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Francisco Calmon

Combatente da ditadura desde a adolescência, prisioneiro nos cárceres da ditadura do Doi-Codi ao HCE. Advogado, administrador e analista de TI. Organizador da RBMVJ e do Canal Pororoca.  Autor e organizador de vários livros, entre eles “60 anos do golpe: gerações em luta”.

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10 anos de um golpe que desviou o Brasil da democracia

As consequências desse golpe jurídico, parlamentar e midiático, que foram as principais forças desse golpe, ainda estão entre nós

Dilma Rousseff - 30/08/2024 (Foto: Reuters)

Minha relação com Dilma não começa em cargos ou instituições. Começa na juventude, quando éramos dois jovens de cerca de 19 anos vivendo em um país que perseguia seus próprios filhos. Eu havia saído do Espírito em 1965, nos encontramos alguns anos depois no Rio de Janeiro, em 1969, ambos procurados. Nesse mesmo ano, no dia 4 de novembro fui sequestrado no Rio, quando Carlos Marighella, traído, era assassinado em SP.  

Em março de 1970, foi a vez da companheira Dilma (Vanda pra mim) cair prisioneira. 

Estas não são apenas lembranças, são marcas de uma geração que conheceu, na pele, o que significa uma ditadura cruel e antipatriótica.

Dez anos depois do golpe, o que mais me espanta é a fragilidade da memória.

17 de abril de 2016 não é uma data qualquer. É rememorar para não esquecermos que a conspiração golpista no Brasil é histórica, cujas raízes não foram extirpadas. 

Eu vivi política o suficiente para reconhecer quando um rito institucional é esvaziado por dentro. E foi isso que foi visto naquele dia: a Câmara dos Deputados transformar um processo que deveria (se é que deveria) ser jurídico em um espetáculo televisionado, abrindo caminho para o afastamento da legítima presidenta Dilma Rousseff.

Sob o pretexto de legalidade, uma votação marcada por declarações vazias, homenagens deslocadas e pouca ou nenhuma preocupação com o conteúdo real das acusações, um espetáculo armado foi feito. 

Naquele plenário, o país assistiu um desfile de votos que evocavam Deus, família e memórias pessoais, enquanto a justificativa central, as chamadas “pedaladas fiscais”, era tratada de forma superficial. 

E naquele espetáculo, uma homenagem na hora da votação não pode nunca ser esquecida ou perdoada: feita por Jair Bolsonaro a um torturador, Carlos Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como responsável por práticas de tortura durante a ditadura. Aquilo não foi apenas um voto. Foi a exposição, sem pudor, de uma visão de mundo que naturaliza a violência da tortura pelo Estado.

E se alguém ainda tinha dúvida de que havia um movimento articulado por trás daquele processo, ela se dissipou quando veio a público a gravação do então senador Romero Jucá. Nela, ao falar sobre a necessidade de retirar Dilma do poder, ele foi direto: era preciso “estancar a sangria”, em referência às investigações da Lava Jato, e fazer isso “com Supremo, com tudo”. A frase não foi um deslize. Foi uma confissão. Indicava que o impeachment não era apenas um processo político isolado, mas parte de um rearranjo mais amplo, envolvendo diferentes setores de poder.

As consequências desse golpe jurídico, parlamentar e midiático, que foram as principais forças desse golpe, ainda estão entre nós. 

O que aconteceu em 2016 não terminou ali; mudou a forma como a política brasileira passou a operar, mais instável, mais desqualificada e mais venal à rupturas. Mas o golpe contra Dilma não atingiu apenas um governo.

Atingiu os eleitores que a elegeram, atingiu a minha geração. Uma geração que enfrentou a ditadura, que foi perseguida, sequestrada, torturada. 

Há um impacto histórico e um impacto social que se misturam e não podem ser ignorados.

Eu vi traições acontecerem. Vi adesões rápidas ao novo poder. Paulo Hartung, governador do Espírito Santo na época, foi o primeiro governador, a se alinhar ao Golpe do Temer, abrindo caminho para muitos outros. 

Hoje, muita gente não lembra, ou sequer conhece, esta história recente. 

Por oportuno, em época de identitarismo, sublinho que no movimento revolucionário do qual fizemos parte, havia algo inegociável: a igualdade de gênero não era discurso, era prática. Homens e mulheres ocupavam os mesmos espaços, corriam os mesmos riscos e eram tratados como iguais na luta, como fomos Dilma e eu. 

Dilma, camarada Vanda, é parte desta história.

 "Não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles". Dilma Rousseff.

Está sendo e ainda será mais.

Memória, justiça e verdade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.