11 de Setembro: 20 anos de disputas sobre o “Real”

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O Século XXI não começou dia 01/01/2001, e sim na manhã de 11/09/2001, quando dois aviões se chocaram nas Torres Gêmeas, em uma imagem que alguns inicialmente achavam ser de Hollywood. O ataque horripilante à maior nação do mundo, o maior sofrido em território doméstico, antes de tudo parou o mundo para observar a traumatizante e insubstituível perda humana: 2.994 americanos mortos durante os ataques, com mais perdendo a vida até hoje graças a inalação de amianto com a poeira do prédio. Imagens na televisão pareciam um verdadeiro filme de horror, com pessoas se jogando pela janela para ter uma morte mais rápida, como registrou a fotografia The Falling Man, clicada por Richard Drew. Milhões de vidas igualmente importantes seriam mortas em guerras injustificáveis no Afeganistão e no Iraque, chegando quase a marca de um milhão de mortos, fora o grande prejuízo financeiro e material. O artista francês Phelippe Petit, que em um fio, cruzou as Torres Gêmeas em 1974, ficou de coração partido.

O espírito de época - cultural, político, espiritual - mudou. Músicas foram banidas da rádio. O entretenimento reagiu com grande ansiedade: representar o trauma ou o escapismo? A posição de “inimigo do ocidente”, vaga desde o fim da URSS, era ocupada: o terrorismo. E a Guerra Ao Terror, declarada por George W. Bush, entre tantos inocentes, assassinou um brasileiro, quando Jean Charles foi executado pela Polícia de Londres em 2005. Medidas paranoicas de segurança pública, o polêmico Ato Patriota e escândalos de vigilância nos EUA seguiram. Embarcar em um avião tornou-se uma experiência completamente diferente. Islamofobia tornou-se um problema mundial, que persiste até hoje, como mostra o massacre que deixou 51 mortos em Christchurch, Nova Zelândia, há dois anos.

Mais do que tudo, o 11 de Setembro mostrou que, ao contrário do que cravou de forma infame o economista Francis Fukuyama em 1992, a história não havia acabado. A vitória do neoliberalismo despertou previsões de um mundo onde a globalização e o livre mercado serviriam como modelo econômico libertador para todo o globo. A “McDonaldização” viria com ajuda de órgãos soberanos como o FMI e o Banco Mundial, que ameaçaram países como o próprio Brasil de sanções, caso não se enquadrassem neste projeto econômico. Mesmo antes dos atentados e das invasões ao Afeganistão e ao Iraque, os políticos, economistas e intelectuais proeminentes do neoconservadorismo, abreviado  neocon, já propunham intervenção militar como forma de importar o modelo, como foi o caso da intervenção na Iugoslávia através do exército da OTAN, apoiada por, entre tantos, o atual presidente americano Joe Biden. O nome do maior “think tank” neocon era bem direto: Project for the New American Century, defendendo intervenções e com integrantes que ocupariam papéis chave na administração Bush.

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A globalização revelou, entre outras coisas, que o mundo era maior, com mais agentes e mais ideologias, do que o ocidente pensou nos 10 anos onde reinou absoluto, entre o fim da União Soviética e o 11 de Setembro. O mundo, sob a luz da globalização, se revelou ideologicamente diverso: o Al Qaeda foi seguido de grupos terroristas como ISIS e  Boko Haram, com o fundamentalismo religioso batia de frente com valores liberais. O Talibã, incapaz de ser eliminado do Afeganistão, representou uma derrota americana em solo estrangeiro similar à do Vietnam - em mais um país onde os EUA efetivamente pioraram o extremismo e precariedade ao tentar intervir na soberania de outra cultura. Rússia voltou dos mortos com uma administração nacionalista rigorosa de Vladimir Putin, buscando replicar a zona de influência da “cortina de ferro” com nações próximas, em detrimento a União Europeia. China apareceu como nova grande ameaça, com um modelo econômico inovador com um grande contraponto aos EUA, seus próprios investidores dependendo cada vez mais dele. A “onda rosa” de governos de esquerda na América Latina veio na mesma época, interrompida uma década depois por golpes de estado – histórias que conhecemos bem. Entre tantas outras forças não-ocidentais, de diferentes níveis de poder e influência, espalhadas por um mundo de “outras globalizações” não previstas por tantos acadêmicos. Os EUA, em prejuízo após gastar 6 trilhões com a “Guerra ao Terror”, entraram em séria crise financeira em 2008, algo ligado diretamente a ascensão da extrema-direita nos anos seguintes, seu próprio sinal retrógado da fragilidade de sua democracia e suas instituições, com a chegada de Donald Trump ao poder e uma lamentável resposta a pandemia como evidências à mostra.

