Protestos desafiam aliados de Trump e ampliam tensão política na América Latina
Manifestações na Bolívia e no Chile, eleições decisivas e pressão dos EUA expõem cenário de instabilidade e polarização na região
247 - Apesar do avanço de governos de direita em diversos países latino-americanos nos últimos anos, administrações alinhadas às diretrizes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrentam crescente desgaste político e social. Em nações que passaram recentemente por mudanças de comando, manifestações populares e disputas institucionais têm colocado em xeque a estabilidade de governos considerados próximos de Washington.
As informações foram publicadas originalmente pelo portal Metrópoles e apontam que Bolívia e Chile se tornaram os exemplos mais recentes desse cenário. Em ambos os países, protestos de rua ganharam força contra medidas adotadas por presidentes que chegaram ao poder com promessas de transformação econômica e política.
Na Bolívia, a crise política se intensificou poucos meses após a posse de Rodrigo Paz. Ele assumiu a Presidência em novembro de 2025, encerrando duas décadas de predominância da esquerda no país. Sua vitória foi construída por meio de uma aliança com Edmand Lara, vice-presidente que desempenhou papel importante no diálogo com setores populares bolivianos.
Protestos pressionam governo boliviano
Desde o início de maio, manifestantes ocupam as ruas de diversas cidades bolivianas exigindo a renúncia de Paz. Entre os principais motivos de insatisfação estão medidas voltadas ao fortalecimento do agronegócio e da indústria, além de uma proposta legislativa que poderia reduzir a proteção de terras indígenas e camponesas.
Diante da pressão popular, o governo recuou em alguns pontos. A administração boliviana revogou a lei relacionada às terras indígenas e camponesas, promoveu mudanças ministeriais e anunciou a redução do salário presidencial. As iniciativas, porém, não foram suficientes para conter os protestos.
Enquanto os atos continuam, cresce a preocupação com a possibilidade de endurecimento das respostas estatais. Isso porque um projeto relacionado à implementação de estado de exceção avançou no Legislativo boliviano, abrindo espaço para eventual atuação mais rigorosa das Forças Armadas.
Apoio dos Estados Unidos ao governo de Paz
Apesar das mobilizações populares, o governo norte-americano classificou os protestos como uma tentativa de golpe de Estado. A posição recebeu respaldo do Escudo das Américas, coalizão militar apoiada pelos Estados Unidos, que manifestou apoio à administração de Rodrigo Paz.
A aliança foi criada no início de 2026 com o objetivo declarado de combater o narcotráfico na América Latina. Atualmente, reúne Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trindade e Tobago.
O fortalecimento dessa articulação regional é uma das prioridades da política externa norte-americana para o continente, especialmente durante o segundo mandato de Trump, cuja estratégia tem buscado ampliar a cooperação com governos alinhados ideologicamente a Washington.
Ajuste fiscal provoca reação no Chile
No Chile, o foco das manifestações está relacionado à política econômica do presidente José Antonio Kast, que assumiu o cargo em março deste ano. O governo lançou um programa de ajuste fiscal que prevê cortes de aproximadamente US$ 6 bilhões em despesas públicas ao longo de 18 meses.
A proposta inclui uma redução de quase 3% nos orçamentos de todos os ministérios chilenos. Segundo o governo, o objetivo é equilibrar as contas públicas e estimular o crescimento econômico.
As medidas, contudo, desencadearam protestos liderados principalmente por estudantes e professores. Os manifestantes argumentam que os cortes representam riscos para áreas essenciais, especialmente educação e saúde.
Marco Rubio aposta em expansão de aliados
Em meio às turbulências políticas na região, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou esperar mudanças políticas capazes de ampliar a influência de governos alinhados a Washington.
Durante audiência no Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, Rubio comentou a expansão do Escudo das Américas e declarou: “Mais de 14 países do hemisfério se juntaram à nossa aliança contra o terrorismo, o narcotráfico e para assuntos de segurança”.
Na sequência, acrescentou: “Acreditamos que este número deve aumentar nos próximos meses, à medida que as eleições mudem a liderança em vários países”.
Especialista analisa avanço da direita
Para o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Senior Fellow do Instituto de Pesquisas Estratégicas em Relações Internacionais e Diplomacia (IPERID), Elton Gomes, as declarações de Rubio refletem uma tendência política observada em diversas partes do mundo.
Segundo ele, “O objetivo do grupo político do qual faz parte o secretário Marco Rubio é criar condições para que aliados ideológicos do trumpismo sejam eleitos pelo mundo afora, porque entende que esse é o esforço internacional de promoção de ideias nacional populistas”.
A avaliação ocorre em um momento em que partidos e lideranças conservadoras ampliaram sua presença em diferentes países, influenciando debates sobre segurança, imigração, economia e soberania nacional.
Eleições podem redefinir equilíbrio regional
O cenário latino-americano também será impactado por importantes disputas eleitorais previstas para as próximas semanas. No Peru, os eleitores participam do segundo turno presidencial neste domingo (7), em uma disputa entre Roberto Sánchez, ligado à esquerda e aliado do ex-presidente Pedro Castillo, e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori.
Pesquisas recentes indicam empate técnico entre os dois candidatos, aumentando a expectativa sobre o resultado da votação e seus reflexos para a política regional.
Na Colômbia, o segundo turno está marcado para 21 de junho. A disputa envolve Abelardo de la Espriella, representante da extrema direita, e Ivan Cepeda, candidato da esquerda. No primeiro turno, Espriella recebeu 43,7% dos votos válidos, enquanto Cepeda alcançou 40%.
Brasil também entra no radar político
O Brasil aparece como outro foco de atenção para observadores internacionais. Embora a eleição presidencial esteja prevista apenas para outubro, pesquisas já apontam uma disputa polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência.
Paralelamente, as relações entre Brasília e Washington atravessam momentos de tensão. Entre as medidas recentes adotadas pelos Estados Unidos está a classificação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Analistas e integrantes do governo brasileiro avaliam que a decisão pode abrir espaço para futuras iniciativas norte-americanas sob o argumento do combate ao chamado “narcoterrorismo”. Além disso, a intenção anunciada pelos Estados Unidos de restabelecer tarifas de 25% sobre determinados produtos brasileiros reacendeu atritos diplomáticos entre os dois países.
