Raúl Castro é indiciado nos Estados Unidos em nova escalada contra Cuba
Acusação contra ex-presidente cubano estaria ligada à derrubada de aviões de exilados em 1996 e amplia pressão do governo Donald Trump sobre Havana
247 - O ex-presidente de Cuba, Raúl Castro, foi indiciado nos Estados Unidos, segundo informou a agência Reuters nesta quarta-feira (20), em mais um capítulo da crescente tensão entre Washington e o governo cubano. A medida ocorre em meio à política de endurecimento adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a ilha caribenha.
De acordo com a Reuters, um alto funcionário do governo norte-americano confirmou o indiciamento, embora os detalhes da acusação ainda não tenham sido oficialmente divulgados. O Ministério das Relações Exteriores de Cuba não comentou imediatamente o caso.
As acusações contra Raúl Castro, de 94 anos, estariam relacionadas a um episódio ocorrido em 1996, quando aviões operados por um grupo de exilados cubanos foram abatidos por caças de Cuba. A informação foi revelada à Reuters por um integrante do Departamento de Justiça dos EUA, sob condição de anonimato.
O gabinete do procurador federal em Miami anunciou para esta quarta-feira uma cerimônia em homenagem às vítimas do incidente. O Departamento de Justiça também informou que faria um anúncio paralelo ao evento, sem antecipar detalhes.
Em comunicado divulgado nesta quarta-feira, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos não aceitarão a atuação de governos considerados hostis próximos ao território norte-americano.
“Os Estados Unidos não tolerarão um estado pária que abrigue operações militares, de inteligência e terroristas estrangeiras hostis a apenas 145 quilômetros do território americano”, declarou Trump.
A nova ofensiva judicial acontece em um momento de forte deterioração das relações entre os dois países. O governo Trump vem intensificando as sanções contra Cuba, incluindo medidas que dificultam o fornecimento de combustível à ilha. Segundo autoridades cubanas, isso tem agravado a crise energética e econômica enfrentada pelo país.
Na segunda-feira (18), o presidente cubano Miguel Díaz-Canel rebateu as acusações de Washington e afirmou que Cuba não representa ameaça aos Estados Unidos. Já em março, Trump havia elevado o tom contra Havana ao declarar que “Cuba é a próxima” após ações tomadas contra a Venezuela.
Díaz-Canel também advertiu que uma eventual ação militar norte-americana contra Cuba provocaria um “banho de sangue”.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, divulgou uma mensagem em vídeo direcionada ao povo cubano na manhã desta quarta-feira. Falando em espanhol, Rubio ofereceu uma nova relação entre os dois países e anunciou a possibilidade de ajuda humanitária de US$ 100 milhões.
Segundo ele, alimentos e medicamentos deveriam ser distribuídos pela Igreja Católica ou por grupos de caridade considerados confiáveis.
O chanceler cubano Bruno Rodríguez reagiu duramente às declarações de Rubio e o classificou como “porta-voz de interesses corruptos e vingativos”. Apesar das críticas, Rodríguez não descartou completamente a possibilidade de aceitar a ajuda oferecida pelos Estados Unidos.
“Ele continua falando sobre um pacote de ajuda de 100 milhões de dólares que Cuba não rejeitou, mas cujo cinismo é evidente para qualquer pessoa diante do efeito devastador do bloqueio econômico e do estrangulamento energético”, escreveu Rodríguez na rede social X.
Raúl Castro é uma das figuras centrais da Revolução Cubana de 1959, liderada ao lado de seu irmão Fidel Castro, que derrubou o ditador Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos. Também teve papel importante na derrota da invasão da Baía dos Porcos, organizada pelos norte-americanos em 1961.
Após anos como ministro da Defesa, Raúl assumiu oficialmente a presidência de Cuba em 2008, depois do afastamento de Fidel por problemas de saúde. Fidel Castro morreu em 2016. Embora tenha deixado a presidência em 2018, Raúl Castro segue sendo uma figura influente na política cubana.
O caso lembra a acusação por narcotráfico feita anteriormente pelos Estados Unidos contra o ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro, aliado histórico de Havana. O governo Trump utilizou aquela acusação como justificativa para a operação militar realizada em Caracas, em janeiro deste ano, que terminou com a captura de Maduro e sua transferência para Nova York. O ex-líder venezuelano se declarou inocente das acusações.