O 11 de Setembro também foi um importante catalizador de um século de disputas sobre a própria noção do que é a realidade. Uma década antes do período onde mentiras diárias e campanhas de desinformação que marcam políticos como Trump, as instituições dos EUA mentiam e usavam um povo emocionalmente abatido para aprovar invasões criminosas ao Afeganistão e ao Iraque. Dez anos antes de “pós-verdade” se tornar a palavra do momento, havia a similar “truthiness”. A arma química anthrax logo virou o bicho-papão, com ataques ainda em 2001; o terrorista foi descoberto como funcionário caucasiano do governo americano. Acusações infundadas acusaram Saddam Husseim de ter armas de destruição em massa, algo que nunca foi encontrado. Até militares manifestaram suspeita das invasões, com alguns serviços de inteligência mostrando que seria prejudicial na própria caça ao Al Qaeda. Escândalos de tortura como na Baía de Guantanamo, Cuba e em Abu Ghraib, Iraque escancaravam a decadência democrática e humanitária do ocidente. O documentário recém lançado na Netflix, “The Turning Point” entra em um estudo de 5 horas das implicações das invasões. O perverso mandato de Donald Trump levou a uma “parcialidade do recente” ao levar americanos a revisarem todos seus presidentes anteriores como figuras de bem, institucionais. O documentário mostra que Bush provavelmente foi ainda pior que Trump, com crimes de guerra e contra a humanidade no seu legado.

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A enorme relativização da verdade se estendeu na imaginação popular, especialmente com a ascensão do espaço digital, onde há inúmeras teorias da conspiração sobre os atentados. Apesar do choque inicial em seções de comentários da velha internet não conspirarem, com o tempo, as teorias da conspiração sobre o 11 de Setembro se tornaram das mais populares. Setores de esquerda acusavam conhecimento prévio ignorado pelo governo, sob intenção de ter uma justificativa para as invasões do Oriente Médio, onde o petróleo tanto interessava economicamente aos EUA. Curiosamente, o mesmo foi acusado em Pearl Harbor, sem evidências; mas também no Golfo de Tonquim, incidente que precedeu a Guerra do Vietnã, eventualmente comprovado. Grupos mais marginais iam mais longe e acusavam do ataque ter sido planejado pelo próprio governo americano, com vários deles eventualmente apoiando Trump e o maior, Alex Jones se tornando importante integrante de sua campanha Trump – que além da esquerda, também tinha como alvo a velha direita de conservadores como. Uma pesquisa do Zogby International, em 2004, mostrou que 49% dos residentes de Nova Iorque acreditam que “o governo americano sabia com antecedência dos ataques de 11 de Setembro e conscientemente falhou em agir”.

Há fundamento nas acusações? O pesquisador Loïc Nicolas aponta que teorias da conspiração“podem surgir de uma necessidade coletiva de dar sentido e propósito para acontecimentos traumáticos, injustos e de difícil compreensão, onde a explicação delas busca restaurar o sentido perdido, humanizando, dando razão, corpo e causas a episódios dolorosos a fim de justificar que seus acontecimentos não ocorreram por nada”. 

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É mais fácil acreditar em uma conspiração de grupos poderosos do que em um simples evento caótico, de uma vida sem controle que permite a, por exemplo, um atirador solitário sem recursos, como Lee Harvey Oswald, de tirar a vida de um presidente. Teorias da conspiração retomam a ideia de que o mundo é causa e efeito, movidos por intenções, não por séries de acontecimentos que, tão complexos e ambíguos, que respostas tantas vezes não são simples. No 11 de Setembro é parecido: há uma negação coletiva de que os Estados Unidos não poderiam ser tão vulneráveis quanto eram. Com o desejo em retomar o status quo político, o subconsciente coletivo delas é de que: apenas os Estados Unidos seriam capazes de fazer mal a si mesmos. The Turning Point complexifica os acontecimentos e esclarece que os EUA viviam desorganização institucional, e grupos como seu governo federal, a CIA e o FBI não eram tão articulados quanto o imaginário popular espera, com disputas internas por poder e orçamentos especialmente os comprometendo. No fim das contas, a conclusão é de que o Al Qaeda, que assumiu os ataques através de uma longa carta de Osama Bin Laden, foi competente o suficiente para atacar a maior nação do mundo, justo no seu coração financeiro. 

Bin Laden atingiu seu objetivo? O século caótico que seguiu os atentados, com o controle absoluto do globo esperado pelos Estados Unidos não acontecendo, uma crise democrática e financeira gerada pelos atentados e a recente vitória do extremismo religioso no próprio Afeganistão mostram que o terrorista sanguinário, na pior das hipóteses, alterou o curso da história, por mais depressivo que seja admitir. O finado The Project for the New American Century, afirmou em escritos de 1998 de que uma invasão ao Oriente Médio deveria ser prioridade, mas só aconteceria no caso de "algum evento catastrófico e catalisador, como um novo Pearl Harbor". Eles conseguiram, e o século inteiro segue como consequência daquele grande evento de 20 anos atrás.

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