos nesta incerteza”, acrescentou o aposentado de 68 anos, que relata cortes frequentes de energia e dificuldades crescentes para cozinhar, se deslocar e manter a rotina.

O agravamento da crise coincidiu com a intensificação da pressão dos EUA após a captura de Nicolás Maduro, em Caracas, em 3 de janeiro. O governo Trump passou a adotar medidas para dificultar o fornecimento de petróleo à ilha, incluindo esforços para impedir que Cuba receba combustível da Venezuela e para reduzir o volume de petróleo bruto enviado pelo México, além da ameaça de impor tarifas a países exportadores.

Em discurso no dia 5 de fevereiro, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel reconheceu o cenário adverso e anunciou um plano extraordinário de economia de energia. “Vamos viver tempos difíceis”, afirmou, ao detalhar ações como racionamento da venda de combustíveis, priorização de serviços essenciais, incentivo ao teletrabalho e adoção de aulas híbridas nas universidades.

Para muitos cubanos, a situação atual evoca memórias do Período Especial dos anos 1990, após o colapso da União Soviética. Contreras afirma que, embora aquela crise nunca tenha sido totalmente superada, o momento atual parece mais severo. “Mas o que está acontecendo agora me parece mais sério”, disse. Ele lembra que, “assim como há três décadas”, o país voltou a enfrentar apagões de até 18 horas.

O historiador Michael Bustamante, professor associado de estudos cubano-americanos na Universidade de Miami, pondera que o impacto econômico hoje é diferente em termos macroeconômicos. “Entre 1991 e 1994, o PIB despencou mais de um terço. Desde a pandemia, estima-se que a queda seja de 11%. Não existe uma queda dessa magnitude”, afirmou à BBC Mundo. Ainda assim, avalia que a crise atual é sentida como mais dura por partir de uma economia já fragilizada. “Existe uma desigualdade desenfreada que pouco tem a ver com o que foi vivenciado na década de 90”, acrescentou.

No cotidiano, a adaptação mistura criatividade e desgaste. A usuária cubana do TikTok @darlinmedina93 relatou em vídeo as dificuldades de cozinhar com lenha e carvão. “Não é fácil, meu amor, ter que lutar todos os dias para cozinhar com carvão, lenha, com a casa cheia de fuligem e sufocando com a fumaça”, disse. Jennifer Pedraza*, trabalhadora e estudante de 34 anos, contou que passou a estocar lâmpadas e carregadores recarregáveis. “Também armazeno água, que está a ficar sem”, afirmou à BBC Mundo.

A escassez afeta transporte, trabalho e educação. Pedraza disse que deixou de fazer uma prova universitária por falta de meios para chegar ao campus e demonstrou preocupação com o filho de 9 anos. “Quase nunca há eletricidade na escola, e quando ele sai, precisa fazer a lição de casa e revisar a matéria no escuro”, relatou. Para quem não recebe remessas do exterior, o impacto é maior, diante de um salário médio mensal de 6.830 pesos cubanos, cerca de US$ 14 no mercado informal.

No campo político, Díaz-Canel declarou que “Cuba está disposta a dialogar com os EUA sobre qualquer assunto”, mas “sem pressão”. Bustamante avalia que o endurecimento americano tende a repetir um padrão histórico. “O estrangulamento econômico de Cuba pelos EUA nunca funcionou. Empobrece a população e a afeta muito mais do que ao governo”, afirmou. Entre os cubanos, persiste a sensação de incerteza sobre os próximos desdobramentos. “Algumas pessoas dizem que o que aconteceu na Venezuela poderia acontecer aqui, embora ninguém goste de ouvir falar de balas e bombas”, disse Contreras.

(* Os nomes reais das testemunhas foram omitidos para proteger suas identidades.)